Confissão (ou momentos de chuva e tatuagens)

A maioria das pessoas não gosta de chuva. Assim que o céu se esconde nas nuvens, muita gente reclama. “Que dia feio”, costuma-se dizer para manhãs úmidas. Quando, na calmaria do dia ou da noite, ouve-se uma trovoada distante avisando que o temporal vai lavar o mundo, muitos praguejam contra São Pedro.

Mas eu, na minha distração e paz, fecho os olhos e agradeço.

Eu amo chuva. Temporais, então, me deixam sorrindo por dentro, numa calma que ninguém sabe que eu tenho. Escondo meu sorriso naquele clichê: “chuva de novo? Ah não”…

Eu descobri na infância que amo chuva. Lembro-me que era um dia de calor absurdo, úmido, desumano. Minha mãe havia brigado comigo porque eu arrastara seu novelo de lã favorito pelo gramado da casa. Estragara todo aquele novelo cor de salmão, lindo. A mulher estava tão enfezada que não queria me ver na frente dela. Fiquei magoada pela rejeição da minha mãe, apesar de entender.

Então, como forma de autocastigo, fechei-me no quarto, no escuro, sozinha, náufraga no silêncio. Momentos depois, ouvi um barulho que fez o chão tremer e as janelas chacoalharem. Parecia que o mundo havia rosnado. Ou que uma bomba havia estourado devagarinho longe dali. Seria o universo se vingando de mim, a mando de minha mãe?

Assustada, continuei parada, apenas com os ouvidos aguçados e os olhos muito acesos no escuro.

Ouvi que a empregada gritou: “tem que tirar as roupas do varal”.  Havia muita correria na casa – enquanto os adultos pareciam preocupados, meus irmãos riam e gritavam empolgados. Segurei a curiosidade e continuei quieta, só ouvindo. O vento começou a apitar nas frestas das janelas. Reparei que as janelas haviam escurecido. Parecia noite.

Um arrepio nasceu na pontinha dos dedos dos meus pés e correu até o meu couro cabeludo – sensação que eu teria muitas vezes depois diante de músicas incríveis, filmes inesquecíveis, pessoas sensacionais e gestos de altruísmo e bondade que transformaram-se em uma tatuagem no meu coração.

Então, transbordando de adrenalina e medo, com a audição muito afiada, ouvi o mundo se mexendo lá fora. A impressão que tive pelo barulho era que, aos pouquinhos, alguém começou a jogar arroz cru no terraço de casa. Primeiros alguns grãos, depois um pouco mais… eram estalinhos incoerentes que, como mágica, pareciam estar em harmonia. Era o som universal e encantador da chuva deitando na Terra.

Meu nariz foi abraçado por um dos aromas mais apaixonantes que já encontrei em minha trajetória em cima desde planeta: cheiro de grama molhada. A chuva ficava cada vez mais forte, e o mundo rosnava com raiva. Os relâmpagos faziam as janelas piscarem.

De repente, minha mãe entrou no quarto e me puxou pelo braço. Percebi que a casa inteira estava no escuro, e minha família estava abraçada na sala, ao redor de uma vela. Os adultos estavam atentos, mas sem medo. As crianças pareciam se divertir com esse ciclo da natureza – olhavam empolgadas para a janela da sala, que ganhou a imagem da água em abundância serpenteando pelo vidro.

Minha mãe sentou abraçada comigo no sofá. Fiquei me perguntando se ela havia esquecido o lance da lã; será que ela havia me perdoado tão rápido? Ora, a minha experiência até então me dizia que os adultos demoravam dias e dias até perdoar uma mancada, enquanto as crianças perdoavam em três segundos.

Minha mãe tremia um pouquinho… na época eu achei que fosse de frio. Anos depois entendi que os adultos podem, sim, sentir medo de dias chuvosos, pois para muitos a água é sinônimo de destruição e morte. E minha mãe tem, dentro dela, um machucado feito pela água.

Eu e minha família assistíamos hipnotizados ao espetáculo do mundo chovendo, o planeta chorando, se retorcendo de tanta água. Nós conversávamos coisas que só se conversam em dias de chuva, frente a uma vela. Meu pai falava com a voz mansa, que ele só usa em dias de chuva em que acaba a energia elétrica.

E eu senti que momentos assim eram parênteses no nosso dia a dia.

Nossa vida pode ser tão normal e típica (mas confesse: você não concorda que as melhores coisas, aquelas que ficam tatuadas na memória, são momentos singelos de silêncio, sorriso e vela?).

Às vezes tenho a impressão de que os dias passam por mim sem gosto e sem tempero (mas entendo totalmente que, muitas vezes, as pimentas estão concentradas em poucos segundos, deixando os nossos olhos molhados e a risada entalada na garganta).

Vez ou outra, parece que não faz sentido estar aqui, na Terra. Por quê estamos aqui? (Será que é para coletar poucos momentos em que os olhos se fecham, para que o sorriso se abra para o mundo e para o além?)

No fim das contas, acho que estamos no escuro (e que é preciso de um relâmpago ou outro para acender, por um milésimo de segundos, o nosso caminho).

(Eu sei lá. Só sei que estou com a alma todinha tatuada de alegrias e chuvas.)

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Repórter distraída

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s