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Chore um Oceano

Cresci sob o protesto dos adultos de que chorar é feio. Aprendi a chorar escondida. Primeiro, o choro era meu segredo. Depois, uma confissão ao diário. Hoje, uma terapia que faço sozinha – na maioria das vezes.

Perdi a conta de quantas vezes procurei o banheiro para necessidades emocionais de chorar encolhida. O pranto de cócoras é diferente das lágrimas que afloram de um rosto sem medo.

Chorei muitas vezes ao lado do rolo de papel higiênico. No banheiro da escola, da faculdade, da academia de Kung Fu, da empresa, na casa da sogra. Banheiros espaçosos, apertados, malcheirosos ou até estranhamente limpos. Chorando quietinha, tapando a boca. Ou com raiva, batendo a cabeça nas lajotas da parede. Minha experiência em chorar em banheiro é vasta.

Uma vez, chorava tão alto no banheiro da empresa, que a chefe do departamento de recursos humanos foi acionada para ver o que estava acontecendo. Enquanto eu chorava com a porta trancada, Tereza me convencia de que estava um dia muito bonito lá fora, e era preciso levantar a cabeça. Ela se aproximou muito de mim, mesmo com uma porta fechada entre a gente. Sem medo, acariciou meu coração em transe. Tereza era muito boa no que fazia.

Anos depois, aprendi a encarnar Tereza e levantei a cabeça de outras pessoas, mesmo com uma montanha me barrando fisicamente.

Por muito tempo, fui viciada no segredo do choro. Entendia que as lágrimas, já que vinham de dentro, deveriam permanecer em silêncio e na solidão. Mas já aconteceu de eu precisar chorar, e não ter tempo ou privacidade. Então, acordava de madrugada, sacudida pelo terremoto emotivo do pranto.

Chorar no cinema era a glória. A lágrima foi feita para a tela de cinema, que brilha no escuro.

Eu gosto de estar perto dos outros, quando choram. O pranto alheio é o abraço do coração. As lágrimas que salgam o rosto do amigo me tornam uma pessoa melhor; me tornam um ser humano que abraça com amor e alento. O choro dos outros me leva para perto da sensação da maternidade, acentua minha feminilidade, sublinha o sabor da minha existência.

Lembro-me bem uma das primeiras vezes que chorei na frente de um amigo. Eu estava extremamente sentida por causa do fim de um relacionamento, e contava minhas mágoas a um amigo próximo. Minha vontade de chorar era uma ampulheta veloz. Por desespero ou maturidade, deixei o pranto hidratar meu rosto. Meu amigo sorriu, e disse: “gosto ainda mais de ti, depois de te ver chorando”. E hoje, eu também gosto mais dos outros, quando os vejo chorando.

O choro é o pai do coração.

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