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Aquecendo-me para uma Entrevista

Quem lê este blog há algum tempo sabe que uma vez entrevistei minha irmã, no dia do aniversário dela. Virou o conto chamado “Três”. Foi uma experiência interessante que me marcou. O trauma em encontrar uma entrevistada dentro de minha irmã voltou por muitas vezes em forma de sonho nas minhas madrugadas. Misturar o aspecto profissional com a intimidade familiar é inesquecível e perigoso.

Favor não fazer isso em casa.

Esses dias fiquei com vontade de entrevistar minha mãe. Não por ela ser minha progenitora; não por ser a pessoa que dividiu comigo os genes para ter cabelos lisos, dentes fora dos padrões de estética e uma leve tendência a distrair-se nos momentos importantes, jogando os olhos um pouco para a esquerda e pirando no passarinho pousado no muro. E, sim, pela história que está escrita em sua memória, antes mesmo de tornar-se mãe.

Sei que, por trás de uma arquitetura, existe um arquiteto. E, por trás do arquiteto, há o sonho. Me perguntei, muitas vezes, de onde surgiram as praças e as esculturas que emolduram o bom humor da personalidade de mamãe.

De onde surgiu a antena parabólica que a faz adivinhar nossas queixas.

De onde apareceu o porão de sua raiva.

De onde foi desenhado o mapa astral de sua distração.

De quê lugar seu silêncio foi pincelado! Por Deus, eu preciso saber de tudo isso.

Tânia casou-se com Antonio (meu pai) aos 14 anos. Só foi ter filhos depois dos 19. Ou seja, tem aí duas décadas interessantes para eu pesquisar, remexer, tirar o pó, musicar, pescar detalhes absurdos e rir deles, encontrar portas que eu nunca havia reparado antes, entrar, e derramar lágrimas com o que eu encontrar lá.

Minha mãe, aos 14 anos, era uma guria alta, magricela, que já sabia cozinhar e dobrar roupas dignas de armário bem arrumado. Eu, aos 14, ainda olhava para minhas bonecas com ressentimento. Perto dos meus 12 anos, elas não quiseram mais brincar comigo. De certo, achavam um absurdo brincar com uma guria que já menstruava e lia Capricho.

Tânia é a pessoa que me telefona todos os dias às 9 horas da manhã. Às vezes ela esquece e diz que foi porque estava tomando café, essa bandida. Se eu a repreendo pela mente distraída, ela diz, morta de rir: “Olha quem está falando!!! A distraída em pessoa!”

Envergonhada, calo-me.

Minha mãe tem olhos pretos de índio. Ela faz perguntas que, a princípio, me soam inocentes. Mas, enquanto respondo e tento desdobrar meus 16 anos de estudo, vejo que há algo de misterioso no rosto da mulher. Como aconteceu esses dias. Ela me perguntou:

– O que é ser uma pessoa determinada?

– É quando você é uma pessoa que tem objetivos bem definidos –, respondi, fazendo menção para continuar. – É quando você…

Então parei de falar. Havia um cinismo materno amassado entre o canto de sua boca e a bochecha direita. Revoltada, perguntei o motivo da pergunta.

– Por nada, filhinha – disse ela, distraída e amorosa.

Humpf. Vamos ver quem é que vai fugir dessa entrevista.

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