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Uma Narrativa Incansável

Sempre que faço aniversário, minha mãe conta a história de como foi o meu nascimento. Ela conta que nasci às 9h30 de um sábado gelado; vim ao mundo por cesariana. Eu era o bebê mais gordo da maternidade. Quase cinco quilos. Chorei tão alto que meus tios acharam que eu era um menino. Tinha cabelos pretos arrepiados. Cenho franzido.

Quando eu era pequena e fazia aniversário, achava meio chato que meus pais me puxassem para o canto, me afastassem da minha festinha e contassem essa narrativa do meu nascimento. Entediada, ouvia essa melodia já sabendo como seria o ponto final. Sabendo em quê momento minha mãe daria a ênfase do meu peso de recém-nascida. Conhecia o refrão. Ficava meio envergonhada quando falavam que berrei alto feito meninozinho.

Essa história ficou tatuada em meu imaginário. Minha mãe contava e recontava, enquanto as velinhas de aniversário aumentavam em cima do meu bolo, ano após ano.

Um dia, em algum aniversário perto dos 21 ou 22 anos, minha mãe acrescentou um novo detalhe – como se fosse o detalhe em azul no desenho preto e branco. Ela disse que, no dia anterior ao meu nascimento, sonhou com cavalos marinhos.

Isso foi o suficiente para que a história, antes empoeirada, ganhasse juventude. Interessada, entendi que havia outros detalhes que minha mente acomodada nunca quisera saber. Na época, eu começava a enveredar pelo campo minado do jornalismo. Então, resolvi tirar de vez a poeira da narrativa e perscrutei outros detalhes. Por exemplo: como minha irmã mais velha reagiu ao novo bebê?

Descobri que fui a alegria da vidinha de minha irmã, que é dois anos mais velha que eu. Descobri também que eu tinha um macacãozinho com desenho de melancia.

Desde então, quando faço aniversário, procuro novos detalhes dessa narrativa que é a minha chegada ao mundo. Quando a voz mansa de minha mãe começa a contar a história – “Comecei a sentir contrações na sexta de noite, enquanto via televisão” – entro em transe. Tenho vontade de gravar sua contação para que isso fique eternizado, para que ganhe a eternidade do final feliz.

Mas nunca gravei. Sei que não adianta. Sou feliz ouvindo a história ao vivo; conferindo a interpretação rica de minha mãe; reparando que, ano após ano, mamãe ganha novas rugas ao redor dos olhos e no sorriso. Percebendo que ela é incansável quando se trata de uma de suas maiores alegrias. Me dando conta de que as felicidades verdadeiras não se comparam em nada com as migalhas de alegria que já tive até hoje…

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Votação Quinto Concurso

Vote no melhor até 18 de agosto!

aquela que existe e pre-existe com o vir ou  o passar do tempo
aquela cujos efeitos são semelhantemente sentidos em diferentes pessoas em diferentes épocas
aquela que tem cujos irmãos mais novos, na ordem: a frustração, a desesperança, a depressão, e o sucumbir
aquela que é dura mas pode trazer algo positivo consigo: o sentimento de realidade
aquela que se compara com um abrir de chão para forçar a todos os ludibriados a aprender a flutuar, para evitar a continuação da queda

(Alice Pontes)

Desilusões amorosas competem com saudade, pois entre um e outro, sempre terá perdas, um perde o amor que foi conquistado ao longo do relacionamento e o outro perde um ente querido. De vez em quando, é mais fácil viver na decepção do que encarar a realidade, porém o sofrimento é constante e é o caminho mais difícil para seguir em frente. Qual é o pior? Sofrer com a realidade e seguir em frente ou sofrer na desilusão? Só o tempo nos dirá…

(Nikolas Alvarenga)

Já não há

Uma manhã de sol já não te esquenta, um por de sol  na praia já não te traz mais lembranças,
um sorriso de criança já não te faz refletir sobre a vida, um lindo filhote de coelho já não te arranca suspiros.
O que aconteceu com o seu mundo que não gira mais aos seus pés ao receber um beijo da pessoa amada, será que já não existe mais aquele encanto da inocência ou será que deixou de acreditar no impossível.
Você deixa de lado as coisas importantes e começa a se importar com o que antes era apenas obrigações, e começa a se lembrar aonde foi no caminho que a esperança se perdeu.
Afinal para que se importar, já não há oque fazer, ou será que há!

(Cristina Luciana)

Em busca dos teus olhos invernais…

O que importa se tu estás surda
para me ouvires na escuridão do
quarto e se ontem ainda choravas
quieta e dizias palavras ininteligíveis
e rias por dentro como quem faz
uma molecagem atroz; o que
importa o acinzentado de teus olhos
mais distantes e mais opacos nos
invernos do sul.

E
eram
escadarias
tuas
argumentações
de
boteco.
Nefelibata como te intitulavas, como
se isso pudesse resolver tua cólera
e o pouco sorriso. E economizavas

até nisso…!

(Jéferson Dantas)

[votação encerrada]

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Quinto Concurso Cultural

Tema: Desilusão

Formato: no máximo CINCO FRASES.

Prazo: os textos devem ser enviados até 9 de agosto para vbencz@gmail.com. Os melhores serão colocados para votação no blog. O mais votado ganha DOIS LIVROS SURPRESA.

Bom trabalho a todos!

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Abrace-me

Com os dedos compridos e enrugados tocando a testa, minha avó declarou, como quem finalmente geme de dor: “a maioria dos meus amigos já morreu”.

Eu e meus primos nos olhamos, vendo quem conseguiria tramar o melhor consolo primeiro. Mas todos permaneceram quietos, enrolados em pena e ingenuidade. Afinal, a velhice é algo impossível de se consolar, pois ela própria já é um consolo, um cobertor enrugado que abraça o ser humano com mãos mornas.

Visivelmente deprimida, a senhora abraçou-se ao violão e, com os dedos que antes seguravam sua testa, agora dedilhavam notas no instrumento. Arranhou no violão balbucios melancólicos, quadrados, meio poeirentos. Cantou uma música que puxou uma lembrança do fundo do lago da minha memória.

– Vem meu ursinho querido, meu companheirinho, ursinho Pimpão…

Meu sorriso aflorou como que surgindo do fundo do mar. Meus primos também sorriam com esta cor. Minha avó desistiu de tocar a canção pela metade, e abandonou o violão, como quem abandona um carinho, com arrogância.

Foi até o armário da sala e puxou um grosso álbum de fotos, que cheirava a mofo e lágrima antiga. Abriu-o e puxou de lá uma foto em sépia, vinda direto do final dos anos 70. Na foto, havia seis pessoas. Minha avó, jovem e luminosa, com um vestido rodado; meu avô, ansioso, e os quatro filhos, todos adolescentes. Um deles era o meu pai. E ele usava uma camiseta xadrez. Estava com os cabelos compridos e rebeldes emoldurando o rosto.

– De qualquer jeito – falou minha avó, tentando sorrir –, sei que as memórias não morrem.

A confissão singela me tocou, assim como a constatação de que eu sou a repetição do meu pai – não apenas pela continuidade do sangue, mas pelo mesmo jeito de se vestir.

A linda foto ficou estampada em meu coração; fez brotar ali uma flor em sépia, com cheiro de mofo e lembrança.

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Vencedor do Quarto Concurso

Quem levou o prêmio do Quarto Concurso do blog foi Jéferson Dantas! Pela segunda vez, ele foi vencedor do concurso. Parabéns e obrigada a todos por levarem a sério e participarem com tanto carinho! Está aí o texto vencedor de “Todos os Fogos o Fogo”, de Cortázar:

LOUCURA

Entre o sono e a vigília, remontei a trajetória da existência. Diversos quadros que, mesmo distantes, permaneciam dinâmicos e gritando dentro de mim. A contenda se situava nas escolhas pretéritas, no desenrolar dos desejos, na anulação dos frêmitos, na incompletude de ser. E, ao recuar no tempo, mais compreendia o que não era meu e, desse modo, violentava-me compulsoriamente, como se não houvesse mais alternativas. E sem experiência nova que alçasse voo futuro, o que se tinha era uma matéria plasmada no vazio.

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Votação do Quarto Concurso

Os textos selecionados estão a seguir. Recebi ao total 49 textos, um mais legal do que o outro. Parabéns e obrigada a todos! No final desta postagem, vote no seu preferido. O resultado sai no dia 7 de junho. O mais votado ganha “Todos os Fogos o Fogo”, de Cortázar. Boa sorte a todos!

LOUCURA

Entre o sono e a vigília, remontei a trajetória da existência. Diversos quadros que, mesmo distantes, permaneciam dinâmicos e gritando dentro de mim. A contenda se situava nas escolhas pretéritas, no desenrolar dos desejos, na anulação dos frêmitos, na incompletude de ser. E, ao recuar no tempo, mais compreendia o que não era meu e, desse modo, violentava-me compulsoriamente, como se não houvesse mais alternativas. E sem experiência nova que alçasse voo futuro, o que se tinha era uma matéria plasmada no vazio.

(Jéferson Dantas)

Vida enlouquece loucura

Acordamos.

Seguimos metodicamente um inflexível roteiro diário de trabalho de estudos de relações de julgamentos de xingamentos de excrementos de aborrecimentos de maldições exigido por uma sociedade socialmente social socializante socializadora.

Comemos e dormimos.

Acumulamos comida em nossos estômagos em grande quantidade para ser digerida percorrendo nosso ventre nossas mentes até se materializar em merda assim como acumulamos dinheiro que é merda que vira merda merda e merdas para depois encostarmos nossos crânios em travesseiros de pena de ganso de pena de galinha de pena de nós mesmos achando que vivemos e não corremos que vivemos e não sofremos que vivemos e não enlouquecemos que vivemos essa vida e que isso não é loucura.

(Murilo Reis)

Sugou um balão de gás hélio na festa da empresa.

Fez mira e foi em direção a chefe do chefe do seu supervisor, que bebia espumante sozinha.

Plano divulgado, aposta feita e expectativas em alta.

Faltava a distância de uma capivara e meia, quando pensou na filha.

Sentou e suspirou com voz do Pato Donald.

(Jin Nunes)

Ignorância

Mal sabem sobre tudo o que acontece aqui dentro. Sobre quando saio voando e mergulho e nado e rodopio e corro e me dissolvo e volto a me formar num universo de sentidos que sinto sem medida. Mal sabem sobre todas as pessoas que eu conheço ou sobre quando sou alguma delas, ou todas, e as histórias que vivemos e os lugares para onde vamos e voltamos sem que ninguém perceba. Mal sabem que quando explodo num suspiro perto do ouvido de alguém só quero expressar aquilo que, de tão claro, não é visto.

E se então me acusam de gritar feito uma louca, sigo sem entender onde está a sanidade em engolir a vida num silêncio oco e seco.

(Cecília Oliveira)

Que não te tinhas sal, que em ti não sentias o doce. Ponderado, obtuso, excluso.

No ofício um começo, novo vertiginoso.

Detento do navio onde eras capitão e tripulação, até o naufrágio em exato chute bicudo, gritaras e urraras e não se lia. Ardia. Um dia.

Dois

Três

Minutos e o susto.

(Luiz Augusto Estacheski)

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“Relato do Sol” será lançado em Florianópolis (SC)

Amigos de Floripa: meu livrinho será lançado na capital catarinense no mês de julho. O lançamento que seria no dia 14 de junho teve de ser adiado. Aguardem por mais informações.

Quem puder, compareça para ver essa blogueira distraída.

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Faz dois anos que me apaixonei por ele

Faz dois anos que me apaixonei por Davi.

E lembro com tanta vivacidade do dia que o vi em minha frente pela primeira vez. Ele é do meu tamanho, então tive o privilégio de olhá-lo nos olhos sem ter que erguer a cabeça. Os olhos de Davi são uma mistura de azul com cinza e açúcar. Estava um dia ensolarado; e os olhos dele tinham a cor do meio-dia. Seu olhar azul foi o que primeiro me chamou a atenção. Depois, a voz de veludo.

Eu jamais imaginei que o veludo de sua voz seria meu cobertor nos dias seguintes. A voz de Davi se transforma no bordado das minhas orações.

Davi é tatuado, tem piercing e calos nas mãos. O que piora ainda mais a situação dele é que ele tem sorriso de ladrãozinho, daqueles que roubam o lanche da gente, para depois devolver com cara de quem é muito santo. No fim das contas, todo o seu apetrecho modernoso contrasta com critérios de personalidade rigorosos e até antiquados que ele carrega no caráter. Por exemplo: Davi se recusa a visitar uma cartomante, mesmo que apenas por brincadeira. Até aí, tudo bem. Mas acho isso tão contradizente com o piercing que brilha em sua sobrancelha esquerda.

Me apaixonei perdidamente por Davi no dia em que ele me olhou com muita seriedade e disse: não se apaixone por mim. Foi com raiva, indignação e dentes rangendo que retornei seu olhar dizendo: não me apaixonei.

Fiquei sabendo depois que Davi falou isso necessariamente para procurar em mim alguma força justiceira que fizesse nascer a planta do amor proibido. Deu certo. Caí igual um patinho.

Cada pessoa carrega, em sua essência, três chances para fisgar um ser humano para seu coração. A primeira é mostrando uma foto sua de infância. As crianças carregam, em seu rostinho redondo, um poder amoroso que talvez tenha nascido junto com o capítulo de Gênesis, na Bíblia.

A segunda chance de ganhar a paixão alheia é chorando. Isso mesmo, pode notar: parece que a gente gosta mais de uma pessoa, depois de vê-la chorando. Chorar é mostrar o documento que prova que você tem um coração – e bem grande. Ver uma pessoa chorando é quase o mesmo do que entrar no quarto dela e ver sua gavetinha de segredos. Chorar é muito íntimo e amoroso. Quando alguém chora, automaticamente a pessoa do lado se torna o consolo, o que é muito nobre.

A terceira chance de apaixonar alguém ocorre durante uma madrugada em que se olha o céu. Porque olhar o céu de madrugada também é testemunhar a intimidade do universo – e da pessoa ao seu lado.

Tudo isso vivi com Davi, e garanto aqui, para vocês, que sou loucamente apaixonada por esse homem, o meu violeiro encantado, que merece todos os textos apaixonados do mundo.

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