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Era uma matéria especial sobre casais que haviam se separado, depois de muito tempo juntos. Encontrei Tatiana no Orkut, em uma comunidade chamada “Meus Pais são Separados”. Ela me contou, virtualmente, que seus pais tinham se separado fazia pouco tempo – coisa de duas semanas. A ferida da garota ainda estava doendo. Procurou a rede social para encontrar seus iguais. Mas procurava, mesmo, um abraço apertado para desatar o sufoco do coração.

Tatiana me contou que algumas pessoas próximas zombavam dela por estar sofrendo, aos 25 anos, pela separação dos pais. E o pior: a mãe tinha esquizofrenia. Tinha sido a mãe de Tatiana a sair de casa, após o milésimo surto. O pai, ignorante, nunca aceitara que sua esposa carregasse nos genes essa bomba relógio que é a doença mental. Minha entrevistada era filha do meio – por sorte ou por puro carinho do destino, tinha um irmão e uma irmã que compartilhavam o pranto com ela.

Combinamos de nos encontrar em uma cafeteria. Mas ela pediu que eu fosse sozinha, sem fotógrafos. Compreendi e cumpri seu pedido. Tatiana contou-me que estava acostumada, desde criança, a ver sua mãe falando sozinha. Mas o invisível interlocutor de sua mãe não era qualquer um – era o demônio. A mãe dela xingava, com rosto zangado, este ser demoníaco que só ela via. Dizia que ia proteger os filhos do mal.

As crianças se assustavam, se escondiam debaixo da mesa, rezavam juntas. Enquanto a mãe, com olhos esbugalhados espantava o capeta com um crucifixo, as crianças, de olhos fechados, abraçavam-se assustadas debaixo da mesa do jantar. Talvez por causa disso, mantivessem até hoje essa amizade tão bonita, unida e rara entre irmãos.

Foi com um susto que, na adolescência, ouviu falar sobre esquizofrenia e entendeu que não existia um diabo invisível dentro de casa. Existia, sim, uma pessoa vítima de esquizofrenia, e que precisava ser tratada com urgência. Mas a mãe de Tatiana não aceitou que fosse doente – afinal, as vozes demoníacas gritavam muito nitidamente em seu ouvido, era de estourar os miolos.

Com a negligência de todos, o tempo passou sem que ninguém fizesse nada. Até que um dia, ao acordar, a família deu-se conta que estava desfalcada. A mulher havia sumido. Ela telefonou horas depois, de uma cidade vizinha, dizendo que não voltaria. Ao me contar esse relato, Tatiana chorava muito, chorava como quem traduz sua ferida recente e sincera. Não se fazia de vítima, tampouco escondia seu desespero. Segurei suas mãos, tentando transmitir alguma força ou consolo.

A mãe, doente mental, estava vagando por uma cidade estranha, sem que ninguém pudesse ter certeza de seu paradeiro. E o pai, ao invés de resolver a situação com maturidade, havia registrado na polícia o abandono do lar, com indiferença e até alívio. A mulher perdera tudo. Trinta anos de casamento, três filhos e três casas ficaram para trás.

Aí percebi que esta entrevistada tinha mais do que uma história para uma pauta sobre separação. Tatiana me dava o testemunho sobre o quão desconhecidos e negligenciados ainda são os casos de doença mental. Sobre o quanto ainda somos inocentes e imaturos para lidar com os mistérios da mente humana. Sobre as armadilhas que existem nos mecanismos da mente – e, por que não, da alma?

Tatiana disse que nascia dentro dela, tardiamente, o verdadeiro sentimento de amor pelos pais. Amor, esse sentimento controverso que muda de cara de acordo com a situação. Amava os pais no conforto de seu lar – e amava dolorosamente um homem e uma mulher que não conseguiam mais conviver juntos. Desejava, mais do que tudo, que as coisas se ajeitassem, que sua mãe tivesse saúde, que o pai tivesse discernimento. Queria o básico: que seu pai e sua mãe fossem felizes, mesmo separados.

O depoimento de Tatiana foi publicado, em primeira pessoa. Ela o redigiu. Escondeu em cada palavra uma emoção certeira, lapidada, dolorosa. Recebi muitos e-mails de leitores pedindo para entrar em contato com a garota.

Três semanas depois, recebi um e-mail de Tatiana. Seus pais haviam voltado a morar juntos. Estava feliz por eles mas, por outro lado, um pouco chateada por ter perdido seu emprego. Ela andava tão triste na época que seus pais estavam separados, que seu desempenho caiu na empresa e ela foi demitida. Porém, o que importava é que, a princípio, seus pais estavam bem. A mãe, medicada. O pai, calmo pelo esporro que levou dos filhos. E eu, feliz por ver que nem sempre as histórias da vida real terminam mal.

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Arquivado em Repórter distraída