Um currículo que não vale a pena

Relendo meus diários da adolescência, repletos de histórias insólitas que demoro par acreditar que são minhas, constatei timidamente que tive muitos relacionamentos nessa fase. E não pense que estou exagerando: eu chegava a administrar ao mesmo tempo três namorados – eles que não me leiam agora… se você é me ex-namorado, peço gentilmente para abandonar a leitura.

Dou risada ao lembrar de uma vez em que um menino deixou uma marca vermelha no meu pescoço, e tive que mentir para os outros dois sobre a procedência dela. Inventei a história mais idiota do planeta: disse que havia levado uma pedrada. Eles acreditaram. Aconteceu bastante também de estar em uma festa com mais de um namoradinho: dava um jeito de ser onipresente para meus companheiros, sem que um fizesse ideia do outro.

Entrar em relacionamentos sempre foi muito fácil para mim. Enquanto amigos reclamavam que não encontravam pessoas legais, meu problema era tê-las em excesso. E tinha pena de viver apenas uma história inesquecível: meu lance era viver várias, paralelamente, até não dar mais conta. Meus diários estão repletos com nomes de meninos (que não reconheço mais) e, abaixo de cada nome, as qualidades e os defeitos de cada um. Fiquei com vontade de estraçalhar a página em que eu citava como defeito a berruga na perna de um deles.

Eu nunca fui uma pessoa muito exigente para selecionar namorados. Na verdade, eu sempre acreditei que algumas pessoas precisam trazer para a nossa vida as suas qualidades, seus defeitos, suas dores de cabeça e sua perspectiva de um céu estrelado. Toda e qualquer pessoa traz, debaixo do braço, a sua caixinha de giz de cera para colaborar com o grande painel que é a nossa vida. Todos somos muralistas – mesmo que um pouco desajeitados.

Eu deixei a poligamia de lado aos 24 anos – afirmo isso ruborizada –, quando conheci Danilo. Minha paixão por ele foi semelhante a levar o golpe de um raio na cabeça. Lembro que, dias depois de conhecê-lo, eu tentava entender o que estava acontecendo com o meu peito. Sozinha, de joelhos e com o coração em transe, segurava o peito para que não implodisse. Mas essa paixão não fez raízes. Não virou amor. A paixão é apenas a semente; não significa raízes e muito menos flores. Minha história com Danilo terminou parecida com seu começo: de joelhos, coração arrebentado e rabiscada por lágrimas, me arrastava para fora de um buraco negro.

Entrar em um relacionamento é como embarcar na montanha russa: a gente está empolgado com a expectativa da felicidade. Terminar relacionamentos é igual tentar desembarcar da montanha russa, depois de uma viagem absurda, impactante e cansativa. É preciso descer logo do brinquedo, antes que a trajetória recomece.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Um currículo que não vale a pena

  1. Lendo esse texto seu lembrei da minha adolecencia tambem, tive um diario assim recheado de nomes de meninos… rs

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