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O Perdão é a Música do Arrependimento

Preciso dividir um assunto muito importante com os leitores deste blog. Ocorreu uma situação interessante.

Há algumas semanas, eu acordei de manhã e percebi que havia uma pendência dentro da minha cabeça. Eu precisava pedir perdão a uma pessoa, sobre um comportamento não muito adulto que tive há algum tempo. E esta entidade chamada “universo”, correspondendo com minha boa vontade, se mexeu por dentro dos bastidores da vida e me fez encontrar essa pessoa na rua. O que eu fiz? Pedi perdão, com os olhos enfiados dentro dos olhos da tal pessoa. Depois disso, me senti revigorada.

Pensei: pedir perdão é um ato de humildade e maturidade. Não me considero a pessoa mais madura do mundo. E foi na ponta dos pés que consegui atingir a tal atitude adulta de pedir desculpas – e com sinceridade.

Aconteceu que, logo depois, ainda no clima da humildade de reconhecer meus próprios erros e limitações, uma colega teve exatamente a mesma atitude comigo. Me encontrou pelas ruas da vida e, com os olhos misturados pelas minhas pupilas, pediu perdão por coisas que ela falou sem pensar. E chorou. Com o sorriso é o consolo do choro alheio, abracei esta querida amiga e falei que estava tudo bem.

Me senti melhor do que bem: me senti abençoada.

O perdão é a música do arrependimento. E essa música é muito bonita. É a parte bonita do remorso, o trecho construtivo do erro. Essa semana, fiquei com vontade de pedir desculpas para todas as pessoas que esperam ouvir isso de mim – e que merecem, é claro. Começando pela Roberta, uma menina que empurrei e derrubei no chão no jardim de infância, quando eu tinha seis anos. Tadinha.

Eu preciso pedir desculpas, também, para todos os meus ex-namorados. Vai ser difícil e talvez impossível, mas vou tentar.

Mas o pulo do gato será pedir desculpas para o meu pai.

Cresci em guerra com o meu pai. Nunca aceitei ser mandada. Não sei de onde furtei esse defeito bélico. Na pré-adolescência, eu ansiava chegar aos 18 anos para que pudesse fugir das ordens, e não para conquistar o direito de dirigir um carro. Tornei-me ateísta, campeã de kung fu e namoradeira, tudo o que deixava meu pai com os cabelos brancos em pé.

Aqueles furacões e terremotos só me fizeram rabiscar com raiva pilhas e pilhas de páginas de diário, pintar os cabelos de preto, colocar piercing na língua e planejar uma fuga para a China. Me arrependo de ter feito tanto tsunami em copo d’agua. E a vida, que nunca se dá por satisfeita com as lições que encontramos pelo caminho, colocou no meu trajeto um marido que já é pai. E um pai muito parecido com o meu pai. Um pai que tem uma filha como eu era. Não com espírito de Che Guevara como eu tinha; mas alguém com o potencial para mudar as coisas. E eu tive a oportunidade de entender que, por trás de cada ordem, cada ralho, cada briga, tem um coração paterno quebrado.

O entendimento de que meu pai nunca fez nada por mal me pegou como um soco. Fiquei atordoada, algumas passagens da minha história se passaram em preto e branco na minha mente, quando fechei os olhos com dor e lágrima. Como se pede desculpas por algo tão grave quanto um passado rabiscado de vermelho?

Hoje, sou muito parecida com meu pai: tranquila, gosto de assistir televisão, de fritar bolinhos de banana em dia de chuva e de comprar sabonetes cheirosos, os quais saboreamos a fragrância de olhos cerrados. Certas coisas só serviram para que, hoje, cheios de marcas de expressão, um pudesse olhar no olho do outro e dar graças a Deus que ainda estamos unidos. Graças a Deus que você existe. Obrigada por me ensinar a amar os animais. Obrigada por não ter me incomodado nas vezes em que me viu entrar em casa chorando (eu sabia que você se aproximava da porta trancada do meu quarto, preocupado). Obrigada por ter me dito, na infância, que as pessoas diferentes geralmente são as mais legais. Obrigada. E me desculpe.

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