Arquivo do mês: março 2016

Tornou-se outono entre a gente

Terminei de falar e ganhei aplausos. Me direcionei à mesa do professor, onde um copo com água me esperava. A turma, barulhenta, levantou-se e rumou à porta para aproveitar o intervalo. Eu tomava largos goles de água quando percebi, pela minha visão lateral, que alguém me aguardava. Devolvi o copo à mesa e observei que um rapaz sorridente estava de pé ao meu lado.

– Quer falar comigo? – Perguntei, sorridente.

Ele abriu os braços e olhou-me com profunda ternura. Me abraçou. Gosto muito de abraços – e acho-os ainda mais deliciosos quando são dados com vontade. O rapaz me apertou contra seu peito e encaixou o queixo no meu ombro. Fiz o mesmo. Ele era mais alto, então levantei sensivelmente meus pés para me encaixar nele também. E foi aí que aconteceu.

Assim como uma peça de quebra-cabeças se encaixa perfeitamente naquela a qual ela deve se encaixar para que o desenho faça sentido; assim como uma nuvem se mistura à outra com elegância; assim como duas mãos se fecham perfeitamente em oração… foi assim que meu abraço fez “click” com o abraço daquele menino.

Eu senti que ele estava de olhos fechados, porque toda a sua postura sugeria que ele estava na penumbra agradável das pálpebras. Eu estava arregalada, assustada, afinal, era um abraço perfeito. Fechei os olhos meio insegura, e foi no escuro dessa entrega que senti uma leve percussão. O coração dele batendo no meu peito. Sorri. Ele me apertou ainda mais forte, e retribui a pressão. Entendi que esse abraço era algo que esse rapaz, que eu nem sabia o nome, precisava. Descobri, no meio do caminho, que eu também estava precisando desse abraço há dias, há meses, há anos. Meus dedos estavam esmagando o tecido da camiseta dele e não senti vergonha por isso. A resposta dele foi a lágrima que umedeceu o meu pescoço.

Foi ele quem começou a despedida do abraço. Foi me soltando devagarzinho, como quem solta um passarinho com delicadeza. Eu tremia levemente. O rapaz sorria, com a cicatriz da lágrima pela bochecha direita. Minha mão esquerda foi escorregando pelo seu braço direito e fomos nos afastando. Quando nossas mãos se encontraram, ele beijou meus dedos, se virou e foi embora. Misturou-se com o restante dos estudantes que deixava a sala.

Hipnotizada, séria, percebi que precisava ir embora também. Meio boba, arrumei minha mochila e a segurei nas costas. Havia algo de estranho dentro de mim, como se… como se tivesse um outono a mais no meu interior. É como se o menino tivesse colocado um vaso de margaridas na estante da minha alma. Foi um botãozinho de rosas que nasceu no meu coração.

Eu nunca soube o nome dele.

 

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O Sonho

 

Estava andando a cavalo ao lado do meu avô. Meu cavalo era branco e marrom, enquanto o dele era todo marrom. Estávamos em uma estrada de barro muito parecida com aquelas que vi nas fotos em sépia e desgastadas do passado da minha família. Deveria ser Agudos do Sul, no Paraná. Vô Pedro falou:

– Vou te mostrar onde estudei quando era criança. Andava descalço por aqui, nós não tínhamos calçados.

Paramos ao lado de uma escola que provavelmente abrigava só uma ou duas salas de aula. Estava abandonada, tomada de mato. Vô Pedro desceu do cavalo e me ajudou a descer do meu. Meu avô era alto e magro, de braços fortes. Me abraçou e disse:

– Tua missão é entrar em toda e qualquer escola e falar em nome do bem.

Senti aquele comichão familiar nos olhos e no nariz. A coceira foi inundada por lágrimas. Era como se uma mão invisível apertasse minha garganta, eu tinha dificuldades de respirar.

– Mas vô, é tão difícil. Às vezes dá tanto medo.

– Seja assustadora como um crocodilo e feroz como uma águia – disse ele, me olhando de cima do abraço.

– Vô, nesse momento me sinto com as pernas mergulhadas em areia movediça. Nunca me senti assim – falei, lutando contra a garganta apertada e as lágrimas.

– Peça ajuda para os meus filhos. Peça ajuda. Peça.

Acordei do sonho chorando. Estava deitada na minha cama em posição fetal. Gritei. Não lembro o quê, mas gritei.

Minha mãe entrou correndo no quarto em menos de cinco segundos. Pousou as mãos mornas e eficientes em mim; uma no meu ombro e outra no meu quadril. Eu soluçava, só lembro de ter chorado assim em criança.

– Mãe, ajuda. Ajuda.

Meu pai também entrou no quarto.

– Ajuda, pai – murmurei.

No mesmo dia, meus pais fizeram por mim o mesmo que fizeram quando eu tinha 14 anos. Me levaram em um psicólogo.

Eu estava tão acostumada a ouvir pedido de socorro dos outros, que quando eu mesma pedi ajuda, não me ouvi. Não entendi que eu me tornei como aqueles jovens que pegam o caminho errado dentro de si mesmos.

Fui diagnosticada com quadro inicial de depressão e, no mesmo dia, iniciei a medicação. Além do remédio antidepressivo, voltei a fazer caminhadas, a me alimentar melhor e a ter tempo para os meus amigos. Mesmo que eu precisasse chorar na frente deles.

Muitos me falaram para dar um tempo das palestras. Mas essa possibilidade me estrangulou. Com os olhos arregalados e as veias latejando nas têmporas, respondi um a um:

– Não posso. Isso não vai acontecer. Aí eu morro de vez.

Nos dias que se seguiram, entrava nas escolas com a cabeça baixa, os olhos lavados de lágrima. Arrastava minha alma como se esta pesasse 100 quilos. Evitada tirar fotos, repetia: é estresse, é estresse. Andava encurvada como um australopitecus. Nas semanas seguintes, exibia apenas um ar cansado como quem se recupera de meses e meses de fome, luta e luto. Dois meses depois, necessariamente em uma terça feira de final de outono, acordei sorrindo. Andei até o banheiro e vi no espelho uma mulher descuidada. As raízes castanho-claras dos cabelos tinham um palmo de comprimento. As olheiras tão comuns em que meus olhos se deitavam haviam sumido. Havia cor nos meus lábios. Andava ereta, como um homo sapiens. Minha mãe encostou na porta do banheiro, observando com curiosidade sua filha que reconhecia a estranha no espelho.

– Que tal ir na cabeleireira, filha? – provocou, massageando meu cabelo comprido e seco.

Fui.

Minha família nunca mais viu essa lutadora cansada. Quem voltou para casa, no lugar dela, foi uma mulher de cabelos vermelho-vivos e com a metade da cabeça raspada. Meus irmãos e cunhados fizeram festa com o susto. No meio da gritaria, meus pais me olhavam. Minha mãe sorria, como quem comemora em segredo, mas meu pai ficou em transe. Três dias depois, disse:

– Filha, não é que o pai não gostou, mas o pai tá com medo que não te deixem entrar nas escolas desse jeito.

– Agora é que eu vou entrar – respondi, petulante. – Assustadora como um crocodilo e feroz como uma águia.

Valeu, vô Pedro. Onde quer que o senhor esteja.

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