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Fim de Algo

Era um sábado a tarde quando resolvi sair de casa para comprar pães. Fui caminhando à panificadora. Antes de entrar no local, me alegrei por perceber que pegara aquele horário em que o dia se veste de noite. Quando o sol mostra suas plumas e suas rendas, e deita, cobrindo-se com um lençol azul escuro, na esquina do planeta.

Essa metamorfose do dia em noite dura apenas alguns minutos. Acontece diariamente, porém, não é sempre que conseguimos acertar a hora de testemunhá-la. Sol, esta noiva.

Assim que o cenário do mundo ficou escuro, eu entendi que algo dentro de mim também ganhara o tom azul, pontilhado por estrelas. Parada na calçada, com um pacote com pães no braço esquerdo e uma dúvida no direito, olhei para cima, procurando a resposta.

Muitas vezes, quando olhamos para o infinito do universo, é para dentro da gente que olhamos. E foi dentro de mim que encontrei o cruzeiro do sul. Ele apontava para o ponto final da minha adolescência.

Caminhando lentamente, continuei vivendo sobre as flores finais dos vinte e poucos anos, das espinhas, das intempéries da juventude, do rebuliço dos hormônios. Andando, pé por pé, atravessei o canteiro de flores que separa a adolescência da… daquilo que vem depois. Vida adulta? Estabilidade? Felicidade? Altruísmo?

Não sei. Mas, com a sacola de pães em um braço e um leve tremor no outro, continuei caminhando para casa, em uma noite fresca, estrelada, sob o cruzeiro do sul.

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Três

Eram três horas da madrugada quando acordei num susto. E a ideia que eu precisava emergiu em meu consciente. Acho isso tão engraçado – já me aconteceu muitas vezes de ser acordada, em plena madrugada, por uma ideia que soluça em meu inconsciente.

Havia alguns dias, eu estava preocupada com o presente de aniversário que eu daria à minha irmã. Ela faria uma festa para comemorar seus 29 anos, e eu gostaria de dar algo diferente. Algo que dinheiro não pagasse. Eu queria abrir uma frestinha nas cortinas do coração de Camila. E foi com um sobressalto que eu acordei às três da manhã com a ideia de entrevistá-la, para que ela me visse como uma profissional, e não como irmã. Eu levaria meu bloquinho de notas e uma caneta para anotar, com letras lindas, sua surpresa em plena festa.

No dia da festa, não fui com meu vestido estampado de flores. Não vesti meu sapato de salto alto. Não pintei os olhos com alegria. Vesti, sim, meu jeans moído, usado para as pautas do dia a dia. Trajei-me com uma camisa preta de gola, o que sempre me conferia seriedade nas ocasiões mais formais. Mas pendurei argolas prateadas nas orelhas, para não me acusarem de mau humorada.

Ao chegar na festa, William – meu irmão mais novo – foi o primeiro a estranhar minha vestimenta simples.

– Por que veio tão molambenta? Estava de plantão?

Ele estava bem vestido, com suas pompas de profissional da informática. Camila, então, estava digna da família real britânica. Me senti deslocada: ser filha do meio tem suas delícias e pobrezas. Primos e amigos estavam presentes, todos inocentes, sem saber que meu bloquinho de notas estava dentro da minha bolsa, cheio de páginas em branco, prontas para serem rabiscadas com o garrancho da entrevista empolgada.

Com o planejamento de uma cobra, esperei todos jantarem, para depois e eu conseguir soltar a bomba do meu presente. Quando estavam todos descontraídos ao redor da mesa, bebendo cerveja de barriga cheia, resolvi que era a hora.

Com a arrogância de uma atriz de cinema cult, fiz certo suspense ao anunciar meu presente. Falei que havia algo muito valioso no interior da minha bolsa. E assim puxei um bloquinho de anotações com uma caneta enfiada no interior do espiral. Fez-se silêncio. Camila apenas franziu as sobrancelhas, enquanto William já havia entendido a maldade e levantou-se nervoso, dando uma desculpa para escapar de meu olhar julgador. Ao entender minha intenção de mirar um holofote em seu coração, Camila segurou nosso irmão mais jovem, para que pelo menos houvesse mais uma testemunha.

Com o bloquinho estirado na mesa e apontando uma caneta ao rosto de minha irmã, convoquei-lhe a listar os melhores momentos de seus 29 anos. Gaguejando, falou em viagens, estabilidade financeira. Depois pedi os piores momentos. Camila baixou os olhos, fitando as próprias mãos suadas. Eu também baixei os olhos, pois sabia de seus piores momentos. Rapidamente procurei os olhos de William, que pareciam enxergar alguma coisa imaginária voando pelo teto do local.

– O pior foi sofrer por aqueles que a gente ama – disse Camila, com reticências nos olhos. – Foi muito difícil acompanhar as brigas do pai e da mãe, a casa que foi atingida pelo deslizamento de terra e a morte do nosso cachorrinho, tudo ao mesmo tempo.

Anotei tudo, como se realmente estivesse trabalhando.

– Como você imagina seus próximos 29 anos? – falei.

– Pacíficos – disse Camila, relevando junto com esta palavra muita urgência e necessidade por tempos menos movimentados negativamente.

– Se descesse um anjo aqui e agora, e ele te dissesse que você pode pedir três coisas, o que pediria? – questionei. Neste momento, William olhou-me injuriado, com a boca aberta em susto.

– Eu não saberia responder essa pergunta – falou meu irmão para ele mesmo.

Camila pensava, de cabeça baixa. Olhei ao redor, e todos os nossos familiares e amigos estavam tensos, provavelmente se agradecendo por não estarem fazendo aniversário naquele dia. O que há de errado com essa pergunta?

– Pediria saúde.

– E o que mais, Camila? Faltam duas coisas. – falei, sem saber que arregalava os olhos assustadoramente, coisa que meu irmão lembraria semanas depois, me imitando na mesa do almoço.

– Sabedoria – disse Camila, com medo.

– E a última, Camila, qual é? – eu estava quase gritando.

– Que as minhas próximas lembranças sejam tão bonitas quanto aquelas que temos da infância – disse minha irmã, me dando sua lágrima como vírgula. – Quero que a gente seja tão feliz quanto a gente era quando pequeno.

William, com o choro preso em seu maxilar apertado, disse:

– Foi uma fase muito mágica mesmo, mas infância é isso aí, cheia de magia e saudade.

– Mas a infância não é uma época, é um estado de espírito – lancei, esta que é a minha principal frase pronta, meu clichê pessoal. – E o que você acha que tem para ensinar para a geração que vem depois da gente? Para os nossos filhos?

Foi aí que percebi que eu estava estragando o aniversário de minha irmã. O silencio era tão grande, que pensei ouvir corações batendo. Camila, com os olhos desabados em dúvida e preocupação, era uma das entrevistadas mais melancólicas que já encontrei. William, então, era um co-entrevistado nervoso, que brigava comigo até pelas sobrancelhas.

– Espero que nossos filhos tenham na gente um bom exemplo. Quero que eles fiquem sabendo das coisas que fizemos, tanto das certas quanto das erradas, e tenham um pouco do exemplo de como as coisas funcionam na prática. Espero que tenham a racionalidade do Will, um pouco do meu senso de responsabilidade e da tua loucura!

Quando Camila falou “tua loucura”, ela finalmente me olhou nos olhos, mas falou rindo, achando graça dessa ofensa positiva. Comecei a imaginar essa pessoa que seria uma mistura de nós três, uma pessoa com as sobrancelhas de Will, o sorriso correto de Camila e minhas covinhas, perdidas pelas bochechas. Chorei também.

Já que o aniversário estava estragado mesmo, deixei o bloquinho de notas – cheio de anotações – em cima da mesa e abracei meus irmãos. Três pessoas, tão iguais e extremamente diferentes, apaixonadas pelas mesmas coisas.

“O aniversário foi marcante”, me confidenciou Camila dias depois, por e-mail. Eu fiz uma pequena reportagem de ambiente sobre a data e todos se divertiram muito, por verem-se transformados em palavras, mas com nomes trocados. Os nomes foram trocados menos para manter a identidade deles, e mais para darmos risada. Afinal, foram meus irmãos que escolheram os nomes que gostariam de ter, nesta brincadeira.

Muitos aniversários hão de vir, e eu pretendo muitas vezes mais abrir um pouquinho as cortinas da emoção de quem eu amo. A coisa pode ser um pouco dolorida, mas nunca se esquece um coração vislumbrado por um holofote.

 

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Instruções para tornar-se criança

 

Primeiro: derrube o muro erguido entre o seu cérebro e a sua boca. Deixe as ideias tomarem forma de palavra e solte-as para brincarem nas suas cordas vocais, como a um violão. Faça o teste: se você conseguir confessar à sua avó o seu desgosto por chá de boldo, parabéns. Olhe-se no espelho. Não se assuste com o pedaço de céu que aparecerá nos seus olhos.

Segundo: olhe de frente o fantasma do seu medo. Cada criança cria um fantasma específico; por isso, aconselha-se que ele seja procurado em janelas muito altas, debaixo da cama, nos olhos do cachorro. Assim que o encontrar, prepare-se. Suas pernas vão tremer e seu coração vai esmagar a garganta. Levará alguns minutos para que este sentimento seja posto sob controle e torne-se um vício.

Terceiro: machuque-se de leve. Toda criança precisa de uma ferida ou de uma cicatriz ainda sensível para comover os outros. Os adultos têm o hábito de querer cuidar um do outro, e quando vêem uma criança com um machucado visível, derretem-se em carinhos. Todo o rancor de anos de guerra se dilui, distribuem beijos, doces, ora seja, tadinho dele. Dica: suba numa árvore e caia do galho mais baixo. Berre alto e segure a risada que teimará em explodir.

Quarto: tudo é motivo para choro e para riso. São emoções opostas que se encontram num horizonte à distância de três passos. Encontram-se nas seguintes situações: num tombo violento na escada; na decapitação de uma boneca; na súbita descoberta de que os adultos são crianças retorcidas.

Quinto: procure outras crianças. Elas estão em extinção. Porém, ainda podemos encontrá-las em universidades, debaixo das árvores, manejando violões ou observando nuvens. É imprevisível, pois as crianças se disfarçam muito bem de adultos e principalmente de velhos. Elas possuem uma astúcia que ninguém tem em plena maturidade. No momento que você enxergar uma espinha de peixe numa folha seca de árvore, mergulhe a mão no bolso da calça e tire a primeira bala de morango. És criança.

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