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O Senhor do Tempo

Quando procuro em minha memória a lembrança mais antiga, sempre acabo lembrando daquela tarde em que minha avó me mostrou um relógio de mesa. Hoje em dia, não sei se ainda existem coisas assim para comércio. Era um relógio tão estranho, que agora tenho dificuldades em descrevê-lo; acho que metade do que lembro é fantasia, e talvez minha lembrança não corresponda com a realidade da história.

Era um relógio vertical, com cerca de 25 centímetros de altura. Era parecido com esses relógios antigos de parede, mas era uma miniatura que ficava de pé, envolvida por uma proteção de vidro. Parecia um objeto do outro mundo, uma cápsula espacial. Fica altivo, em cima da mesa no na estante, fazendo um tic-tac sonoro e seguro, como que cuidando para que o tempo não fugisse de seu comando. Aquele relógio era o cão de guarda do tempo, na nossa casa.

Descrevendo agora soa sem graça. Mas esse reloginho antigo era o meu segredo, quando eu era pequena. Minha cobiça, o brilho no cantinho de meus olhos. Era o meu pecado em plena pureza da infância. Era impossível não passar pela sala de estar, onde ele ficava, sem lançá-lo um olhar de amor, desejo e fé de que, no futuro, ele estaria entre minhas bonecas.

Quase todos os dias eu pensava em roubá-lo. Achava que seria perfeito: eu o levaria para o meu quarto, para o mundo secreto dos meus bichos de pelúcia, e ninguém desconfiaria. E é com vergonha que eu assumo que esse objetivo não ficou apenas na vontade: eu cheguei a roubar o relógio.

Lembro de, no meio na noite, ter confiscado o relógio da estante e o escondido por baixo da blusa de pijama que eu usava. Sentia, perto do meu peito, o objeto cantando seu tic-tac. Ele era muito pesado.

E foi aí que eu libertei o tempo de sua gaiola. Eu não sabia que aquela cápsula de vidro fosse apenas encaixada. Ela não era colada, era removível. O relógio caiu no chão com estardalhaço. Rolaram pecinhas douradas por todo o carpete. Fiquei alguns segundos olhando aquele relógio morto no chão, antes de sair correndo. O tempo fugiu de seus ponteiros, como passarinho agoniado.

Corri para debaixo das minhas cobertas, na cama. O meu crime foi descoberto. Não foi preciso investigação para que determinassem que eu era a culpada, a assassina, a ladra que abriu a gaiola do tempo. Mas não levei surra. Minha avó apenas choramingou, porque era um presente que trazia de sua adolescência. De tristeza, minha avó ganhou uma ruga horizontal no meio da testa. O dia em que o seu tempo, engaiolado, fugiu pelas mãos de uma criança.

Hoje, ao lembrar, dou risada. Mas, na época, fiz luto no meu diário.

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