A Carta de Luiza

Eu havia acabado de fazer um bate papo com uma turma difícil – havia sido complicado manter os estudantes adolescentes do terceirão interessados. Precisei de muita interpretação e emoção para manter aqueles olhinhos acesos, me olhando sem piscar. A turma não riu nenhuma vez, então, eu estava me sentindo meio fracassada e insegura. Não sabia se tinha conseguido passar minha mensagem para algum daqueles jovens.

O sinal bateu para o intervalo e os estudantes saíram aos poucos da sala. Eu estava arrumando minha bolsa, distraída e meio chateada, quando a garota se aproximou.

– Eu queria que você lesse isso quando chegasse na sua casa – me disse, entregando um bilhete dobrado várias vezes

– Ah, tá bom. É algo que eu preciso responder?

Ela pareceu insegura.

– Sim, se possível gostaria de ter um retorno.

Reparei mais um pouco nela – cabelos castanhos, lisos. Olhos escuros e grandes. Pele clarinha, lábios finos.

– Tudo bem. Qual seu nome? – Perguntei, por fim.

– Luiza – respondeu, antes de se misturar ao restante dos estudantes que saiam da sala.

Examinei o bilhete dobrado em minhas mãos e o guardei na bolsa. Ele parecia aqueles bilhetes que eu trocava com minha melhor amiga na escola, quando era pré-adolescente. A gente tinha tanto assunto, que os “bilhetinhos” ficavam enormes, quase um jornal do nosso dia a dia.

Ao chegar em casa, almocei e resolvi abrir o bilhete. Com uma caligrafia cuidadosa e redondinha, feita por bic azul, Luiza me contou um segredo. Contou que se sentia suja, quebrada e triste… porque havia sido abusada.

Ao ler essa tragédia, narrada por sua letrinha linda de princesa, fiquei boquiaberta. Foi um daqueles momentos em que tive a sensação de que meu coração parou de bater. Com a boca aberta em espanto e sem respirar, relia o que tinha acabado de ler. Tentava achar mais informações naquele bilhete; virava e revirava o papel de caderno, cheio de pedacinhos soltos por ter sido arrancado de sua espiral. Minhas lágrimas derreteram algumas palavras da carta. Meu desespero apenas piorou a necessidade em analisar os detalhes de sua narrativa e caligrafia.

Sem conseguir falar, mostrei a carta ao meu marido – era a pessoa mais próxima de mim naquele momento. Ele se espantou também e me fez perguntas que eu não sabia responder. Fiquei com raiva, pedi para ele ficar quieto e acabamos brigando.

Naquela tarde, conversei com alguns amigos professores sobre a situação de Luiza. Como proceder? O que me deixava ainda mais desesperada era o fato de a garota não ter mencionado se isso era recente; se ainda acontecia e se os pais dela já sabiam. O dia passou rápido – como sempre acontece quando algum assunto nos domina e nos torna surdos para o resto do mundo – e eu me vi com insônia, ao deitar a cabeça no travesseiro.

A pedofilia é algo que não faz parte da minha história. A primeira vez que eu ouvi esse termo eu tinha a mesma idade de Luiza – perto dos 16 anos. Quando fiquei sabendo que existiam adultos que estupravam menores, eu fiquei horrorizada. Foi um machucado para a minha noção de coletividade com o ser humano. Pessoas iguais a mim cometiam atrocidades com crianças… Demorei anos para conseguir aceitar que isso acontecia – mas ainda hoje sinto uma martelada no peito, quando lembro que uma em cada cinco adolescentes já sofreu abuso.

Nesta noite não dormi. Fiquei pensando nos motivos de Luiza ter me contado isso. Ela havia hesitado quando perguntei se era para responder – mas ela disse que gostaria, sim, de ter um retorno…

No dia seguinte, resolvi escrever uma carta para Luiza. Fazer um bilhete parecido com o que ela me mandou. Arranquei uma folha do meu caderno e escrevi:

Luiza:

Me chocou muito o seu relato. Isso é recente? Quem foi esse monstro? Isso ainda acontece? Seus pais sabem?

Isso o que aconteceu com você foi um crime, e você precisa fazer terapia! Saiba que esse monstro precisa pagar pelo que fez. Você não é suja e muito menos deve se sentir culpada! Você é linda, uma princesa, e tenho certeza que seu futuro será brilhante. Continue estudando!

Conte comigo sempre!

Voltei à escola em que Luiza estudava e pedi para a recepção chamá-la. Meu coração levou um choque quando a secretária me disse que ela não havia ido à aula. Deixei o bilhete com uma professora amiga. Mas Luiza ficou sem ir à escola a semana inteira. Eu ia dormir me remoendo de dúvidas e agonia. Pensando no desespero que é sofrer isso que Luiza sofreu.

Uma vez, vi uma cena de estupro em um filme e vomitei. Passei mal o mês inteiro. Ainda hoje sinto tontura quando lembro. Agora imagine viver uma selvageria dessas na fase mais ingênua da vida. Passo mal ao escrever agora.

Nunca mais fiquei sabendo de Luiza. Ela não tem facebook e não tenho amigos em comum com ela. De vez em quando, a imagem desse bilhete com letra linda e conteúdo horrível aparece nos meus sonhos. Ou então, parece que vejo essa menina de cabelos e olhos castanhos vestida de camisola e com um ursinho de pelúcia, andando por um gramado bem verdinho. Acordo estragada e sinto raiva.

Raiva por não ter ajudado mais, raiva dessa sociedade porca e negligente que é a minha.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “A Carta de Luiza

  1. Naomi

    Realmente é indignante… gente suja, sem escrúpulos…

  2. Cirineu

    Taí, explicado seu sumiço do blog, você virou assistente social! Brincadeira, eu também fiquei comovido com a estória, com essa e com a anterior, mas chorar não resolve. O fato é que o Brasil está cheio dessas mazelas e vai demorar um pouquinho ainda até você entender que não poderá ajudar a todos, provavelmente é isso que as pessoas próximas a você estão tentando lhe dizer. Fico contente por você de qualquer forma, pois nada acontece sem uma razão.

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