Arquivo do mês: abril 2013

O ciclo da dor e da vida

(Crônica para a revista Duo de abril)

De frente para o espelho, minha mãe pendurava brincos dourados nas orelhas. Havia acordado sorridente. Era seu aniversário de 50 anos. Os olhos escuros brincavam com a franja castanha, curtinha. O telefone tocou. A má notícia era que o pai dela havia perdido a curta batalha contra o câncer no cérebro.

Mamãe desligou o telefone devagar, sem susto. Enquanto escovava os cabelos, percebi que seu pranto começou pelas sobrancelhas. Sua respiração ficou pesada. A escova caiu de sua mão trêmula. Era hora de embrulhar minha mãe em um abraço.

Tudo o que a gente faz pela primeira vez é especial, porque se assemelha com um papel em branco – ali, podemos desenhar qualquer coisa. A liberdade é a infância de um aprendizado. Mas o desenho ficará gravado e indelével, sem chance de recomeçar do zero.

Enquanto sentia as lágrimas quentes de minha mãe descendo pelo meu ombro, me orgulhei – estranhamente – por ser a primeira pessoa a oferecer consolo a ela. E percebi que era a primeira vez que via minha mãe tão vulnerável.

Lembrei de uma vez, na adolescência, quando mamãe leu o meu diário e descobriu que eu havia me relacionado com um rapaz mais velho. Ela lera meu caderno em segredo – mas este ato ficou bem claro na sua feição assim que a vi. Os olhos estavam raivosos e a boca parecia guardar um grito. Comecei a chorar na hora e pedi perdão. Ela me abraçou e minhas lágrimas correram pelos seus braços. Havia me perdoado.

Esse abraço silencioso de mamãe me fez uma pessoa melhor. Era uma chance, uma borracha para apagar o traço do desenho que saiu errado, um relicário.

Enquanto embalava minha mãe na sua dor – na dor que moraria para sempre em sua caixinha de brincos – entendi que a maternidade é mais do que o amor que vem de cima para baixo, junto com a chuva e o sol. A maternidade é o chão que aceita nossos joelhos dobrados em prece, nossos passos de dança e o nosso abraço de igual para igual.

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