Papo de Bonecas

A criança chorava muito. Não tinha quem conseguisse consolá-la. A menina estava sentada no sofá, de bracinhos cruzados, amarrotando seu vestidinho branco de bolinhas roxas. As lágrimas desciam por suas bochechas, incansavelmente. O pai dela, que é meu amigo, tentava em vão acalmar a menina, oferecendo-lhe brinquedos e carinhos pouco convincentes.

Quando a criança havia começado a fazer birra por causa de uma boneca, eu senti uma agonia imensa. Sempre me rotulei como uma pessoa sem paciência para criança. Mas, depois de alguns minutos, peguei-me sentindo ternura pela menina – e até empatia.

Não tenho filhos e nem sobrinhos. A infância mais próxima ainda é a minha, que terminou dias atrás. Ou seja, ainda erguia a bandeira do luto pelo fim do jardim de margaridas.

Assim, resolvi arriscar um ato a favor da criança. Foi incontrolável. Sentei do lado dela e falei:

– Sua boneca estragou?

Com os olhos verdes ensopados de água, olhou devagarinho para mim e disse:

– O pai deixou a minha boneca no chão e o cachorro feio estragou a cabeça dela… – disse, e voltou a olhar para o chão, com os braços cruzados com força.

– Eu sei como tu se sente. Uma vez o cachorro do meu pai também estragou a minha boneca. Ele estraçalhou ela inteirinha, eu chorei um monte.

A menina voltou a me olhar e perguntou:

– Mas arrancou a cabeça dela?

– Arrancou a cabeça inteirinha – falei, sustentando um olhar sério dentro dos olhos dela.

– E depois você chorou?

– Sim, eu chorei um monte depois. Eu fiquei com vontade de bater no cachorro. – E fiz um gesto brusco, imitando um soco no ar – Mas… eu tinha muito medo do cachorro.

Percebi que eu havia escolhido um tom de voz bastante adequado para conversar. Havia selecionado o mesmo tom que a minha mãe usava para conversar comigo, quando eu era pequena. Era uma voz suave e acolhedora, que parecia não sair de sua boca, e sim do seu abraço.

A menina apenas me olhava. Os olhos arregalados pareciam procurar essa história dentro de mim. Eu havia esquecido que as crianças são muito desconfiadas. Não sei quem foi que inventou a balela de que criança é tudo ingênua. A menina procurava, determinada, a marca da boneca estragada pelos meus caminhos internos. Tentei deixar essa lembrança bem visível no meu consciente, para que ela achasse com facilidade.

Tenho certeza que ela encontrou os restos mortais de Dalila, a boneca Barbie mais bonita que já tive. Sei que encontrou a mãozinha mordida, um pedaço de perna arrancada, pedaços de vestidinho rendado pelo terraço da casa que vivi na infância.

Para conferir ainda mais verdade e vida ao relato, deixei disponível para ela a lembrança do cachorro. Respirei fundo, fechei os olhos e trouxe à tona a memória de Bianco, aquele cachorro branco e preto que havia sido muito querido por todos da família.

De repente, a criança interrompeu o choro e começou a rir. Assustada, analisei essa mudança de comportamento. Como ela ousava rir da minha lembrança, quando eu a oferecia de todo o meu coração, para acolher o seu choro???

– Sério que você ficou com medo desse cachorro pequenininho? – disse a criança.

Com a boca aberta em espanto, eu não soube o que dizer. Estava engasgada com esse deboche súbito, mas tão adorável. Tudo bem: Bianco era um chihuahua alegre e pequeno, mas odiava as minhas bonecas e foi o terror da minha infância.

A menina foi abraçada por um acesso de riso, rolava de rir no sofá. E eu apenas olhava, ofendida. Os pais dela, que até então estavam desesperados com aquele choro inconsolável de criança, pareciam ter aprovado o meu papo.

– Boa, Vanessa! Só você para conseguir enrolar as crianças! – disse meu amigo.

Tentei disfarçar minha mágoa e mostrar orgulho. Levantei do sofá e me tranquei no banheiro. Fiquei a olhar no espelho a criança emburrada dentro de mim. Também não consegui segurar a risada.

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