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Fim de Algo

Era um sábado a tarde quando resolvi sair de casa para comprar pães. Fui caminhando à panificadora. Antes de entrar no local, me alegrei por perceber que pegara aquele horário em que o dia se veste de noite. Quando o sol mostra suas plumas e suas rendas, e deita, cobrindo-se com um lençol azul escuro, na esquina do planeta.

Essa metamorfose do dia em noite dura apenas alguns minutos. Acontece diariamente, porém, não é sempre que conseguimos acertar a hora de testemunhá-la. Sol, esta noiva.

Assim que o cenário do mundo ficou escuro, eu entendi que algo dentro de mim também ganhara o tom azul, pontilhado por estrelas. Parada na calçada, com um pacote com pães no braço esquerdo e uma dúvida no direito, olhei para cima, procurando a resposta.

Muitas vezes, quando olhamos para o infinito do universo, é para dentro da gente que olhamos. E foi dentro de mim que encontrei o cruzeiro do sul. Ele apontava para o ponto final da minha adolescência.

Caminhando lentamente, continuei vivendo sobre as flores finais dos vinte e poucos anos, das espinhas, das intempéries da juventude, do rebuliço dos hormônios. Andando, pé por pé, atravessei o canteiro de flores que separa a adolescência da… daquilo que vem depois. Vida adulta? Estabilidade? Felicidade? Altruísmo?

Não sei. Mas, com a sacola de pães em um braço e um leve tremor no outro, continuei caminhando para casa, em uma noite fresca, estrelada, sob o cruzeiro do sul.

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Instruções para tornar-se criança

 

Primeiro: derrube o muro erguido entre o seu cérebro e a sua boca. Deixe as ideias tomarem forma de palavra e solte-as para brincarem nas suas cordas vocais, como a um violão. Faça o teste: se você conseguir confessar à sua avó o seu desgosto por chá de boldo, parabéns. Olhe-se no espelho. Não se assuste com o pedaço de céu que aparecerá nos seus olhos.

Segundo: olhe de frente o fantasma do seu medo. Cada criança cria um fantasma específico; por isso, aconselha-se que ele seja procurado em janelas muito altas, debaixo da cama, nos olhos do cachorro. Assim que o encontrar, prepare-se. Suas pernas vão tremer e seu coração vai esmagar a garganta. Levará alguns minutos para que este sentimento seja posto sob controle e torne-se um vício.

Terceiro: machuque-se de leve. Toda criança precisa de uma ferida ou de uma cicatriz ainda sensível para comover os outros. Os adultos têm o hábito de querer cuidar um do outro, e quando vêem uma criança com um machucado visível, derretem-se em carinhos. Todo o rancor de anos de guerra se dilui, distribuem beijos, doces, ora seja, tadinho dele. Dica: suba numa árvore e caia do galho mais baixo. Berre alto e segure a risada que teimará em explodir.

Quarto: tudo é motivo para choro e para riso. São emoções opostas que se encontram num horizonte à distância de três passos. Encontram-se nas seguintes situações: num tombo violento na escada; na decapitação de uma boneca; na súbita descoberta de que os adultos são crianças retorcidas.

Quinto: procure outras crianças. Elas estão em extinção. Porém, ainda podemos encontrá-las em universidades, debaixo das árvores, manejando violões ou observando nuvens. É imprevisível, pois as crianças se disfarçam muito bem de adultos e principalmente de velhos. Elas possuem uma astúcia que ninguém tem em plena maturidade. No momento que você enxergar uma espinha de peixe numa folha seca de árvore, mergulhe a mão no bolso da calça e tire a primeira bala de morango. És criança.

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