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Faz dois anos que me apaixonei por ele

Faz dois anos que me apaixonei por Davi.

E lembro com tanta vivacidade do dia que o vi em minha frente pela primeira vez. Ele é do meu tamanho, então tive o privilégio de olhá-lo nos olhos sem ter que erguer a cabeça. Os olhos de Davi são uma mistura de azul com cinza e açúcar. Estava um dia ensolarado; e os olhos dele tinham a cor do meio-dia. Seu olhar azul foi o que primeiro me chamou a atenção. Depois, a voz de veludo.

Eu jamais imaginei que o veludo de sua voz seria meu cobertor nos dias seguintes. A voz de Davi se transforma no bordado das minhas orações.

Davi é tatuado, tem piercing e calos nas mãos. O que piora ainda mais a situação dele é que ele tem sorriso de ladrãozinho, daqueles que roubam o lanche da gente, para depois devolver com cara de quem é muito santo. No fim das contas, todo o seu apetrecho modernoso contrasta com critérios de personalidade rigorosos e até antiquados que ele carrega no caráter. Por exemplo: Davi se recusa a visitar uma cartomante, mesmo que apenas por brincadeira. Até aí, tudo bem. Mas acho isso tão contradizente com o piercing que brilha em sua sobrancelha esquerda.

Me apaixonei perdidamente por Davi no dia em que ele me olhou com muita seriedade e disse: não se apaixone por mim. Foi com raiva, indignação e dentes rangendo que retornei seu olhar dizendo: não me apaixonei.

Fiquei sabendo depois que Davi falou isso necessariamente para procurar em mim alguma força justiceira que fizesse nascer a planta do amor proibido. Deu certo. Caí igual um patinho.

Cada pessoa carrega, em sua essência, três chances para fisgar um ser humano para seu coração. A primeira é mostrando uma foto sua de infância. As crianças carregam, em seu rostinho redondo, um poder amoroso que talvez tenha nascido junto com o capítulo de Gênesis, na Bíblia.

A segunda chance de ganhar a paixão alheia é chorando. Isso mesmo, pode notar: parece que a gente gosta mais de uma pessoa, depois de vê-la chorando. Chorar é mostrar o documento que prova que você tem um coração – e bem grande. Ver uma pessoa chorando é quase o mesmo do que entrar no quarto dela e ver sua gavetinha de segredos. Chorar é muito íntimo e amoroso. Quando alguém chora, automaticamente a pessoa do lado se torna o consolo, o que é muito nobre.

A terceira chance de apaixonar alguém ocorre durante uma madrugada em que se olha o céu. Porque olhar o céu de madrugada também é testemunhar a intimidade do universo – e da pessoa ao seu lado.

Tudo isso vivi com Davi, e garanto aqui, para vocês, que sou loucamente apaixonada por esse homem, o meu violeiro encantado, que merece todos os textos apaixonados do mundo.

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Quarto Concurso Cultural (até 31/5)

Para concorrer a “Todos os Fogos o Fogo”, de Julio Cortázar, é preciso escrever um texto criativo sobre LOUCURA. Os textos devem ter no máximo CINCO FRASES.

Os textos devem ser enviados para o e-mail vbencz@gmail.com até 31/5!

Os três melhores serão colocados em votação aqui no blog! Boa sorte a todos.

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O Bisturi do Tempo

A gente confirma que o tempo andou quando ele deixa pegadas indeléveis pelo nosso rosto.

Eu descobri, recentemente, duas pegadas suaves de um tempo que caminhou pela minha pele. Ele quis deixar a assinatura de que nenhuma infância dura para sempre. A primeira dessas pegadas eu flagrei semana retrasada. Ela está de pé entre minhas sobrancelhas, bem ali na esquina que se curva quando estou braba ou estressada. É bem de levinho; parece mais a renda de um delicado vestido.

Já a outra é o carimbo inquestionável que de eu, definitivamente, ri muito nessa vida. Ri demais. Ri tanto, que a dobrinha da bochecha veio morar comigo, no canto esquerdo da boca. Mesmo quando não estou rindo, lá está a preguinha, me forçando a rir com cara de desatenta. Esta é mais forte do que a da sobrancelha. É um talho que pode ser verificado por qualquer pessoa, mesmo quando me vê fugazmente, andando com distração do outro lado da rua.

O tempo é um escultor meio sem jeito. Os dias, os meses e as estações passam, e este escultor invisível marca nosso rosto durante a noite. Sem aviso, sem marcar um horário, sem se dar conta que meus armários estão socados de produtos antiage e hidratantes que tentam afugentar o tempo. Nada disso adianta: é tudo em vão. Esse escultor surge de dentro dos meus sonhos e, com atenção, examina meu rosto. Com sua faquinha afiada, marca o mapa da minha vida em meu rosto desprotegido.

Quando acordo, já era: lá estão os dias que vivi demais, os risos que ri loucamente, os estresses que chorei demais, as dores de cabeça que desabaram com espinhos pelas sobrancelhas.

Ainda não tenho 30 anos, e sei que muitas manhãs de susto virão. Sei que chegará um dia em que o escultor chamado Tempo avançará seu desenho em formato de buquê de flores em meu rosto. Por enquanto, tenho apenas dois brotinhos – até que são charmosos. Algumas pessoas, todas também com a cicatriz da faca do tempo, já elogiaram o comecinho da obra de arte do tempo pela minha pele.

Não sei quê flores o senhor Tempo esculpirá em minha expressão assustada … talvez violetas simples, para combinar com os traços do meu rosto, que não são de grande sofisticação. O desenho de meu rosto é redondinho e objetivo, como o de uma criança.

Mas tenho méritos: só espero que o escultor não mexa na covinha que mora do lado direito da minha boca, este furinho que se faz presente sempre que dou risada. Se ele sumir, aí sim devo me preocupar. Aí significa que, ao invés de caminhar para frente, encarando o jardim do tempo, eu estarei voltando, estarei mergulhando em uma não-identidade, estarei me transformando em alguém sem genética, sem passado, sem ontem, sem ano passado, sem velinha de 11 anos.

E quem faz plásticas? Ah, esse pessoal é espertalhão de mais. Quem troca o bisturi do tempo pelo do cirurgião está cometendo uma violação da vida, na minha opinião. A violação do ser humano. Um erro que pode estar no manual de instruções da vida.

Se eu puder escolher o local para minha próxima marca de expressão, quero que seja no canto externo do meu olho, deitadinha, mostrando que não apenas ri – quero que esta marca mostre que eu quase morri de tanto rir e de tanto amar.

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Tá me lendo?

Hoje, pela manhã, acordei com uma risada.

Assustada, procurei ao meu redor. Ninguém acordado. A risada fez cócegas nos meus ouvidos de novo. Levantei da cama. Era uma risada feminina e carinhosa. Quem seria? Avançando do quarto para a sala, procurei. Não havia ninguém. E foi aí que me dei conta. Alguém estava me lendo.

Isso tem acontecido com bastante frequência, depois do lançamento de “Relato do Sol”. Tem sido interessante sentir que as páginas dos meus segredos estão sendo manuseadas. Ouço risadas, lamentos, um chorinho manhoso, um susto de identificação.

Ao me encontrar com os leitores, eles citam algumas passagens que nem  lembro mais de ter escrito. É que, pela citação da voz alheia, os trechos que escrevi ganham outra música, e nem parece mais aquilo que vivi. Mas ainda assim é legal.

Dei algumas entrevistas também e, depois delas, me sinto como gaveta bagunçada. É que minha intimidade é colocada sob o sol, e as coisas acabam ficando meio fora do lugar depois. Mas é um sentimento bom: a gente reorganiza as coisas e parece que ganha maturidade. Uma nova rotina, pelo menos.

E encontrei a mãe de Grasiela. Quem leu, sabe. Conto em breve.

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Convite

Queridos amigos, tá chegando perto. A ansiedade tá corroendo o estômago, e as noites são em claro. Tão todos convidados!

O quê: lançamento do livro “Relato do Sol”, de Vanessa Bencz.

Quando: 13/4, às 15h30.

Onde: na Feira do Livro de Joinville.

Quanto: evento gratuito. Livro custa R$ 15.

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A sua Sala de Estar

A personalidade de Fernando era como uma sala de estar. Batia sol e tinha um tapete bem colorido, daqueles que dá vontade de deitar.

Você já conheceu pessoas cuja personalidade se parece com o cômodo de uma casa? Eu já. Várias. Tenho uma amiga cuja companhia me lembra a de uma biblioteca querida. Tenho um conhecido, também, que era um banheiro público, de tão pervertido e sem dono. Havia desenhos tarados rabiscados por trás de sua porta.

Minha mãe, por exemplo, é a varanda ensolarada em pessoa. Papai é o terraço de piso branco onde canta o curió. Eu? Eu já fui chamada de jardim. De vez em quando, chovo.

Fernando foi um dos meus primeiros namorados. Seu sorriso era um abajur bonito, que iluminava a todos ao seu redor. A gente gostava de sentar no sofá e apenas ficar assistindo televisão. Éramos um casal calmo, caseiro. Apesar de termos nossos 15 ou 16 anos, não queríamos a balada. Não tínhamos a curiosidade do cigarro. De álcool, não precisávamos – éramos embriagados com nosso próprio faz de conta. Passávamos tardes e tardes sentados, apenas olhando pela janela, ou olhando o sorriso um do outro. Nessa época da vida, a gente repara mais no sorriso da boca do que do olho.

Um dia, Fernando quis abrir uma outra porta dentro de sua história. Queria me levar para passear por outro local, dentro dele mesmo. Era o seu quarto azul, de menino. Fiquei com medo; não sentei na cama. Olhava assustada aquele quarto com cheiro diferente, com aroma de sonhos tão diferentes dos meus. Vi suas fotos de criança. Tão engraçado ver a versão infantil das pessoas que conhecemos adultos. Há algo de diferente, mas que não dá pra definir com as palavras da formalidade humana. Os olhos são um pouco maiores… o rosto mais redondinho… A expressão desenhada pelo lápis 6B da infância.

Lembro-me que saí correndo, fiquei intimidada com aquelas informações. Eu era adolescente, mal sabia lidar com meu próprio quarto cor de rosa. Rosa demais para mim, que sempre gostei tanto do amarelo. Das rendinhas do meu cobertor, então, senti vergonha a adolescência inteira. Mas eu as amava de noite, quando acordava com medo e precisava de algum símbolo do amor dos meus pais por mim e pela infância a que sobrevivi.

Um dia, tive coragem de deitar com Fernando na cama dele. Ficamos olhando o quatro que ele tinha pendurado na parede – uma imitação de um girassol de Van Gogh. A flor sorria para a gente, e sorríamos de volta para o quadro. Fernando nos iluminava com seu sorriso acolhedor. Meu sorriso era medroso, os dentes ainda grandes demais para um rosto que se emoldurava. Eu era um terraço molhado – escorregadia e meio perigosa.

Um dia, Fernando caiu no sono. Atenta, levantei da cama e comecei a olhar aquelas coisas que talvez ele não quisesse me mostrar naquele momento. Comecei a revirar seu guarda roupas, sua estante. E encontrei uma gaveta muito misteriosa. Encontrei lá seu diário. Foi tudo muito rápido – comecei a ler, desesperada para reter informações, desenhos, rabiscos, um rosto desenhado a contraluz, uma janela, um coração. Vi o meu nome.

E Fernando acordou, me pegando no flagra. Seu abajur estava desligado. Sua sala de estar estava interditada para mim. De cabeça baixa, deixei sua vida.

A partir daí, comecei a tomar mais cuidado com os cômodos, as gavetas e os canteiros de flores que apareceram aos meus olhos do decorrer dos anos.

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Lançamento de “Relato do Sol”

13 de abril, às 15h30, na Feira do Livro, em Joinville. Estão todos convidados. Para encomedar exemplares por correio, favor entrar em contato por e-mail. vbencz@gmail.com

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