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A Mulher Triste

Naquele fevereiro azul, sorteamos um assinante do jornal para entrevistá-lo e transformá-lo em um perfil. Para minha felicidade, caiu em minha vida e em meu caderno de anotações mais uma mulher.  O nome dela era Bárbara e tinha 40 anos. Morava sozinha em um apartamento desarrumado e feio.
Bárbara morava entrincheirada em sua tristeza. A muralha de seus lamentos era alta e impiedosa como a da China. Mas, infelizmente, a Muralha de Bárbara não era turística como a dos chineses.
Lembro-me que, neste dia, eu estava bem baixo astral. Estava triste, porque eu mesma não sabia o meu futuro dentro do jornal em que trabalhava. Via muitas coisas erradas lá dentro e acabei me afastando emocionalmente de todos. Meus colegas não se cumprimentavam, não se olhavam nos olhos. Eu tinha vontade de fugir, todos os dias.
Esse tipo de sentimento é como a construção de um formigueiro. Tudo começa com uma simples formiga, meio desorientada. Logo a coisa se multiplica e, quando nos damos conta, existe um formigueiro raivoso diante dos nossos olhos. O formigueiro até pode ser arrancado, mas a cicatriz queimada ficará lá por tempo indeterminado. E o medo de formiga será o fantasma presente em toda e qualquer madrugada.
E Bárbara, assim como eu, também estava tomada pelo seu próprio formigueiro. Mas suas formigas eram vermelhas: ela era triste porque não podia ter filhos. Descobriu, depois de anos de tentativa e amor, que era estéril. Bárbara era uma mãe abortada. Sua maternidade cometera suicídio.
– Enquanto muitas mulheres engravidam sem querer e abandonam seus filhos, eu fui abandonada por minha fertilidade. Eu sou a mãe de uma tristeza, e de mais nada – me disse a entrevistada.
O marido a abandonara também. Era impossível não sentir pena dessa mulher de pele tostada pelo sol da juventude. Os olhos castanho-claro, queimados pelo sal da lágrima. As finas rugas tracejando o rosto, os lábios finos sem beijo. Ela estava vestindo uma blusa que mostrava seu colo – este, também tracejado por ruguinhas. Um colo que não conhecia o alento do sono de um filho.
Enquanto conversava com Bárbara, ela começou a chorar. Larguei meu caderno e meu gravador e a abracei. Pensei, melancolicamente: é engraçado como uma tristeza não vê fronteiras e nem bom senso na hora de consolar outra tristeza. Talvez as pessoas mais solidárias e de melhor coração sejam aquelas com um formigueiro dentro de si.
Esse foi um dos perfis mais idiotas que já escrevi. Falei um pouco sobre a vida de Bárbara e sobre mulheres estéreis. Não deu repercussão nenhuma, porque eu guardei a dor da mulher para mim. Não a expus. Mantivemos contato por alguns meses. Mas o destino foi bem legal com a mulher: enquanto eu ainda digeria minha má sorte em lidar com um péssimo cenário jornalístico na cidade, Bárbara arrumara um marido que já tinha filhos. Ela renasceu como uma mulher curada.
É, Garota Distraída. Lidar com formigueiros é uma tarefa nada fácil. E o mais foda é pensar que o formigueiro só se desenvolve com a permissão de seu proprietário. Foi você quem deixou ele crescer absurdamente. Foi você quem, de forma negligente, permitiu tudo isso. Foi você quem resolveu fechar os olhos para as pessoas que te fizeram mal. Foi você quem deixou seu bom senso cometer suicídio. É você quem vai carregar essa culpa e essa cicatriz queimada para além de suas vitórias e felicidades. É você. Com amor…

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Arquivado em Repórter distraída