Das fórmulas delicadas para entender a vida

Aos 11 anos, eu percebi que não conseguiria mais enganar meus pais.

Eles achavam que sua filha do meio era esforçada, desenhava bem e tirava notas medianas. A verdade era que eu não sabia ser esforçada, desenhava medianamente e tirava notas baixas. Quando recebia provas ou trabalhos com nota baixa, sentia uns dedos gelados apertando meu coração e eu tinha a impressão de que ia desmaiar com falta de ar.

Com os dedos trêmulos, eu entregava minhas notas baixas para meus pais, para que eles pudessem assiná-las. A vergonha e a humilhação que eu sentia nesse ato nunca mais atingiram um nível tão alto nos anos seguintes, em qualquer outro aspecto da minha vida.

Enquanto isso, meus irmãos sabiam tirar notas boas em todas as matérias. Eles eram dotados de uma inteligência infantil implacável – sabiam decorar tudo, desde a tabuada até o nome dos estados brasileiros e suas capitais. Dava raiva dessa competência, porque eu não sabia de onde vinha. Em casa, eles brincavam tanto quanto eu; eram uma companhia constante e ingênua nas minhas brincadeiras. Tiravam notas boas sem estudar. E eu? Eu troquei muitos banhos de piscina e brincadeiras na chuva porque precisava recuperar a nota em química.

Era nessas horas que meus irmãos se transformavam, subitamente, eu meus professores. Quando eles viam que nossos pais haviam me proibido de brincar porque precisava estudar, eles também renunciavam à regalia para que eu conseguisse atingir notas dentro das expectativas dos adultos.

Minha irmã mais velha, Di, se transformava em uma professora doce e paciente, que explicava matemática como se fosse a coisa mais óbvia, prática e divertida do mundo. Às vezes acontecia de eu tropeçar em algum conteúdo e começar a chorar. Sorrindo, Di dizia:

– Nessa, matemática é a coisa mais fácil do mundo, tu vai ver. Só precisa entender alguns macetes.

Com seus dedinhos compridos e finos, desenhava as fórmulas do seu carinho por mim. Aquilo tudo, como mágica, ficava muito fácil de entender. Geralmente, terminávamos as aulas morrendo de rir. E eu me sentia um pouquinho mais especial por entender de matemática, principalmente porque esse conhecimento era transferido por alguém tão sensacional quanto a minha irmã.

Eu gostaria que, hoje em dia, Di conseguisse me explicar os altos e baixos da vida através de suas fórmulas simplificadoras. Mas percebo que ela mesma, infelizmente, também não conseguiu aplicar seus macetes delicados com as coisas grosseiras da vida de um adulto.

Algumas vezes, minha situação era tão desesperadora que surgia no meu quarto um amoroso professor de história: meu irmão mais novo.

Eu adorava o jeito dele de contar as coisas. Ele só continuava sua narrativa se enxergasse, no fundo dos meus olhos, a certeza de que eu estava entendendo as ambições terríveis de Hitler. Ele desenhava mapas, soldados e trincheiras, para que eu entendesse e me apaixonasse pelo conteúdo. O caçula imitava o barulho da troca de tiros dos oficiais nazistas com o resto do mundo.

Esse irmão querido não ligava de ensinar o conteúdo para mim, sua irmã mais velha, porque para ele era mais importante que a gente brincasse juntos na piscina mais tarde. E eu, por minha vez, tinha a humildade de deixar meu caçula me ensinar.

Depois, quando a gente constatava que minhas notas haviam aumentado um pouquinho, comemoravam discretamente. Nunca pegavam os louros para eles. Meus irmãos achavam que o mérito era todo meu. “A Nessa é inteligente e não sabe”, diziam.

Nessa época, eu achava que os professores tradicionais do meu colégio eram do mau; isso, porque eles nunca me passaram o conteúdo da forma preocupada e empenhada como meus irmãos faziam. Anos depois, eu entenderia que tratar o próximo com carinho e dedicação é uma tarefa dificílima, coisa que só um irmão ou um anjo são capazes. Mas foi nessa lição que me empenhei, quando resolvi me tornar jornalista. Tento sempre tratar o próximo do mesmo jeito que meus irmãos me tratavam lá atrás, quando viam que eu estava em apuros: com caminho incondicional, desprovidos de orgulho ou superioridade.

Hoje, acho quase uma covardia exigir que um professor consiga transmitir carinho e conhecimento para 40 adolescentes socados em uma sala de aula. Mas muitos conseguem, e fazem isso com vontade e criatividade.

Ainda bem que, hoje em dia, não tenho mais a sensação de enganar os meus pais. Entendi que notas baixas não refletem necessariamente uma pessoa preguiçosa e inconseqüente. É sempre alguém precisando de ajuda.

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