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O Bisturi do Tempo

A gente confirma que o tempo andou quando ele deixa pegadas indeléveis pelo nosso rosto.

Eu descobri, recentemente, duas pegadas suaves de um tempo que caminhou pela minha pele. Ele quis deixar a assinatura de que nenhuma infância dura para sempre. A primeira dessas pegadas eu flagrei semana retrasada. Ela está de pé entre minhas sobrancelhas, bem ali na esquina que se curva quando estou braba ou estressada. É bem de levinho; parece mais a renda de um delicado vestido.

Já a outra é o carimbo inquestionável que de eu, definitivamente, ri muito nessa vida. Ri demais. Ri tanto, que a dobrinha da bochecha veio morar comigo, no canto esquerdo da boca. Mesmo quando não estou rindo, lá está a preguinha, me forçando a rir com cara de desatenta. Esta é mais forte do que a da sobrancelha. É um talho que pode ser verificado por qualquer pessoa, mesmo quando me vê fugazmente, andando com distração do outro lado da rua.

O tempo é um escultor meio sem jeito. Os dias, os meses e as estações passam, e este escultor invisível marca nosso rosto durante a noite. Sem aviso, sem marcar um horário, sem se dar conta que meus armários estão socados de produtos antiage e hidratantes que tentam afugentar o tempo. Nada disso adianta: é tudo em vão. Esse escultor surge de dentro dos meus sonhos e, com atenção, examina meu rosto. Com sua faquinha afiada, marca o mapa da minha vida em meu rosto desprotegido.

Quando acordo, já era: lá estão os dias que vivi demais, os risos que ri loucamente, os estresses que chorei demais, as dores de cabeça que desabaram com espinhos pelas sobrancelhas.

Ainda não tenho 30 anos, e sei que muitas manhãs de susto virão. Sei que chegará um dia em que o escultor chamado Tempo avançará seu desenho em formato de buquê de flores em meu rosto. Por enquanto, tenho apenas dois brotinhos – até que são charmosos. Algumas pessoas, todas também com a cicatriz da faca do tempo, já elogiaram o comecinho da obra de arte do tempo pela minha pele.

Não sei quê flores o senhor Tempo esculpirá em minha expressão assustada … talvez violetas simples, para combinar com os traços do meu rosto, que não são de grande sofisticação. O desenho de meu rosto é redondinho e objetivo, como o de uma criança.

Mas tenho méritos: só espero que o escultor não mexa na covinha que mora do lado direito da minha boca, este furinho que se faz presente sempre que dou risada. Se ele sumir, aí sim devo me preocupar. Aí significa que, ao invés de caminhar para frente, encarando o jardim do tempo, eu estarei voltando, estarei mergulhando em uma não-identidade, estarei me transformando em alguém sem genética, sem passado, sem ontem, sem ano passado, sem velinha de 11 anos.

E quem faz plásticas? Ah, esse pessoal é espertalhão de mais. Quem troca o bisturi do tempo pelo do cirurgião está cometendo uma violação da vida, na minha opinião. A violação do ser humano. Um erro que pode estar no manual de instruções da vida.

Se eu puder escolher o local para minha próxima marca de expressão, quero que seja no canto externo do meu olho, deitadinha, mostrando que não apenas ri – quero que esta marca mostre que eu quase morri de tanto rir e de tanto amar.

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