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Votação Quinto Concurso

Vote no melhor até 18 de agosto!

aquela que existe e pre-existe com o vir ou  o passar do tempo
aquela cujos efeitos são semelhantemente sentidos em diferentes pessoas em diferentes épocas
aquela que tem cujos irmãos mais novos, na ordem: a frustração, a desesperança, a depressão, e o sucumbir
aquela que é dura mas pode trazer algo positivo consigo: o sentimento de realidade
aquela que se compara com um abrir de chão para forçar a todos os ludibriados a aprender a flutuar, para evitar a continuação da queda

(Alice Pontes)

Desilusões amorosas competem com saudade, pois entre um e outro, sempre terá perdas, um perde o amor que foi conquistado ao longo do relacionamento e o outro perde um ente querido. De vez em quando, é mais fácil viver na decepção do que encarar a realidade, porém o sofrimento é constante e é o caminho mais difícil para seguir em frente. Qual é o pior? Sofrer com a realidade e seguir em frente ou sofrer na desilusão? Só o tempo nos dirá…

(Nikolas Alvarenga)

Já não há

Uma manhã de sol já não te esquenta, um por de sol  na praia já não te traz mais lembranças,
um sorriso de criança já não te faz refletir sobre a vida, um lindo filhote de coelho já não te arranca suspiros.
O que aconteceu com o seu mundo que não gira mais aos seus pés ao receber um beijo da pessoa amada, será que já não existe mais aquele encanto da inocência ou será que deixou de acreditar no impossível.
Você deixa de lado as coisas importantes e começa a se importar com o que antes era apenas obrigações, e começa a se lembrar aonde foi no caminho que a esperança se perdeu.
Afinal para que se importar, já não há oque fazer, ou será que há!

(Cristina Luciana)

Em busca dos teus olhos invernais…

O que importa se tu estás surda
para me ouvires na escuridão do
quarto e se ontem ainda choravas
quieta e dizias palavras ininteligíveis
e rias por dentro como quem faz
uma molecagem atroz; o que
importa o acinzentado de teus olhos
mais distantes e mais opacos nos
invernos do sul.

E
eram
escadarias
tuas
argumentações
de
boteco.
Nefelibata como te intitulavas, como
se isso pudesse resolver tua cólera
e o pouco sorriso. E economizavas

até nisso…!

(Jéferson Dantas)

[votação encerrada]

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Cidade Amarela

E quando o coração que bate não é necessariamente humano?

Ontem eu andava pelo centro de Joinville, abraçada pelo sol irônico de fim de tarde, quando de repente parei. Olhei para cima e vi: o céu estava pontilhado por nuvens, geralmente como fica quando estamos em um outono mágico. Fiquei encantada com a poesia daquele momento.

É bem comum que o céu traduza, com a linguagem das nuvens, algo que se passa dentro de mim. Conexão com o universo? Pura coincidência? Signo de peixes alinhado com o de leão? Talvez tudo isso. Talvez nada disso.

Então, regida pela humildade da poesia do momento, voltei a baixar os olhos e enxerguei as pessoas ao meu redor, apressadas, ausentes de si, vivendo junto comigo mas dançando de acordo com outro relógio, outra história, outro coração. Em menos de um segundo, passei a enxergar essas pessoas como parte dessa coreografia chamada dia a dia. E esse cenário chamado “Joinville”, essa cidade bipolar, meio amarela e com cheiro de mato, ficou mais atraente para mim.

Continuei andando, devagarinho, com um sorriso pela metade, meio defeituoso pela descoberta. Os olhos, abertos ao extremo, queriam reparar na asa do quero-quero e no sorriso do gari, tudo ao mesmo tempo. Continuei vivendo, devagarinho.

De vez em quando, o mundo me surpreende demais. Fiquei feliz por fazer parte da ciranda dessa cidade, essa cidade que rejeito desde que sou criança. Mas hoje, já adulta, acho que é uma cidade muito poética. Enquanto Joinville é a minha cidade, eu sou uma janela para ela.

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Sobre Paixões e Sombras

Você sabe quantas vezes já se apaixonou na vida?

Eu não. Foram muitas, eu diria…

Uma vez, li que apaixonar-se significa encontrar as qualidades de si próprio na outra pessoa. Encontrar, em olhos alheios, um brilho muito parecido com o seu.

Não sei; já me apaixonei por pessoas bem diferentes de mim. Mas, quando me apaixono por uma música, um conto ou um desenho em azul, aí sim acredito que a arte esteja expressando um sentimento tatuado no meu peito.

Aos treze anos, comecei a treinar Kung Fu. Foi a arte marcial que me salvou do idiotismo da adolescência. Enquanto meus amigos experimentavam o primeiro cigarro ou baseado, davam o primeiro gole na vodka com Coca-cola ou descobriam a potencialidade de uma roupa justa, eu estudava as técnicas da luta chinesa. Dormia cedo e acordava de madrugada. Saía de casa antes das 8 horas da manhã, rumo à academia, para aprender novos golpes e treinar com empolgação o que já havia aprendido.

Alguns meses depois de ter me apaixonado pelo Kung Fu, me apaixonei pelo professor.

Era um rapaz jovem, com uns 10 ou 11 anos a mais do que eu. Lembro bem do momento em que senti que estava apaixonada. Estávamos treinando com a academia cheia, quando uma criança foi dar um chute no ar e caiu para trás. O menininho começou a chorar, quando meu professor saiu correndo para acudi-lo. Com a expressão séria e mãos carinhosas, acalmou o menino.

Já era. Do outro lado da sala, observando o professor, eu estava com aquela expressão típica de quem se ilude: sorriso frouxo e olhos bondosos.

A paixão me atingiu em cheio, impiedosa, sem anestesia, como geralmente atinge apenas às crianças. Cheguei a ter um caso com o tal professor – mas, a partir daí, a coisa só desandou. Essa paixão foi como aqueles gráficos que mostram uma produtividade alta no primeiro dia, e a coisa só desce nos próximos, até terminar morta, estraçalhada, mutilada, no fim do prazo. Foram quase três anos procurando no homem aquela adrenalina do começo da paixão. Uma droga, literalmente.

No fim do relacionamento, eu tinha raiva e nojo de cada detalhe de sua existência. Ainda hoje, quando o encontro pela rua, sinto um embrulho no estômago, como algo que meu corpo se recusa a digerir. Como pode uma paixão converter-se em asco profundo?

Mas não tinha como dar certo: uma pré-adolescente jamais conseguiria transformar uma paixão em amor, junto com um homem mau caráter.

Anos depois, eu andava distraidamente por uma livraria, quando vi que uma banda de rock se preparava para tocar em meio a livros. Sem pretensão, conferi os músicos e reparei que o baixista era um rapaz alto, magro, de cabelos compridos e meio estranho. Me apaixonei. Foram mais dois anos de sofrimento por alguém que não tinha noção de como funcionavam os mecanismos da ciranda do mundo real.

Depois – quando eu já tinha vinte e poucos anos, olhos apagados e sessões de terapia nas costas – voltei a treinar Kung Fu, mas desta vez com outro professor. Um dos alunos mais antigos, que era instrutor da academia, era um rapaz baixinho. Ele foi designado a me ensinar os primeiros passos de uma forma de wushu. Sua didática firme, seu conhecimento e suas canelas finas me encantaram. Ao sair do treino, mandei uma mensagem para minha irmã, que dizia o seguinte:

“Acabei de conhecer meu próximo namorado. Ele se chama Danilo, é três anos mais novo e três centímetros mais baixo que eu”.

Mandei esta mensagem na espontaneidade da paixão. Mas, meses depois, ao encontrar isto na caixa de saída de mensagens do meu celular, me assustei. Daonde eu tirara esta determinação?

O fato é que, com Danilo, vivi um grande terremoto emotivo. Eu não era mais adolescente, mas fui atingida pela nuca com o dardo envenenado do apaixonamento. Foi algo absurdo; tenho até dificuldades em escrever sobre isso agora. Foi a última vez que me apaixonei dessa maneira. Nunca mais consegui – e nem quis – me apaixonar do mesmo jeito que se pula em uma piscina em dia de verão. Vivi dois anos de agonia com este guri pequeno.

Terminar o relacionamento com Danilo também foi um problema, já que ele era usuário de drogas. Ele era dependente químico e eu, dependente da felicidade dele. Acabou mal.

Depois dele, cheguei a conhecer outros rapazes. E, ao sentir que meu coração estava prestes a acelerar, a soltar o freio de mão, a ganhar o impulso que me tira o fôlego, eu fechava os olhos e caía dentro de mim, no escuro, na esperança de que a porta fechada me protegesse das pessoas com sorrisos irresistíveis. Na esperança de que o escuro me salvasse dos homens com olhos sonhadores, com covinhas nas bochechas, aqueles que me abraçavam pela cintura e mordiam meu pescoço, enquanto diziam que a noite estava tão poética, e porque não caminhar ao luar?

A tática de ignorar os encantos da vida alheia deu certo, até conhecer Davi.

Aí, vocês já conhecem a história.

Apaixonar-se é sentir, definitivamente, que alguém apagou a luz no seu cérebro. E o coração é a única bússola que temos para encontrar a vida, em meio ao mar escuro e tenebroso que é a existência. Ser correspondido nessa paixão é como encontrar a mão supostamente amiga e segura, enquanto procuramos nossa história com desespero.

Mas, agora, eu sei que amo de verdade. Amar é apaixonar-se pela mesma pessoa todos os dias.

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Resultado Terceiro Concurso

Com 48,65% dos votos, Rômulo Mafra é o vencedor do Terceiro Concurso, levando de prêmio o livro “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende.

Prepare-se: o Quarto Concurso terá como prêmio o livro “Todos os Fogos o Fogo”, de Julio Cortázar. Vou pensar em um tema bem legal. Aguarde!

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Eu Espio pelas Cortinas

A mulher, pequenina, cutucou meu braço, enquanto eu alcançava algum livro na parte alta da estante da livraria. Olhei-a e não a reconheci; sorri e a cumprimentei com um oi. A mulher abriu a boca, mas de lá não saíram palavras: ficou com seu espanto pendurado nos lábios. Piscando os olhos rapidamente, ela sorriu. E disse:

– Desculpe, é que sou tímida.

Sorri de volta.

– Então somos duas – falei. Timidez, essa velha conhecida.

– Você, tímida? Mas como? Não é jornalista? Jornalista não pode ser tímido – falou a mulher, acusando minha vergonha de repente. É… pessoas tímidas explodem de uma hora para outra. A gente acha que a inocência vem junto com as bochechas ruborizadas, mas que nada.

– Mas sou, fazer o quê – respondi, descosturando o sorriso, magoada.

Heloisa disse que me reconheceu por causa do blog. Me arrependi na hora pela foto que botei lá; por mim, nem colocaria foto, só botei porque o resto do mundo é curioso e quer ver a cara de quem escreve. Não sei para quê. Provavelmente para me reconhecer na livraria e jogar na minha cara que eu sou tímida.

– Gosto muito do seu blog – falou, olhando para baixo.

– Obrigada –, respondi, olhando para baixo também.

– O que você gosta de ler? – Questionou Heloisa, olhando para suas mãos, fingindo que arrumava os anéis prateados nos dedos.

– Ah, eu adoro contos, coisas como Isabel Allende e Cortázar. Latino-americanos, sabe – respondi, coçando o ombro, sem sentir coceira nenhuma.

– Nossa, que legal, eu sou chegada em Hemingway – comentou ela, procurando coisas nos bolsos da calça jeans, sem me olhar nos olhos.

– Então vem aqui que eu vou te mostrar uns livros que eu li mês passado e gostei muito – falei, chutando uma pedrinha invisível no chão, e a encaminhando suavemente para a sessão de biografias.

Duas pessoas tímidas conversando não significa que a timidez será duplicada. Na verdade, duas pessoas tímidas se anulam, matematicamente. A sensação de sentir vergonha continua lá, mas pendurada como um casaco atrás da porta, e não como uma cortina fechada para o espetáculo da nossa personalidade.

Eu e Heloisa tivemos um bate-papo muito interessante sobre narrativas, a diferença entre autores latino-americanos e escritores europeus e edições antigas de livros.

Antes de nos despedirmos, resolvi fazer uma pergunta à mulher.

– Heloisa, você acha que ser tímida te atrapalha em muitas coisas?

Perguntei isso sabendo que, em seguida, seu sorriso ganharia a nuvem da vergonha, e foi o que aconteceu.

– Sim, me atrapalha bastante. Até já pensei em fazer terapia. Mas é engraçado, porque com algumas pessoas eu consigo conversar, assim como estou conversando com você agora. Mas, em geral, tenho muitas dificuldades por conta disso, sim. Ainda mais porque sou professora de português de ensino fundamental.

“Mas que cacete”, pensei. “Tímido só escolhe profissão em que precisa lidar com o público”.

Ser tímido é, em geral, apresentar-se em um palco com as cortinas semi-cerradas. Assim é mais fácil se esconder, sair correndo. Mas, geralmente, escolhemos um público grande para o show da nossa vida. A gente só mostra o que consegue, o que acha conveniente. Ser tímido é ter a personalidade embrulhada para presente. A surpresa do seu interior é inquestionável.

A timidez é o meu guarda-chuvas. Já me chamaram docemente de introspectiva, reservada, meiga, romântica, distraída (é claro), fechada. E eu acato todos esses adjetivos. Porém, esses nomes são apenas rabiscos nas cortinas do teatro da minha vida.

Poucas pessoas sabem do escândalo que eu já fiz no meu camarim.

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O Senhor do Tempo

Quando procuro em minha memória a lembrança mais antiga, sempre acabo lembrando daquela tarde em que minha avó me mostrou um relógio de mesa. Hoje em dia, não sei se ainda existem coisas assim para comércio. Era um relógio tão estranho, que agora tenho dificuldades em descrevê-lo; acho que metade do que lembro é fantasia, e talvez minha lembrança não corresponda com a realidade da história.

Era um relógio vertical, com cerca de 25 centímetros de altura. Era parecido com esses relógios antigos de parede, mas era uma miniatura que ficava de pé, envolvida por uma proteção de vidro. Parecia um objeto do outro mundo, uma cápsula espacial. Fica altivo, em cima da mesa no na estante, fazendo um tic-tac sonoro e seguro, como que cuidando para que o tempo não fugisse de seu comando. Aquele relógio era o cão de guarda do tempo, na nossa casa.

Descrevendo agora soa sem graça. Mas esse reloginho antigo era o meu segredo, quando eu era pequena. Minha cobiça, o brilho no cantinho de meus olhos. Era o meu pecado em plena pureza da infância. Era impossível não passar pela sala de estar, onde ele ficava, sem lançá-lo um olhar de amor, desejo e fé de que, no futuro, ele estaria entre minhas bonecas.

Quase todos os dias eu pensava em roubá-lo. Achava que seria perfeito: eu o levaria para o meu quarto, para o mundo secreto dos meus bichos de pelúcia, e ninguém desconfiaria. E é com vergonha que eu assumo que esse objetivo não ficou apenas na vontade: eu cheguei a roubar o relógio.

Lembro de, no meio na noite, ter confiscado o relógio da estante e o escondido por baixo da blusa de pijama que eu usava. Sentia, perto do meu peito, o objeto cantando seu tic-tac. Ele era muito pesado.

E foi aí que eu libertei o tempo de sua gaiola. Eu não sabia que aquela cápsula de vidro fosse apenas encaixada. Ela não era colada, era removível. O relógio caiu no chão com estardalhaço. Rolaram pecinhas douradas por todo o carpete. Fiquei alguns segundos olhando aquele relógio morto no chão, antes de sair correndo. O tempo fugiu de seus ponteiros, como passarinho agoniado.

Corri para debaixo das minhas cobertas, na cama. O meu crime foi descoberto. Não foi preciso investigação para que determinassem que eu era a culpada, a assassina, a ladra que abriu a gaiola do tempo. Mas não levei surra. Minha avó apenas choramingou, porque era um presente que trazia de sua adolescência. De tristeza, minha avó ganhou uma ruga horizontal no meio da testa. O dia em que o seu tempo, engaiolado, fugiu pelas mãos de uma criança.

Hoje, ao lembrar, dou risada. Mas, na época, fiz luto no meu diário.

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Ex-lembrança

Acordei de um sono tranquilo e esfreguei os olhos. Vi Davi dormindo ao meu lado. Faz um ano e meio que durmo com ele. Espreguicei os braços e o homem acordou. Abriu seus olhos muito azuis e sorriu. Mais tarde, no mesmo dia, eu preparava um café no meu local de trabalho, quando comentei com as minhas colegas:

– Sou muito feliz com Davi. Se vocês vissem… meus ex-namorados são um show de horrores.

Todas riram. Mas, um segundo depois de eu ter falado isso, já estava arrependida. Enquanto eu misturava o açúcar no café com leite, relembrei dos meninos que já passaram pela minha trajetória e me arrependi do comentário maldoso. Perdoando a mim mesma, sorri.

Há alguns anos, namorei um menino três anos mais novo do que eu. Danilo não tinha sido um namorado ruim. Ele só era burro. Muito novinho, muito ingênuo, muito inexperiente e agressivo com os detalhes que requerem sensibilidade sobre-humana. Lembro-me bem o motivo de ter terminado com ele: ele não havia largado a cocaína. Depois de 12 meses doando meu tempo, suor e expectativas, Danilo não conseguira se divorciar da droga.

Após o término, droguei-me de mágoa e tristeza. Aí, um dia, resolvi largar tudo isso, para ser embalada pela felicidade da solteirice, do abraço de outros homens. Não há abstinência ao largar a mão da tristeza. Recuperei uma boa lembrança de Danilo: a última vez em que o vi.

Foi uma noite em que eu, num momento de impulso depois de meses de brigas, pegara o ônibus para a casa dele. Passamos uma última noite juntos. Metade de mim sabia que aquela era a última noite. E a outra metade era esperança. A lágrima nadava com calma pelo olho. Ela não caiu, não misturou-se ao travesseiro azul do rapaz.

Assim que terminei de tomar o café, terminei também de relembrar desse personagem do meu passado. Mas não sabia que o destino – esse teatro de fantoches que é o universo – estava tramando um reencontro para algumas horas depois.

Ao sair para almoçar, encontrei Danilo na rua.

Ele não mudara nada, desde a última vez que eu o vira – ou seja, estava exatamente igual àquele encontro noturno, três anos antes. Me perguntei se eu também estaria igual. Ou mais gorda, mais magra, mais triste, mais poética. Pela sua expressão de susto feliz, não parecia fazer julgamentos.

Eu não sorri. Hipnotizada, andei em sua direção. Frente a frente – ele sorrindo, e eu de cenho franzido –, nos cumprimentamos.

O encontro ao acaso com ex-namorados pode se tornar um simples teatro idiota, uma convenção entediante e social da trajetória do ser humano, ou pode ser interessante. Depende do ponto de vista. Eu, desde pequena, tento deixar as coisas interessantes.

Provavelmente, a maioria das pessoas normais diria “olá, há quanto tempo”, ou, simplesmente “oi, tudo bem?”. Mas eu não.

– Você está usando a camiseta que eu te dei no dia dos namorados de 2009.

Ele, sem jeito, desmanchou o sorriso e olhou a camiseta velha.

– Por que, você quer de volta? – Perguntou, com uma nota de ironia na voz.

Aí sim, sorri.

– Não, não. Só falei isso para quebrar o gelo mesmo.

Nos abraçamos e eu senti o perfume de sua pele, o aroma que há tempos eu não sentia. A flor da memória abriu-se no meu olfato, enquanto cerrei os olhos brevemente. Continuamos nos olhando, ali, no meio da rua, com a trilha sonora dos carros passando, das nuvens se encaixando no céu, das pessoas passando, nos nossos corações se apertando.

Seus olhos castanhos, quase pretos, infantis, contradiziam o queixo quadrado de homem desenvolvido. E eu nem precisei me olhar no espelho para saber que minhas bochechas queimavam de vermelhidão. O sorriso de Danilo estava solto e bobo feito balão colorido flutuando faceiro pelo céu. Aposto que meu sorriso também estava assim, bobalhão.

Sem palavras verbais, continuamos nossos caminhos. Nos afastamos sem um “tchau” e nem um “até logo”.

Mas eu sou daquelas pessoas que, após a despedida, sempre dá uma olhadinha para trás.

Ele também.

Mais tarde, deitada na cama, esperando que o sono caísse em meus olhos e coração, fiquei feliz por ter encontrado um pouco de mim mesma dentro desse ex-namorado. Danilo, que mal e mal dava para chamar de lembrança. Ele era apenas um aroma, uma pecinha de quebra-cabeça… aquela peça monocromática que geralmente é a sombra de uma árvore, ou a parte toda branca de uma nuvem. Não era uma parte importante, como o olho do leão ou a asa da ave.

Fui dormir ao lado de Davi. Ele, ciente deste meu insólito encontro. Eu, feliz por ter revivido algo perdido em mim.

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