Arquivo do mês: outubro 2013

Confissão (ou momentos de chuva e tatuagens)

A maioria das pessoas não gosta de chuva. Assim que o céu se esconde nas nuvens, muita gente reclama. “Que dia feio”, costuma-se dizer para manhãs úmidas. Quando, na calmaria do dia ou da noite, ouve-se uma trovoada distante avisando que o temporal vai lavar o mundo, muitos praguejam contra São Pedro.

Mas eu, na minha distração e paz, fecho os olhos e agradeço.

Eu amo chuva. Temporais, então, me deixam sorrindo por dentro, numa calma que ninguém sabe que eu tenho. Escondo meu sorriso naquele clichê: “chuva de novo? Ah não”…

Eu descobri na infância que amo chuva. Lembro-me que era um dia de calor absurdo, úmido, desumano. Minha mãe havia brigado comigo porque eu arrastara seu novelo de lã favorito pelo gramado da casa. Estragara todo aquele novelo cor de salmão, lindo. A mulher estava tão enfezada que não queria me ver na frente dela. Fiquei magoada pela rejeição da minha mãe, apesar de entender.

Então, como forma de autocastigo, fechei-me no quarto, no escuro, sozinha, náufraga no silêncio. Momentos depois, ouvi um barulho que fez o chão tremer e as janelas chacoalharem. Parecia que o mundo havia rosnado. Ou que uma bomba havia estourado devagarinho longe dali. Seria o universo se vingando de mim, a mando de minha mãe?

Assustada, continuei parada, apenas com os ouvidos aguçados e os olhos muito acesos no escuro.

Ouvi que a empregada gritou: “tem que tirar as roupas do varal”.  Havia muita correria na casa – enquanto os adultos pareciam preocupados, meus irmãos riam e gritavam empolgados. Segurei a curiosidade e continuei quieta, só ouvindo. O vento começou a apitar nas frestas das janelas. Reparei que as janelas haviam escurecido. Parecia noite.

Um arrepio nasceu na pontinha dos dedos dos meus pés e correu até o meu couro cabeludo – sensação que eu teria muitas vezes depois diante de músicas incríveis, filmes inesquecíveis, pessoas sensacionais e gestos de altruísmo e bondade que transformaram-se em uma tatuagem no meu coração.

Então, transbordando de adrenalina e medo, com a audição muito afiada, ouvi o mundo se mexendo lá fora. A impressão que tive pelo barulho era que, aos pouquinhos, alguém começou a jogar arroz cru no terraço de casa. Primeiros alguns grãos, depois um pouco mais… eram estalinhos incoerentes que, como mágica, pareciam estar em harmonia. Era o som universal e encantador da chuva deitando na Terra.

Meu nariz foi abraçado por um dos aromas mais apaixonantes que já encontrei em minha trajetória em cima desde planeta: cheiro de grama molhada. A chuva ficava cada vez mais forte, e o mundo rosnava com raiva. Os relâmpagos faziam as janelas piscarem.

De repente, minha mãe entrou no quarto e me puxou pelo braço. Percebi que a casa inteira estava no escuro, e minha família estava abraçada na sala, ao redor de uma vela. Os adultos estavam atentos, mas sem medo. As crianças pareciam se divertir com esse ciclo da natureza – olhavam empolgadas para a janela da sala, que ganhou a imagem da água em abundância serpenteando pelo vidro.

Minha mãe sentou abraçada comigo no sofá. Fiquei me perguntando se ela havia esquecido o lance da lã; será que ela havia me perdoado tão rápido? Ora, a minha experiência até então me dizia que os adultos demoravam dias e dias até perdoar uma mancada, enquanto as crianças perdoavam em três segundos.

Minha mãe tremia um pouquinho… na época eu achei que fosse de frio. Anos depois entendi que os adultos podem, sim, sentir medo de dias chuvosos, pois para muitos a água é sinônimo de destruição e morte. E minha mãe tem, dentro dela, um machucado feito pela água.

Eu e minha família assistíamos hipnotizados ao espetáculo do mundo chovendo, o planeta chorando, se retorcendo de tanta água. Nós conversávamos coisas que só se conversam em dias de chuva, frente a uma vela. Meu pai falava com a voz mansa, que ele só usa em dias de chuva em que acaba a energia elétrica.

E eu senti que momentos assim eram parênteses no nosso dia a dia.

Nossa vida pode ser tão normal e típica (mas confesse: você não concorda que as melhores coisas, aquelas que ficam tatuadas na memória, são momentos singelos de silêncio, sorriso e vela?).

Às vezes tenho a impressão de que os dias passam por mim sem gosto e sem tempero (mas entendo totalmente que, muitas vezes, as pimentas estão concentradas em poucos segundos, deixando os nossos olhos molhados e a risada entalada na garganta).

Vez ou outra, parece que não faz sentido estar aqui, na Terra. Por quê estamos aqui? (Será que é para coletar poucos momentos em que os olhos se fecham, para que o sorriso se abra para o mundo e para o além?)

No fim das contas, acho que estamos no escuro (e que é preciso de um relâmpago ou outro para acender, por um milésimo de segundos, o nosso caminho).

(Eu sei lá. Só sei que estou com a alma todinha tatuada de alegrias e chuvas.)

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Minha mãe fuma

Minha mãe fuma. E desconfio que seu vício não seja apenas no sabor da nicotina.

O cigarro, desde os seus 15 anos, é uma extensão fumegante dos seus dedos. Minha mãe gosta de fazer as unhas; pinta de rosa, café ou vermelho Ivete. Mas de quê adianta, se no fim das contas a fumaça espiralada e cinzenta é sempre a vírgula dos seus dedos?

Minha mãe não fuma dentro de casa, em respeito ao restante da família que é livre do vício. Quando sente que precisa fumar, a mulher se retira para a sacada do apartamento e senta-se à pequena mesa. A mesa é o santuário de seu vício. Só serve para isso: para os cigarros da mãe. A mesa é povoada de xícaras com restos de café puro e existe um cinzeiro apinhado de tocos de cigarro. Todos eles tem o filtro lambuzado de batom rosa choque. Sim, minha mãe passa batom para fumar.

Desde pequena, assisto ao espetáculo que é a minha mãe fumando. Existe toda uma rotina. Ela retira-se para a sacada, senta-se à mesa e encara a esquina do mundo por alguns momentos. Com os olhos castanhos bem sérios e sobrancelhas franzidas, conversa um pouco com o horizonte. Nunca perguntei para ela o conteúdo desse papo, gosto de dar privacidade. Mas, pelo tom de seu rosto, imagino que seja um papo bem cabreiro.

Então, ela termina a conversa com violência. Como quem bate a porta na cara do interlocutor. A mãe puxa o maço do bolso do roupão, pinça um cigarro e o encaixa entre os lábios. Do outro bolso do roupão, tira um isqueiro e acende o cigarro. Enquanto o acende, encara a força do fogo com as pálpebras semicerradas. Dá a primeira tragada com ansiedade e raiva. Os lábios finos, coloridos de rosa, ganham um sorriso vencido.

Com o cigarro equilibrado entre os dedos indicador e médio, a mão próxima ao rosto, a mãe volta a olhar para o infinito do planeta e parece fazer perguntas. Tenho a impressão de enxergar os pontos de interrogação transbordando, castanhos, de seus olhos. Eles dançam pelas rugas ao redor dos olhos da mulher.

Com o maxilar apertado e narinas dilatadas, minha mãe testa a fé no ser humano, no mundo e em toda a história da sua vida. Não é a mulher que segura o cigarro; é o cigarro que segura a minha mãe pela alma. Com o espírito pendurado em um pau de arara, os gritos internos da mulher estouram sua pele em rugas, marcas de expressão e manchas que desenham pouco a pouco o mapa da tristeza em seu rosto.

Todo cigarro carrega seis minutos de tortura para essa mulher. Enquanto a nicotina navega pelas suas veias, minha mãe luta contra os fracassos de seu caminho; se digladia com uma doença que a faz ouvir vozes horríveis toda manhã; lembra-se das cartas guardadas com rancor dentro de uma bíblia surrada e empoeirada.

Todo cigarro é um abismo em que a mãe chega pertinho e olha. De acordo com Nietzsche, sem dúvidas, o abismo olha de volta para ela. Faz 35 anos que o abismo olha para dentro dela.

Com as sobrancelhas erguidas, minha mãe esfola a cabeça do cigarro no cinzeiro. Antes de se levantar e seguir sua vida, a mulher ainda dá mais uma espiada no horizonte do mundo, como quem diz: até o próximo.

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Ele desenhou um sorriso em mim

Ícaro é desenhista.

Eu acredito que algumas pessoas se transformam em desenhistas porque o mundo é pequeno demais para elas. Então, é preciso desenhar algumas portas e janelas – mesmo que imaginárias, feitas de lápis 6B. Este é o caso de Ícaro. Para ele, o mundo estava cinzento demais, pequeno demais, engraçado de menos. Aí, resolveu que ele mesmo ia estender seu mundo munido de lápis, papel e olhos arregalados.

Não sei ao certo como me apaixonei por ele, mas sei que posso culpar os olhos escuros dele. Ícaro tem olhos amendoados, que são protegidos por negras sobrancelhas e óculos de grau. Ele é um desenhista barbudo, sorridente e gentil. E os olhos dele não são ariscos como os da maioria das pessoas.

Percebo que as pessoas ao meu redor têm medo de encarar olhares seguros e demorados. É como se ficassem desconfortáveis, como se doesse. E Ícaro não está nem aí que seu olhar vai incomodar as pessoas – ele olha bem no olho dos outros, procurando talvez o desenho da íris. O desenho de Ícaro começa quando ele olha muito para uma coisa. Não existe escapatória.

Antes do nosso primeiro beijo, ele chegou em mim e me deu esse olhar denso. É claro que desviei os olhos, tentei fugir. Mas não deu outra: uns dias depois ele foi lá e me desenhou. Eu ainda não existia na versão de desenho e achei o máximo. Me prefiro no papel do que de carne, osso e pensamentos. Eu me apaixonei pelo mundo que Ícaro desenhou para mim.

Quando estou triste, Ícaro percebe antes de mim. Ele interpreta o meu rosto antes do meu espelho. Ele percebe quando ganho um tracinho de tristeza – aquele que mora nas sobrancelhas e nos olhos. Ele nota quando uma violeta aparece nas minhas pálpebras. Muitas vezes, ele resolveu desenhar em mim gargalhadas que eu nem sabia que tinha. Me fez chorar de rir, e guardou essa felicidade como quem guarda um mapa valioso para um lugar que só ele conhece.

O talento de Ícaro para o desenho nasceu, acredito eu, da sua frustração diante da falta de imaginação de alguns elementos mundanos. O mundo, através da imaginação de Ícaro, é muito mais bonito, colorido, funcional e espontâneo. Eu amo os jardins com escadas que ele fantasia.

O meu sonho é que Ícaro desenhe uma casa para nós dois e que a gente se mude para lá, no papel mesmo. Imagino que esta casa seja em cima de uma gigantesca árvore, e que nossa cama seja feita das cores mais bonitas que ele conseguir inventar. Eu quero muito morar nos traços dele, quero abrir todas as manhãs a janela que Ícaro imaginou para mim. Eu quero receber o carinho dos raios do sol de Ícaro. Eu quero, mais do que tudo, que meus vestidos tenhas as flores que ele sabe desenhar. Eu desejo que o traço dele nunca enjoe do meu rosto.

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Das fórmulas delicadas para entender a vida

Aos 11 anos, eu percebi que não conseguiria mais enganar meus pais.

Eles achavam que sua filha do meio era esforçada, desenhava bem e tirava notas medianas. A verdade era que eu não sabia ser esforçada, desenhava medianamente e tirava notas baixas. Quando recebia provas ou trabalhos com nota baixa, sentia uns dedos gelados apertando meu coração e eu tinha a impressão de que ia desmaiar com falta de ar.

Com os dedos trêmulos, eu entregava minhas notas baixas para meus pais, para que eles pudessem assiná-las. A vergonha e a humilhação que eu sentia nesse ato nunca mais atingiram um nível tão alto nos anos seguintes, em qualquer outro aspecto da minha vida.

Enquanto isso, meus irmãos sabiam tirar notas boas em todas as matérias. Eles eram dotados de uma inteligência infantil implacável – sabiam decorar tudo, desde a tabuada até o nome dos estados brasileiros e suas capitais. Dava raiva dessa competência, porque eu não sabia de onde vinha. Em casa, eles brincavam tanto quanto eu; eram uma companhia constante e ingênua nas minhas brincadeiras. Tiravam notas boas sem estudar. E eu? Eu troquei muitos banhos de piscina e brincadeiras na chuva porque precisava recuperar a nota em química.

Era nessas horas que meus irmãos se transformavam, subitamente, eu meus professores. Quando eles viam que nossos pais haviam me proibido de brincar porque precisava estudar, eles também renunciavam à regalia para que eu conseguisse atingir notas dentro das expectativas dos adultos.

Minha irmã mais velha, Di, se transformava em uma professora doce e paciente, que explicava matemática como se fosse a coisa mais óbvia, prática e divertida do mundo. Às vezes acontecia de eu tropeçar em algum conteúdo e começar a chorar. Sorrindo, Di dizia:

– Nessa, matemática é a coisa mais fácil do mundo, tu vai ver. Só precisa entender alguns macetes.

Com seus dedinhos compridos e finos, desenhava as fórmulas do seu carinho por mim. Aquilo tudo, como mágica, ficava muito fácil de entender. Geralmente, terminávamos as aulas morrendo de rir. E eu me sentia um pouquinho mais especial por entender de matemática, principalmente porque esse conhecimento era transferido por alguém tão sensacional quanto a minha irmã.

Eu gostaria que, hoje em dia, Di conseguisse me explicar os altos e baixos da vida através de suas fórmulas simplificadoras. Mas percebo que ela mesma, infelizmente, também não conseguiu aplicar seus macetes delicados com as coisas grosseiras da vida de um adulto.

Algumas vezes, minha situação era tão desesperadora que surgia no meu quarto um amoroso professor de história: meu irmão mais novo.

Eu adorava o jeito dele de contar as coisas. Ele só continuava sua narrativa se enxergasse, no fundo dos meus olhos, a certeza de que eu estava entendendo as ambições terríveis de Hitler. Ele desenhava mapas, soldados e trincheiras, para que eu entendesse e me apaixonasse pelo conteúdo. O caçula imitava o barulho da troca de tiros dos oficiais nazistas com o resto do mundo.

Esse irmão querido não ligava de ensinar o conteúdo para mim, sua irmã mais velha, porque para ele era mais importante que a gente brincasse juntos na piscina mais tarde. E eu, por minha vez, tinha a humildade de deixar meu caçula me ensinar.

Depois, quando a gente constatava que minhas notas haviam aumentado um pouquinho, comemoravam discretamente. Nunca pegavam os louros para eles. Meus irmãos achavam que o mérito era todo meu. “A Nessa é inteligente e não sabe”, diziam.

Nessa época, eu achava que os professores tradicionais do meu colégio eram do mau; isso, porque eles nunca me passaram o conteúdo da forma preocupada e empenhada como meus irmãos faziam. Anos depois, eu entenderia que tratar o próximo com carinho e dedicação é uma tarefa dificílima, coisa que só um irmão ou um anjo são capazes. Mas foi nessa lição que me empenhei, quando resolvi me tornar jornalista. Tento sempre tratar o próximo do mesmo jeito que meus irmãos me tratavam lá atrás, quando viam que eu estava em apuros: com caminho incondicional, desprovidos de orgulho ou superioridade.

Hoje, acho quase uma covardia exigir que um professor consiga transmitir carinho e conhecimento para 40 adolescentes socados em uma sala de aula. Mas muitos conseguem, e fazem isso com vontade e criatividade.

Ainda bem que, hoje em dia, não tenho mais a sensação de enganar os meus pais. Entendi que notas baixas não refletem necessariamente uma pessoa preguiçosa e inconseqüente. É sempre alguém precisando de ajuda.

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Papo de Bonecas

A criança chorava muito. Não tinha quem conseguisse consolá-la. A menina estava sentada no sofá, de bracinhos cruzados, amarrotando seu vestidinho branco de bolinhas roxas. As lágrimas desciam por suas bochechas, incansavelmente. O pai dela, que é meu amigo, tentava em vão acalmar a menina, oferecendo-lhe brinquedos e carinhos pouco convincentes.

Quando a criança havia começado a fazer birra por causa de uma boneca, eu senti uma agonia imensa. Sempre me rotulei como uma pessoa sem paciência para criança. Mas, depois de alguns minutos, peguei-me sentindo ternura pela menina – e até empatia.

Não tenho filhos e nem sobrinhos. A infância mais próxima ainda é a minha, que terminou dias atrás. Ou seja, ainda erguia a bandeira do luto pelo fim do jardim de margaridas.

Assim, resolvi arriscar um ato a favor da criança. Foi incontrolável. Sentei do lado dela e falei:

– Sua boneca estragou?

Com os olhos verdes ensopados de água, olhou devagarinho para mim e disse:

– O pai deixou a minha boneca no chão e o cachorro feio estragou a cabeça dela… – disse, e voltou a olhar para o chão, com os braços cruzados com força.

– Eu sei como tu se sente. Uma vez o cachorro do meu pai também estragou a minha boneca. Ele estraçalhou ela inteirinha, eu chorei um monte.

A menina voltou a me olhar e perguntou:

– Mas arrancou a cabeça dela?

– Arrancou a cabeça inteirinha – falei, sustentando um olhar sério dentro dos olhos dela.

– E depois você chorou?

– Sim, eu chorei um monte depois. Eu fiquei com vontade de bater no cachorro. – E fiz um gesto brusco, imitando um soco no ar – Mas… eu tinha muito medo do cachorro.

Percebi que eu havia escolhido um tom de voz bastante adequado para conversar. Havia selecionado o mesmo tom que a minha mãe usava para conversar comigo, quando eu era pequena. Era uma voz suave e acolhedora, que parecia não sair de sua boca, e sim do seu abraço.

A menina apenas me olhava. Os olhos arregalados pareciam procurar essa história dentro de mim. Eu havia esquecido que as crianças são muito desconfiadas. Não sei quem foi que inventou a balela de que criança é tudo ingênua. A menina procurava, determinada, a marca da boneca estragada pelos meus caminhos internos. Tentei deixar essa lembrança bem visível no meu consciente, para que ela achasse com facilidade.

Tenho certeza que ela encontrou os restos mortais de Dalila, a boneca Barbie mais bonita que já tive. Sei que encontrou a mãozinha mordida, um pedaço de perna arrancada, pedaços de vestidinho rendado pelo terraço da casa que vivi na infância.

Para conferir ainda mais verdade e vida ao relato, deixei disponível para ela a lembrança do cachorro. Respirei fundo, fechei os olhos e trouxe à tona a memória de Bianco, aquele cachorro branco e preto que havia sido muito querido por todos da família.

De repente, a criança interrompeu o choro e começou a rir. Assustada, analisei essa mudança de comportamento. Como ela ousava rir da minha lembrança, quando eu a oferecia de todo o meu coração, para acolher o seu choro???

– Sério que você ficou com medo desse cachorro pequenininho? – disse a criança.

Com a boca aberta em espanto, eu não soube o que dizer. Estava engasgada com esse deboche súbito, mas tão adorável. Tudo bem: Bianco era um chihuahua alegre e pequeno, mas odiava as minhas bonecas e foi o terror da minha infância.

A menina foi abraçada por um acesso de riso, rolava de rir no sofá. E eu apenas olhava, ofendida. Os pais dela, que até então estavam desesperados com aquele choro inconsolável de criança, pareciam ter aprovado o meu papo.

– Boa, Vanessa! Só você para conseguir enrolar as crianças! – disse meu amigo.

Tentei disfarçar minha mágoa e mostrar orgulho. Levantei do sofá e me tranquei no banheiro. Fiquei a olhar no espelho a criança emburrada dentro de mim. Também não consegui segurar a risada.

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