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A Lógica do Carinho

Emílio era tímido. Provavelmente por causa de todo o sofrimento que havia atravessado. Tinha medo das pessoas. Estampava nos olhos escuros a expressão daqueles que já viram o pior do ser humano. Emílio era um vira-latas preto que caiu de paraquedas no mundo absurdo dos terráqueos. As orelhas estavam sempre baixas. Ele não tinha a espontaneidade dos outros cães que se espreguiçam e deitam na grama ensolarada. Que latem, fazem festinha e coçam o próprio rabo, o bom humor canino. Emílio conhecia o calor lancinante das queimaduras feitas em suas patinhas.

Fui apresentada a Emílio na casa de uma amiga, que havia me mandado um e-mail contando a história do bicho. Me disse que encontrou-o machucado na rua, no lixo. Não devia nem ter um ano de idade, era um filhote grandalhão e desajeitado. No mesmo dia, eu quis conhecer o animal. Os editores do jornal acharam que seria interessante publicar uma matéria expondo os pesadelos reais pelos quais os animais passam, nas mãos dos seres humanos.

Ao chegar na casa de minha amiga, tivemos um grande problema em tirar Emílio de sua casinha de madeira improvisada. Ele não queria sair, tinha medo. Assim que pude vê-lo – suas patas estavam todas remendadas em esparadrapos e gaze –, entendi a tristeza de Emílio. Era novamente um daqueles casos em que um ser, ainda na fase da infância, conhece os terrores, os fantasmas e os monstros da maldade dos adultos. Não confiava em ninguém.

Minha amiga ficou sem jeito, o animal estava paralisado como estátua. Ouvi dizer que os animais brabos são os que mais têm medo – eles usam do recurso de atacar e rosnar justamente por ter medo do resto do mundo. Mas nem isso Emílio tinha; estava entregue ao mundo, aos seus terrores e aos algozes. Eu, que fui criada em meio a cães durante toda a infância e adolescência, entendi a inocência perturbadora de Emílio.

Espontaneamente, abaixei-me à sua altura e assobiei, de modo amigável. O cão ergueu cuidadosamente os olhos do chão e procurou meus olhos. Aí, fui eu quem baixou os olhos. Cachorro se sente ameaçado quando olhado direto nas pupilas. Estendi o dorso de minha mão para que ele a cheirasse. Ele se aproximou e carimbou minha mão com seu focinho gelado. Acarinhei sua orelha macia, devagar. Ele ainda estava paralisado de medo, como se sentisse frio naquele dia calorento de verão. Continuei a lógica do carinho – esfreguei meus dedos pelo seu pescoço, pelas costas. Parei o carinho, para ver se ele procuraria minha mão. Procurou. Havia feito amizade com Emílio. Ele havia aceitado meu pedido de amizade através do altruísmo que vive dentro de um carinho.

Sei que os cães não entendem bem o conteúdo daquilo que falamos – eles compreendem melhor o tom da voz. Estava ciente também que o fotógrafo, o motorista e minha amiga estavam me achando louca, mas resolvi conversar com Emílio. Com a mesma voz que uso em minhas orações, perguntei: “O que te fizeram, Emílio? Por que isso aconteceu? Como eu posso te ajudar?” Meu coração caiu no chão quando ouvi seu chorinho, bem baixinho, parecido com um apito quebrado.

O sofrimento não muda de acordo com quem o sente. Me doía saber da maldade que fizeram com Emílio, e seria igualmente ruim saber da maldade contra uma criança, um adulto ou um idoso. O cachorro tinha nos olhos o fantasma daqueles que gritaram de dor até quase enlouquecer. Era uma vítima de outra vítima. Talvez seu antigo dono tivesse sofrido igual maldade. Os vilões sempre são vítimas de outros vilões, que também têm seus monstros. Mas alguns encontram anjos – pessoas como minha amiga, que viu o cão sofrer e correra com ele para o veterinário.

Publicamos a matéria. E, junto com ela, publiquei também, subliminarmente, uma oração, um pedido de socorro por todas as dores do mundo e uma solicitação de carinho. Carinho alheio – porque a lógica do carinho é ser incessante, e incondicional. Por todas as vítimas, por todas as lágrimas, por todas as maldades que nascem de dores piores.

Um mês depois, visitei Emílio novamente. Com as patas recuperadas, estava brincalhão e mais extrovertido. “Emílio”, de acordo com o dicionário de nomes, significa “solícito, zeloso”. Não havia nome melhor para uma história reconstruída.

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Arquivado em Repórter distraída