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Ex-lembrança

Acordei de um sono tranquilo e esfreguei os olhos. Vi Davi dormindo ao meu lado. Faz um ano e meio que durmo com ele. Espreguicei os braços e o homem acordou. Abriu seus olhos muito azuis e sorriu. Mais tarde, no mesmo dia, eu preparava um café no meu local de trabalho, quando comentei com as minhas colegas:

– Sou muito feliz com Davi. Se vocês vissem… meus ex-namorados são um show de horrores.

Todas riram. Mas, um segundo depois de eu ter falado isso, já estava arrependida. Enquanto eu misturava o açúcar no café com leite, relembrei dos meninos que já passaram pela minha trajetória e me arrependi do comentário maldoso. Perdoando a mim mesma, sorri.

Há alguns anos, namorei um menino três anos mais novo do que eu. Danilo não tinha sido um namorado ruim. Ele só era burro. Muito novinho, muito ingênuo, muito inexperiente e agressivo com os detalhes que requerem sensibilidade sobre-humana. Lembro-me bem o motivo de ter terminado com ele: ele não havia largado a cocaína. Depois de 12 meses doando meu tempo, suor e expectativas, Danilo não conseguira se divorciar da droga.

Após o término, droguei-me de mágoa e tristeza. Aí, um dia, resolvi largar tudo isso, para ser embalada pela felicidade da solteirice, do abraço de outros homens. Não há abstinência ao largar a mão da tristeza. Recuperei uma boa lembrança de Danilo: a última vez em que o vi.

Foi uma noite em que eu, num momento de impulso depois de meses de brigas, pegara o ônibus para a casa dele. Passamos uma última noite juntos. Metade de mim sabia que aquela era a última noite. E a outra metade era esperança. A lágrima nadava com calma pelo olho. Ela não caiu, não misturou-se ao travesseiro azul do rapaz.

Assim que terminei de tomar o café, terminei também de relembrar desse personagem do meu passado. Mas não sabia que o destino – esse teatro de fantoches que é o universo – estava tramando um reencontro para algumas horas depois.

Ao sair para almoçar, encontrei Danilo na rua.

Ele não mudara nada, desde a última vez que eu o vira – ou seja, estava exatamente igual àquele encontro noturno, três anos antes. Me perguntei se eu também estaria igual. Ou mais gorda, mais magra, mais triste, mais poética. Pela sua expressão de susto feliz, não parecia fazer julgamentos.

Eu não sorri. Hipnotizada, andei em sua direção. Frente a frente – ele sorrindo, e eu de cenho franzido –, nos cumprimentamos.

O encontro ao acaso com ex-namorados pode se tornar um simples teatro idiota, uma convenção entediante e social da trajetória do ser humano, ou pode ser interessante. Depende do ponto de vista. Eu, desde pequena, tento deixar as coisas interessantes.

Provavelmente, a maioria das pessoas normais diria “olá, há quanto tempo”, ou, simplesmente “oi, tudo bem?”. Mas eu não.

– Você está usando a camiseta que eu te dei no dia dos namorados de 2009.

Ele, sem jeito, desmanchou o sorriso e olhou a camiseta velha.

– Por que, você quer de volta? – Perguntou, com uma nota de ironia na voz.

Aí sim, sorri.

– Não, não. Só falei isso para quebrar o gelo mesmo.

Nos abraçamos e eu senti o perfume de sua pele, o aroma que há tempos eu não sentia. A flor da memória abriu-se no meu olfato, enquanto cerrei os olhos brevemente. Continuamos nos olhando, ali, no meio da rua, com a trilha sonora dos carros passando, das nuvens se encaixando no céu, das pessoas passando, nos nossos corações se apertando.

Seus olhos castanhos, quase pretos, infantis, contradiziam o queixo quadrado de homem desenvolvido. E eu nem precisei me olhar no espelho para saber que minhas bochechas queimavam de vermelhidão. O sorriso de Danilo estava solto e bobo feito balão colorido flutuando faceiro pelo céu. Aposto que meu sorriso também estava assim, bobalhão.

Sem palavras verbais, continuamos nossos caminhos. Nos afastamos sem um “tchau” e nem um “até logo”.

Mas eu sou daquelas pessoas que, após a despedida, sempre dá uma olhadinha para trás.

Ele também.

Mais tarde, deitada na cama, esperando que o sono caísse em meus olhos e coração, fiquei feliz por ter encontrado um pouco de mim mesma dentro desse ex-namorado. Danilo, que mal e mal dava para chamar de lembrança. Ele era apenas um aroma, uma pecinha de quebra-cabeça… aquela peça monocromática que geralmente é a sombra de uma árvore, ou a parte toda branca de uma nuvem. Não era uma parte importante, como o olho do leão ou a asa da ave.

Fui dormir ao lado de Davi. Ele, ciente deste meu insólito encontro. Eu, feliz por ter revivido algo perdido em mim.

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