Arquivo da tag: joinville

Cidade Amarela

E quando o coração que bate não é necessariamente humano?

Ontem eu andava pelo centro de Joinville, abraçada pelo sol irônico de fim de tarde, quando de repente parei. Olhei para cima e vi: o céu estava pontilhado por nuvens, geralmente como fica quando estamos em um outono mágico. Fiquei encantada com a poesia daquele momento.

É bem comum que o céu traduza, com a linguagem das nuvens, algo que se passa dentro de mim. Conexão com o universo? Pura coincidência? Signo de peixes alinhado com o de leão? Talvez tudo isso. Talvez nada disso.

Então, regida pela humildade da poesia do momento, voltei a baixar os olhos e enxerguei as pessoas ao meu redor, apressadas, ausentes de si, vivendo junto comigo mas dançando de acordo com outro relógio, outra história, outro coração. Em menos de um segundo, passei a enxergar essas pessoas como parte dessa coreografia chamada dia a dia. E esse cenário chamado “Joinville”, essa cidade bipolar, meio amarela e com cheiro de mato, ficou mais atraente para mim.

Continuei andando, devagarinho, com um sorriso pela metade, meio defeituoso pela descoberta. Os olhos, abertos ao extremo, queriam reparar na asa do quero-quero e no sorriso do gari, tudo ao mesmo tempo. Continuei vivendo, devagarinho.

De vez em quando, o mundo me surpreende demais. Fiquei feliz por fazer parte da ciranda dessa cidade, essa cidade que rejeito desde que sou criança. Mas hoje, já adulta, acho que é uma cidade muito poética. Enquanto Joinville é a minha cidade, eu sou uma janela para ela.

1 comentário

Arquivado em Distrações

Sobre ser Repórter

Ao me aproximar do entrevistado, percebi que ele se arrumara especialmente para a entrevista. Camisa branca, bem passada. Cabelos penteados com pente de cerdas finas. Havia feito a barba naquela manhã. Estava muito cheiroso. Me aguardava na recepção do jornal com um sorriso sincero. Foi impossível não sorrir de volta. Assim começou a apuração da matéria que mais me marcou, nestes três anos de reportagem. André, 33 anos, é portador de uma doença degenerativa que o mantém eternamente sentado sobre uma cadeira de rodas. Neste dia, eu chorei duas vezes. Uma, pela história de vida do rapaz. Outra, por não ter conseguido levá-lo para conhecer o jornal por dentro – um degrauzinho de 20 centímetros impediu que conseguíssemos levá-lo para o interior da empresa. Senti vergonha por isso.

Este dia me marcou não apenas porque guardei André no coração. Registrei esta data porque foi a primeira vez que olhei meu reflexo no espelho e me senti grata por, cinco anos atrás, ter escolhido jornalismo como minha primeira opção no vestibular. Desde então, eu havia me decepcionado com o curso, me tornado uma universitária rebelde e havia lamentado para todos os ventos o piso salarial baixo. Ao me despedir de André, tratei de não calar aquela desconfiança que, de quando em quando, falava baixinho no meu ouvido: talvez jornalismo não seja tão ruim. Talvez a reportagem seja uma estratégia para dar voz aos que não tem. Talvez eu possa fazer muito como repórter. Talvez eu me divirta muito como jornalista. Talvez eu mude alguma coisa com a minha profissão.

Aos 18 anos, preenchi o quadradinho ao lado da palavra “jornalismo”, no ato da inscrição do vestibular. Mas eu não fazia a mínima ideia do que era ser jornalista – e acho que os vários estudantes que rabiscam o mesmo quadradinho, ano após ano, também não fazem. Ser jornalista é um mistério; cada um encontra um tesouro diferente. Não é objetivo como ser advogado, médico ou sacerdote. Ser jornalista é ser os entrevistados, as fontes e os adjetivos. É ser literatura, denúncia e relato. É encontrar seus Andrés e, com emoção, transformá-los em palavras, vírgulas e orações.

Hoje, com um livro de contos para sair do forno, concluo que a minha melhor forma de relatar o mundo é através de uma literatura que melhoro a cada dia, a cada André, a cada passo mais perto da naturalidade em ser um repórter cansado com um crachá balançando na barriga.

11 Comentários

Arquivado em Repórter distraída