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Sobre Paixões e Sombras

Você sabe quantas vezes já se apaixonou na vida?

Eu não. Foram muitas, eu diria…

Uma vez, li que apaixonar-se significa encontrar as qualidades de si próprio na outra pessoa. Encontrar, em olhos alheios, um brilho muito parecido com o seu.

Não sei; já me apaixonei por pessoas bem diferentes de mim. Mas, quando me apaixono por uma música, um conto ou um desenho em azul, aí sim acredito que a arte esteja expressando um sentimento tatuado no meu peito.

Aos treze anos, comecei a treinar Kung Fu. Foi a arte marcial que me salvou do idiotismo da adolescência. Enquanto meus amigos experimentavam o primeiro cigarro ou baseado, davam o primeiro gole na vodka com Coca-cola ou descobriam a potencialidade de uma roupa justa, eu estudava as técnicas da luta chinesa. Dormia cedo e acordava de madrugada. Saía de casa antes das 8 horas da manhã, rumo à academia, para aprender novos golpes e treinar com empolgação o que já havia aprendido.

Alguns meses depois de ter me apaixonado pelo Kung Fu, me apaixonei pelo professor.

Era um rapaz jovem, com uns 10 ou 11 anos a mais do que eu. Lembro bem do momento em que senti que estava apaixonada. Estávamos treinando com a academia cheia, quando uma criança foi dar um chute no ar e caiu para trás. O menininho começou a chorar, quando meu professor saiu correndo para acudi-lo. Com a expressão séria e mãos carinhosas, acalmou o menino.

Já era. Do outro lado da sala, observando o professor, eu estava com aquela expressão típica de quem se ilude: sorriso frouxo e olhos bondosos.

A paixão me atingiu em cheio, impiedosa, sem anestesia, como geralmente atinge apenas às crianças. Cheguei a ter um caso com o tal professor – mas, a partir daí, a coisa só desandou. Essa paixão foi como aqueles gráficos que mostram uma produtividade alta no primeiro dia, e a coisa só desce nos próximos, até terminar morta, estraçalhada, mutilada, no fim do prazo. Foram quase três anos procurando no homem aquela adrenalina do começo da paixão. Uma droga, literalmente.

No fim do relacionamento, eu tinha raiva e nojo de cada detalhe de sua existência. Ainda hoje, quando o encontro pela rua, sinto um embrulho no estômago, como algo que meu corpo se recusa a digerir. Como pode uma paixão converter-se em asco profundo?

Mas não tinha como dar certo: uma pré-adolescente jamais conseguiria transformar uma paixão em amor, junto com um homem mau caráter.

Anos depois, eu andava distraidamente por uma livraria, quando vi que uma banda de rock se preparava para tocar em meio a livros. Sem pretensão, conferi os músicos e reparei que o baixista era um rapaz alto, magro, de cabelos compridos e meio estranho. Me apaixonei. Foram mais dois anos de sofrimento por alguém que não tinha noção de como funcionavam os mecanismos da ciranda do mundo real.

Depois – quando eu já tinha vinte e poucos anos, olhos apagados e sessões de terapia nas costas – voltei a treinar Kung Fu, mas desta vez com outro professor. Um dos alunos mais antigos, que era instrutor da academia, era um rapaz baixinho. Ele foi designado a me ensinar os primeiros passos de uma forma de wushu. Sua didática firme, seu conhecimento e suas canelas finas me encantaram. Ao sair do treino, mandei uma mensagem para minha irmã, que dizia o seguinte:

“Acabei de conhecer meu próximo namorado. Ele se chama Danilo, é três anos mais novo e três centímetros mais baixo que eu”.

Mandei esta mensagem na espontaneidade da paixão. Mas, meses depois, ao encontrar isto na caixa de saída de mensagens do meu celular, me assustei. Daonde eu tirara esta determinação?

O fato é que, com Danilo, vivi um grande terremoto emotivo. Eu não era mais adolescente, mas fui atingida pela nuca com o dardo envenenado do apaixonamento. Foi algo absurdo; tenho até dificuldades em escrever sobre isso agora. Foi a última vez que me apaixonei dessa maneira. Nunca mais consegui – e nem quis – me apaixonar do mesmo jeito que se pula em uma piscina em dia de verão. Vivi dois anos de agonia com este guri pequeno.

Terminar o relacionamento com Danilo também foi um problema, já que ele era usuário de drogas. Ele era dependente químico e eu, dependente da felicidade dele. Acabou mal.

Depois dele, cheguei a conhecer outros rapazes. E, ao sentir que meu coração estava prestes a acelerar, a soltar o freio de mão, a ganhar o impulso que me tira o fôlego, eu fechava os olhos e caía dentro de mim, no escuro, na esperança de que a porta fechada me protegesse das pessoas com sorrisos irresistíveis. Na esperança de que o escuro me salvasse dos homens com olhos sonhadores, com covinhas nas bochechas, aqueles que me abraçavam pela cintura e mordiam meu pescoço, enquanto diziam que a noite estava tão poética, e porque não caminhar ao luar?

A tática de ignorar os encantos da vida alheia deu certo, até conhecer Davi.

Aí, vocês já conhecem a história.

Apaixonar-se é sentir, definitivamente, que alguém apagou a luz no seu cérebro. E o coração é a única bússola que temos para encontrar a vida, em meio ao mar escuro e tenebroso que é a existência. Ser correspondido nessa paixão é como encontrar a mão supostamente amiga e segura, enquanto procuramos nossa história com desespero.

Mas, agora, eu sei que amo de verdade. Amar é apaixonar-se pela mesma pessoa todos os dias.

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