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Não se despeça de mim sem drama

Desde pequena, tenho problema em me despedir das pessoas.

Tenho medo de nunca mais voltar a vê-las. Tenho pavor de que aquele momento da despedida seja o último em que projeto meus olhos na alma daquela pessoa e vislumbro o mapa de seus sonhos. Me dá um pavor de nunca mais reviver a melodia de sua existência. E tenho medo, também, de que esta seja apenas uma farsa do destino; uma despedida que faço a alguém que gosto e que seja também a minha despedida desse planeta.

Já aconteceu com tanta gente, não é mesmo? Todos embalados pela ingenuidade em não saber como será o dia de amanhã; que cor terá o mês de fevereiro; qual a nota musical a ser dedilhada no próximo minuto. E, mergulhados na inocência da felicidade do “não saber”, aí tem o ponto final da música.

Esses dias, fiz um drama homérico ao me despedir de minha irmã. Passei alguns dias na praia com ela e, na hora de voltar a Joinville e retomar o trabalho, pirei. Entrei em coma nostálgico. Fui abduzida pela depressão pós-diversão.

Minha irmã, sem se dar conta, compartilhou a tristeza desesperada comigo. Entrou ao meu lado no parque de diversões sombrio que é despedir-se daqueles de quem a gente gosta. Entramos, sozinhas, na roda gigante da sensação justiceira que é a luta para ficar ao lado de alguém. Fizemos um espetáculo para os parentes – ninguém sabia se aquilo era comédia ou tragédia mexicana. Bom, era apenas o teatro amoroso de nossa existência.

Entrei no carro à força, chorando, segurando pela mão de minha irmã, que lutava para que eu ficasse ao seu lado. Deixei o portão da casa dentro do carro, olhando seus olhos avermelhados pela lágrima.

Horas depois, a piada já estava pronta e embalada para ser contada a nossos filhos, num futuro que ninguém sabe se vai existir.

E teve aquela vez que eu fui demitida de uma empresa em que eu gostava de trabalhar. Trabalhava com o coração apertado, quando fui chamada para uma reunião. Entrei nesta reunião abraçada pela ingenuidade, e saí mutilada. Eu tentei sair sem me despedir de ninguém, com a desculpa do mau humor, da tristeza ou até do mau caratismo. Tudo isso seria mais fácil de explicar, do que a minha falta de noção e bom senso em me despedir das pessoas.

Alguns vieram me abraçar, mas eu não ofereci o abraço: dei o sorriso para ficar de lembrança no porta-retrato da memória de meus ex-colegas.

Quando meu cachorrinho completou 15 anos, comecei a planejar a despedida. Fiz uma autoterapia, construi frases de autoajuda, pintei minha saudade de amarelo. Mas, de qualquer jeito, o cão se foi e o meu escândalo só não foi pior do que meu período de luto.

O luto agressivo e revoltado.

Essa é a minha briga com a natureza e com as convenções da emoção humana. O coração estraçalhado, assim como as páginas do diário. As contas do rosário espalhadas pelo chão do quarto. Mas, no fim das contas, é o drama que deixa as lembranças mais legais. Embaladas para serem contadas com riso mais tarde. Bem mais tarde.

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