Arquivo do mês: julho 2013

Deus tem medo da minha mãe

Minha mãe reza. Mas não estou falando daquelas orações serenas, acompanhadas de uma bíblia velha e doce. Não se trata de pais-nossos sussurrados com amor e olhos melancólicos que miram o céu. Minha mãe reza como quem segura o machado. Ela reza para chacoalhar o mundo.

E ela chacoalha.

Em criança, eu vi minha mãe rezando para que meu irmão menor curasse daquela grave pneumonia que o deixou com olhos estalados e mãozinhas duras. Curou, e o médico não sabia explicar o motivo. Seus remédios não eram tão potentes assim. A oração de minha mãe foi o mais puro antiinflamatório que o mercado farmacêutico e a religião já viram.

Outra vez, minha irmã mais velha ainda era criança quando bateu a cabeça na mesa e rasgou o supercílio. Minha mãe segurou o rostinho da menina, enquanto o sangue escorria por entre seus dedos. Com olhos malvados e boca endurecida, entendi que mamãe estava rezando. Não restou cicatriz no rosto da minha irmã. Foi como se não tivesse acontecido. Restou apenas a cicatriz na memória.

Há alguns anos, nos mudamos para uma casa que minha mãe não aprovou. Ela odiava a casa, e ninguém entendia o motivo. Um dia, o muro da casa caiu e destruiu a cozinha. Vi mamãe rezando, e achei por muito tempo que sua oração havia falhado.

Mas não. Foi certeira. Tivemos de nos mudar.

Eu sou ateísta. Mas tenho medo das orações da minha mãe. Aliás, mais do que medo: respeito. Antes de fazer uma entrevista de emprego, pedi: “Mãe, reza?”. Solene, ela aceitou. Rezou. Consegui a vaga impossível.

Quando reparo que minha mãe está com os olhos diferentes, sei que tem uma oração pendurada em seu coração. É quase como se eu conseguisse sentir o retumbar daquela reza em seu corpo; o clima fica diferente. É como se os passarinhos parassem para nos observar. O mundo pára para ouvir a linguagem da minha mãe.

Quando ela entrelaça os dedos em formato de oração, sei que ali está o ouvido do universo. Já a observei dar puxões de orelha em Deus. Já a observei agradecer e acariciar o mundo com sua mão mansa.

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Gritar é um revólver

Acordei de madrugada sem conseguir respirar. Um grito estava empedrado na minha garganta. Com os olhos molhados e a boca muda em desespero, apertei meu pescoço para tentar arrancar aquilo à força. Então lembrei: quanto mais eu me estrebuchar, pior… já fora assim da outra vez. Gritos não são como espinha, como espirro e muito menos como uma ideia.

Assim que parei de me mexer, um fiozinho de oxigênio enfiou-se para dentro da minha garganta. Devagar, meu corpo voltou a respirar e meus olhos conseguiram piscar. Assombrosamente, concluí que o grito se escondera pelo meu corpo.

No terror daquela escuridão, emoldurada por um lençol emaranhado, apalpei devagar os meus ombros e, depois, meu tórax, imaginando em quê veia ou tendão estaria escondido esse grito.

Suada, sentia-me aliviada porque, por enquanto, eu estava a salvo em meu silêncio. Por que eu segurei o grito, no fim das contas? Porque aquele seria só o primeiro.

Grito é como sangue. Grito é como revolta, rebeldia, pensamento: vicia. Grito é a manobra da mão que atinge o rosto. Um grito é como sorrir quando se quer morrer. Gritar é um revólver: mata.

Um grito ecoa pela vizinhança e se mistura aos sonhos das pessoas, adicionando pimenta ao sono. Um grito é quando a minha mãe quebra um prato por querer. Pular da janela é um grito doce. Uma vez uma amiga se escondeu no banheiro do escritório em que trabalhava para chorar. Grito abafado.

O grito corria pelas minhas veias, quem sabe para ser usado contra um rosto macabro de pesadelo. Tremi ao pensar que aquele grito poderia me causar um AVC.

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