Nós Somos Lindas, Lohana

Já era meio dia passado e eu me despedia dos últimos estudantes que pediam beijos e abraços. Estava cansada e com fome, mas ainda assim investia minhas últimas energias em dar carinho com sinceridade àqueles jovens. Quando estava atravessando o estacionamento da escola a caminho do meu carro, parei. Senti que ainda havia uma conexão comigo. Era como se a caixa postal do meu cérebro tivesse recebido uma mensagem; havia uma demanda a resolver antes de entrar no carro, dar a partida e rumar a Joinville, ao almoço – já frio – que minha mãe preparara. Olhei ao redor e identifiquei, perto da cerca da escola, a silhueta de um estudante me observando de longe.

Eu já estava com a chave do carro em mãos. Voltei a guardá-la na mochila, devagar, meio hipnotizada. Lentamente, andei na direção daquele estudante. Estava embrulhado em um grande moletom, a cabeça escondida no capuz, as mãos mergulhadas nos bolsos. Começou a se balançar, mudando o apoio do seu corpo com os pés, quando viu que eu ia em sua direção. No caminho, reparei que se tratava de uma garota. Deveria ter no máximo 1,50 de altura. Negra, de cabelos curtinhos como de um menino, olhos agressivos típicos daqueles que perderam a inocência cedo demais. Parei na frente dela e lancei um “oi” sorridente.

– Oi – respondeu ela com voz rouquinha, desviando os olhos para o chão.

– Quer falar comigo? – Questionei, com simpatia.

Ela chutou uma pedrinha invisível no chão. Seu rosto redondinho ganhou as cores da timidez. Reconheci que ela precisava achar coragem para falar o que escondia naquele capuz, nas mãos rigorosamente escondidas nos bolsos do moletom folgado, naquela timidez dura como as grades de uma gaiola.

Encostei-me ao seu lado na cerca que dividia a escola do estacionamento. Estava quente. O sol escancarado do meio dia me conferia uma expressão risonha. A garota me observou de relance. Ficou ainda mais nervosa.

– Eu tenho um tênis igualzinho ao seu – menti, apontando para seus calçados pretos com cadarços amarrotados. Usei dessa mentira para provocar a ela algum tipo de identificação comigo e, quem sabe, incentivar sua confissão.

– As pessoas me chamam de feia, sabe? – falou, olhando com convicção o chão poeirento.

– Aqui na escola?

– Também – respondeu, levantando os olhos ao horizonte.

– Como é seu nome?

– Lohana – disse, voltando os olhos ao chão.

– Bom, Lohana – lancei, me colocando à frente da garota. – Pra começar, seu nome é muito bonito!

Então ela sorriu. Um sorriso com sarcasmo. Me olhou rapidamente antes de correr seus olhos para o lado, com deboche.

– Eu não acho – falou com insolência.

– Mas eu acho – cortei, sorrindo. – E combina contigo, pois tu também é linda!

A garota gargalhou, jogando a cabeça para trás. Vi seus dentes bem brancos.

– Tá me zuando – sussurrou ela, desmanchando o riso e voltando os olhos aos seus tênis.

– Lohana, sabe essas mulheres altas, loiras e magras que aparecem na televisão?

Ela assentiu, olhando para baixo. Ela balançava o pé direito de forma irritante, ferramenta que eu usava quando era adolescente para camuflar a timidez.

– As pessoas acham que elas é que são o padrão de beleza. Mas é como se faltasse alguma coisa.

Então, Lohana parou de balançar o pé.

– Tem um personagem de um filme eu gosto muito… você gosta de assistir filmes?

– Gosto – respondeu a garota com segurança. – Filmes de ação.

– Eu também! Eu adoro o Exterminador do Futuro 2.

Lohana levantou os olhos do chão e me olhou fixamente.

– Você já assistiu? – Perguntei, com inocência.

– Mano – murmurou ela, perigosamente. – Eu sou amarrada nesse filme.

Sorri.

– Eu também, Lohana. Eu cresci querendo ser a Sarah Connor!

Foi como se aquela sombra do mau humor tivesse deixado o rosto dela. Lohana sorria emocionada.

– Mano! A Sarah Connor é linda! – exclamou ela.

– Que bom que concordamos nisso. Ela é linda. Sabe por quê eu acho ela linda? Porque ela é guerreira e encarnada!

A garota continuou sorrindo, e apertou os olhinhos alegres.

– Saquei o que tu tá fazendo. Tu é inteligente, tia Nessa.

– Obrigada – respondi, satisfeita.

Devagar, ela desenterrou as mãos dos bolsos do moletom e apertou seus braços ao redor da minha cintura. Desfrutei por alguns segundos daquela vitória, sorrindo de olhos fechados. Abracei-a de volta e encostei levemente minha cabeça na dela.

– Você é linda, Lohana. Você é linda. Você é linda – repeti, em tom de reza.

Ficamos por mais ou menos dois minutos abraçadas, dançando sob o sol do meio dia. Então, ela se afastou e me olhou.

– Nós somos lindas, tia Nessa.

Virou as costas e rumou para a escola.

Entrei no meu carro, dei partida e dirigi rumo à BR. Torci para que ninguém visse meu rosto recortado de lágrimas e maquiagem borrada. Nós somos lindas, Lohana.

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