Arquivo do dia: 27/08/2012

Uma Narrativa Incansável

Sempre que faço aniversário, minha mãe conta a história de como foi o meu nascimento. Ela conta que nasci às 9h30 de um sábado gelado; vim ao mundo por cesariana. Eu era o bebê mais gordo da maternidade. Quase cinco quilos. Chorei tão alto que meus tios acharam que eu era um menino. Tinha cabelos pretos arrepiados. Cenho franzido.

Quando eu era pequena e fazia aniversário, achava meio chato que meus pais me puxassem para o canto, me afastassem da minha festinha e contassem essa narrativa do meu nascimento. Entediada, ouvia essa melodia já sabendo como seria o ponto final. Sabendo em quê momento minha mãe daria a ênfase do meu peso de recém-nascida. Conhecia o refrão. Ficava meio envergonhada quando falavam que berrei alto feito meninozinho.

Essa história ficou tatuada em meu imaginário. Minha mãe contava e recontava, enquanto as velinhas de aniversário aumentavam em cima do meu bolo, ano após ano.

Um dia, em algum aniversário perto dos 21 ou 22 anos, minha mãe acrescentou um novo detalhe – como se fosse o detalhe em azul no desenho preto e branco. Ela disse que, no dia anterior ao meu nascimento, sonhou com cavalos marinhos.

Isso foi o suficiente para que a história, antes empoeirada, ganhasse juventude. Interessada, entendi que havia outros detalhes que minha mente acomodada nunca quisera saber. Na época, eu começava a enveredar pelo campo minado do jornalismo. Então, resolvi tirar de vez a poeira da narrativa e perscrutei outros detalhes. Por exemplo: como minha irmã mais velha reagiu ao novo bebê?

Descobri que fui a alegria da vidinha de minha irmã, que é dois anos mais velha que eu. Descobri também que eu tinha um macacãozinho com desenho de melancia.

Desde então, quando faço aniversário, procuro novos detalhes dessa narrativa que é a minha chegada ao mundo. Quando a voz mansa de minha mãe começa a contar a história – “Comecei a sentir contrações na sexta de noite, enquanto via televisão” – entro em transe. Tenho vontade de gravar sua contação para que isso fique eternizado, para que ganhe a eternidade do final feliz.

Mas nunca gravei. Sei que não adianta. Sou feliz ouvindo a história ao vivo; conferindo a interpretação rica de minha mãe; reparando que, ano após ano, mamãe ganha novas rugas ao redor dos olhos e no sorriso. Percebendo que ela é incansável quando se trata de uma de suas maiores alegrias. Me dando conta de que as felicidades verdadeiras não se comparam em nada com as migalhas de alegria que já tive até hoje…

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