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A sua Sala de Estar

A personalidade de Fernando era como uma sala de estar. Batia sol e tinha um tapete bem colorido, daqueles que dá vontade de deitar.

Você já conheceu pessoas cuja personalidade se parece com o cômodo de uma casa? Eu já. Várias. Tenho uma amiga cuja companhia me lembra a de uma biblioteca querida. Tenho um conhecido, também, que era um banheiro público, de tão pervertido e sem dono. Havia desenhos tarados rabiscados por trás de sua porta.

Minha mãe, por exemplo, é a varanda ensolarada em pessoa. Papai é o terraço de piso branco onde canta o curió. Eu? Eu já fui chamada de jardim. De vez em quando, chovo.

Fernando foi um dos meus primeiros namorados. Seu sorriso era um abajur bonito, que iluminava a todos ao seu redor. A gente gostava de sentar no sofá e apenas ficar assistindo televisão. Éramos um casal calmo, caseiro. Apesar de termos nossos 15 ou 16 anos, não queríamos a balada. Não tínhamos a curiosidade do cigarro. De álcool, não precisávamos – éramos embriagados com nosso próprio faz de conta. Passávamos tardes e tardes sentados, apenas olhando pela janela, ou olhando o sorriso um do outro. Nessa época da vida, a gente repara mais no sorriso da boca do que do olho.

Um dia, Fernando quis abrir uma outra porta dentro de sua história. Queria me levar para passear por outro local, dentro dele mesmo. Era o seu quarto azul, de menino. Fiquei com medo; não sentei na cama. Olhava assustada aquele quarto com cheiro diferente, com aroma de sonhos tão diferentes dos meus. Vi suas fotos de criança. Tão engraçado ver a versão infantil das pessoas que conhecemos adultos. Há algo de diferente, mas que não dá pra definir com as palavras da formalidade humana. Os olhos são um pouco maiores… o rosto mais redondinho… A expressão desenhada pelo lápis 6B da infância.

Lembro-me que saí correndo, fiquei intimidada com aquelas informações. Eu era adolescente, mal sabia lidar com meu próprio quarto cor de rosa. Rosa demais para mim, que sempre gostei tanto do amarelo. Das rendinhas do meu cobertor, então, senti vergonha a adolescência inteira. Mas eu as amava de noite, quando acordava com medo e precisava de algum símbolo do amor dos meus pais por mim e pela infância a que sobrevivi.

Um dia, tive coragem de deitar com Fernando na cama dele. Ficamos olhando o quatro que ele tinha pendurado na parede – uma imitação de um girassol de Van Gogh. A flor sorria para a gente, e sorríamos de volta para o quadro. Fernando nos iluminava com seu sorriso acolhedor. Meu sorriso era medroso, os dentes ainda grandes demais para um rosto que se emoldurava. Eu era um terraço molhado – escorregadia e meio perigosa.

Um dia, Fernando caiu no sono. Atenta, levantei da cama e comecei a olhar aquelas coisas que talvez ele não quisesse me mostrar naquele momento. Comecei a revirar seu guarda roupas, sua estante. E encontrei uma gaveta muito misteriosa. Encontrei lá seu diário. Foi tudo muito rápido – comecei a ler, desesperada para reter informações, desenhos, rabiscos, um rosto desenhado a contraluz, uma janela, um coração. Vi o meu nome.

E Fernando acordou, me pegando no flagra. Seu abajur estava desligado. Sua sala de estar estava interditada para mim. De cabeça baixa, deixei sua vida.

A partir daí, comecei a tomar mais cuidado com os cômodos, as gavetas e os canteiros de flores que apareceram aos meus olhos do decorrer dos anos.

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