O Sonho

 

Estava andando a cavalo ao lado do meu avô. Meu cavalo era branco e marrom, enquanto o dele era todo marrom. Estávamos em uma estrada de barro muito parecida com aquelas que vi nas fotos em sépia e desgastadas do passado da minha família. Deveria ser Agudos do Sul, no Paraná. Vô Pedro falou:

– Vou te mostrar onde estudei quando era criança. Andava descalço por aqui, nós não tínhamos calçados.

Paramos ao lado de uma escola que provavelmente abrigava só uma ou duas salas de aula. Estava abandonada, tomada de mato. Vô Pedro desceu do cavalo e me ajudou a descer do meu. Meu avô era alto e magro, de braços fortes. Me abraçou e disse:

– Tua missão é entrar em toda e qualquer escola e falar em nome do bem.

Senti aquele comichão familiar nos olhos e no nariz. A coceira foi inundada por lágrimas. Era como se uma mão invisível apertasse minha garganta, eu tinha dificuldades de respirar.

– Mas vô, é tão difícil. Às vezes dá tanto medo.

– Seja assustadora como um crocodilo e feroz como uma águia – disse ele, me olhando de cima do abraço.

– Vô, nesse momento me sinto com as pernas mergulhadas em areia movediça. Nunca me senti assim – falei, lutando contra a garganta apertada e as lágrimas.

– Peça ajuda para os meus filhos. Peça ajuda. Peça.

Acordei do sonho chorando. Estava deitada na minha cama em posição fetal. Gritei. Não lembro o quê, mas gritei.

Minha mãe entrou correndo no quarto em menos de cinco segundos. Pousou as mãos mornas e eficientes em mim; uma no meu ombro e outra no meu quadril. Eu soluçava, só lembro de ter chorado assim em criança.

– Mãe, ajuda. Ajuda.

Meu pai também entrou no quarto.

– Ajuda, pai – murmurei.

No mesmo dia, meus pais fizeram por mim o mesmo que fizeram quando eu tinha 14 anos. Me levaram em um psicólogo.

Eu estava tão acostumada a ouvir pedido de socorro dos outros, que quando eu mesma pedi ajuda, não me ouvi. Não entendi que eu me tornei como aqueles jovens que pegam o caminho errado dentro de si mesmos.

Fui diagnosticada com quadro inicial de depressão e, no mesmo dia, iniciei a medicação. Além do remédio antidepressivo, voltei a fazer caminhadas, a me alimentar melhor e a ter tempo para os meus amigos. Mesmo que eu precisasse chorar na frente deles.

Muitos me falaram para dar um tempo das palestras. Mas essa possibilidade me estrangulou. Com os olhos arregalados e as veias latejando nas têmporas, respondi um a um:

– Não posso. Isso não vai acontecer. Aí eu morro de vez.

Nos dias que se seguiram, entrava nas escolas com a cabeça baixa, os olhos lavados de lágrima. Arrastava minha alma como se esta pesasse 100 quilos. Evitada tirar fotos, repetia: é estresse, é estresse. Andava encurvada como um australopitecus. Nas semanas seguintes, exibia apenas um ar cansado como quem se recupera de meses e meses de fome, luta e luto. Dois meses depois, necessariamente em uma terça feira de final de outono, acordei sorrindo. Andei até o banheiro e vi no espelho uma mulher descuidada. As raízes castanho-claras dos cabelos tinham um palmo de comprimento. As olheiras tão comuns em que meus olhos se deitavam haviam sumido. Havia cor nos meus lábios. Andava ereta, como um homo sapiens. Minha mãe encostou na porta do banheiro, observando com curiosidade sua filha que reconhecia a estranha no espelho.

– Que tal ir na cabeleireira, filha? – provocou, massageando meu cabelo comprido e seco.

Fui.

Minha família nunca mais viu essa lutadora cansada. Quem voltou para casa, no lugar dela, foi uma mulher de cabelos vermelho-vivos e com a metade da cabeça raspada. Meus irmãos e cunhados fizeram festa com o susto. No meio da gritaria, meus pais me olhavam. Minha mãe sorria, como quem comemora em segredo, mas meu pai ficou em transe. Três dias depois, disse:

– Filha, não é que o pai não gostou, mas o pai tá com medo que não te deixem entrar nas escolas desse jeito.

– Agora é que eu vou entrar – respondi, petulante. – Assustadora como um crocodilo e feroz como uma águia.

Valeu, vô Pedro. Onde quer que o senhor esteja.

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