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A Força e a Fraqueza de um Ser

Eram duas horas da madrugada quando meu celular tocou. A voz masculina disse que havia aceitado me dar entrevista. Perguntei, tonta de sono, quem estava falando. “Fábio”, me respondeu. Então lembrei: era o entrevistado que eu estava caçando há duas semanas, para uma pauta difícil que eu teria de encarar. Tema: suicídio.

Fábio havia tentado se matar. Ele era um suicida fracassado – ou um sobrevivente abençoado? A vida tinha sido mais forte do que a corda que ele amarrou em seu pescoço, procurando a morte. Cada fibra do seu coração era ainda mais resistente do que o nó de escoteiro que ele fez com a corda ao redor da garganta. E nem me pergunte como cheguei à história de Fábio. Todo jornalista conhece alguém, que conhece alguém, que conhece alguém que já aprontou todas e está disposto a contar sua história, nem que seja depois de um pouco de insistência.

Mas ele não queria conversar pessoalmente. Fábio não queria que eu encontrasse a história em seus olhos. Ele queria contar as coisas sem que eu constatasse sua comunicação corporal, sem saber suas feições, sem conhecer as reviravoltas de suas sobrancelhas de acordo com os fatos que narraria. Em contrapartida, ele também não queria presenciar a empatia que adivinhava que eu teria; a transformação que (quase) todo repórter sofre, ao ouvir histórias comoventes.

Na manhã seguinte, telefonei para Fábio da redação. Ele contou uma das histórias mais agressivas que já ouvi na minha vida. Descobriu, aos 17 anos, que era homossexual. Contou para a família que, revoltada, o mandou para um colégio militar. Lá, foi torturado psicologicamente e, logo depois, estuprado por seus colegas. Ao ouvir esse relato, dei graças a Deus que eu não estava na frente dele. Fiquei branca, tonta, pensei que ia desmaiar. Essa história me desceu como uma bola de espinhos, rasgando meu peito.

Chorei em silêncio, do outro lado do telefone. Tentei manter a voz firme, para que não percebesse o quanto eu estava destreinada para ouvir esse tipo de coisa. Meus colegas passavam ao meu lado, enquanto entrevistava Fábio pelo telefone. Muitos pararam, assustados ao ver que eu estava chorando, e perguntaram se estava bem. Eu respondia que sim, com o polegar. Mas estava destruída por dentro, depois de engolir essa história. Minhas mãos tremiam, mal conseguia segurar o telefone.

Fábio havia tentado se enforcar em casa, em seu quarto. Os pais o encontraram ainda com vida, amarrado pelo pescoço. A morte foi interrompida quando fazia a contagem regressiva para Fábio: cinco segundos para morrer! Quatro segundos para morrer! Três segundos para morrer! Dois segundos para morrer! E, então, a pessoa que deu vida ao garoto, devolveu-lhe a vida neste momento; a mãe. Ela odiava homossexuais, mas ver a morte do filho era pior do que vê-lo feliz ao lado de outro homem.

Agradeci a Fábio pelo relato, selecionei duas ou três frases clichês de incentivo – mal conseguia pensar em algo inteligente e produtivo para falar – e mandei-me embora da redação do jornal. Bebendo café, na cantina, pensei muito sobre a vida, a morte, as doenças mentais que nos aproximam do outro lado e o quanto somos frágeis. A ideia de que a morte aliviará as nossas dores é misteriosa e fácil. Estar vivo é sentir dor. A dor é o sintoma da vida. Lidar com a dor é crescer. Ceder à dor é a morte devagar.

A conversa de Fábio povoou meu sono de pesadelos. Muitas vezes acordei de madrugada, achando que o telefone estava tocando. E se fosse Fábio, me contando que havia tentado se matar de novo?

A matéria foi publicada com certo alvoroço. Muita gente ficou desconfortável com essa história. Um anti-herói que estava vivo por ser um fracassado. A morte não era boa o bastante para Fábio, me falaram. Mas eu mal acompanhei a reação dos leitores. Estava com a cabeça perdida em reflexões sobre a nossa fragilidade e força em cima desse mundo chamado planeta Terra. Ser humano: criaturas ambíguas, fortes o bastante e fracas o suficiente para lidar com a vida. E com a morte.

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A Lógica do Carinho

Emílio era tímido. Provavelmente por causa de todo o sofrimento que havia atravessado. Tinha medo das pessoas. Estampava nos olhos escuros a expressão daqueles que já viram o pior do ser humano. Emílio era um vira-latas preto que caiu de paraquedas no mundo absurdo dos terráqueos. As orelhas estavam sempre baixas. Ele não tinha a espontaneidade dos outros cães que se espreguiçam e deitam na grama ensolarada. Que latem, fazem festinha e coçam o próprio rabo, o bom humor canino. Emílio conhecia o calor lancinante das queimaduras feitas em suas patinhas.

Fui apresentada a Emílio na casa de uma amiga, que havia me mandado um e-mail contando a história do bicho. Me disse que encontrou-o machucado na rua, no lixo. Não devia nem ter um ano de idade, era um filhote grandalhão e desajeitado. No mesmo dia, eu quis conhecer o animal. Os editores do jornal acharam que seria interessante publicar uma matéria expondo os pesadelos reais pelos quais os animais passam, nas mãos dos seres humanos.

Ao chegar na casa de minha amiga, tivemos um grande problema em tirar Emílio de sua casinha de madeira improvisada. Ele não queria sair, tinha medo. Assim que pude vê-lo – suas patas estavam todas remendadas em esparadrapos e gaze –, entendi a tristeza de Emílio. Era novamente um daqueles casos em que um ser, ainda na fase da infância, conhece os terrores, os fantasmas e os monstros da maldade dos adultos. Não confiava em ninguém.

Minha amiga ficou sem jeito, o animal estava paralisado como estátua. Ouvi dizer que os animais brabos são os que mais têm medo – eles usam do recurso de atacar e rosnar justamente por ter medo do resto do mundo. Mas nem isso Emílio tinha; estava entregue ao mundo, aos seus terrores e aos algozes. Eu, que fui criada em meio a cães durante toda a infância e adolescência, entendi a inocência perturbadora de Emílio.

Espontaneamente, abaixei-me à sua altura e assobiei, de modo amigável. O cão ergueu cuidadosamente os olhos do chão e procurou meus olhos. Aí, fui eu quem baixou os olhos. Cachorro se sente ameaçado quando olhado direto nas pupilas. Estendi o dorso de minha mão para que ele a cheirasse. Ele se aproximou e carimbou minha mão com seu focinho gelado. Acarinhei sua orelha macia, devagar. Ele ainda estava paralisado de medo, como se sentisse frio naquele dia calorento de verão. Continuei a lógica do carinho – esfreguei meus dedos pelo seu pescoço, pelas costas. Parei o carinho, para ver se ele procuraria minha mão. Procurou. Havia feito amizade com Emílio. Ele havia aceitado meu pedido de amizade através do altruísmo que vive dentro de um carinho.

Sei que os cães não entendem bem o conteúdo daquilo que falamos – eles compreendem melhor o tom da voz. Estava ciente também que o fotógrafo, o motorista e minha amiga estavam me achando louca, mas resolvi conversar com Emílio. Com a mesma voz que uso em minhas orações, perguntei: “O que te fizeram, Emílio? Por que isso aconteceu? Como eu posso te ajudar?” Meu coração caiu no chão quando ouvi seu chorinho, bem baixinho, parecido com um apito quebrado.

O sofrimento não muda de acordo com quem o sente. Me doía saber da maldade que fizeram com Emílio, e seria igualmente ruim saber da maldade contra uma criança, um adulto ou um idoso. O cachorro tinha nos olhos o fantasma daqueles que gritaram de dor até quase enlouquecer. Era uma vítima de outra vítima. Talvez seu antigo dono tivesse sofrido igual maldade. Os vilões sempre são vítimas de outros vilões, que também têm seus monstros. Mas alguns encontram anjos – pessoas como minha amiga, que viu o cão sofrer e correra com ele para o veterinário.

Publicamos a matéria. E, junto com ela, publiquei também, subliminarmente, uma oração, um pedido de socorro por todas as dores do mundo e uma solicitação de carinho. Carinho alheio – porque a lógica do carinho é ser incessante, e incondicional. Por todas as vítimas, por todas as lágrimas, por todas as maldades que nascem de dores piores.

Um mês depois, visitei Emílio novamente. Com as patas recuperadas, estava brincalhão e mais extrovertido. “Emílio”, de acordo com o dicionário de nomes, significa “solícito, zeloso”. Não havia nome melhor para uma história reconstruída.

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Sobre ser Repórter

Ao me aproximar do entrevistado, percebi que ele se arrumara especialmente para a entrevista. Camisa branca, bem passada. Cabelos penteados com pente de cerdas finas. Havia feito a barba naquela manhã. Estava muito cheiroso. Me aguardava na recepção do jornal com um sorriso sincero. Foi impossível não sorrir de volta. Assim começou a apuração da matéria que mais me marcou, nestes três anos de reportagem. André, 33 anos, é portador de uma doença degenerativa que o mantém eternamente sentado sobre uma cadeira de rodas. Neste dia, eu chorei duas vezes. Uma, pela história de vida do rapaz. Outra, por não ter conseguido levá-lo para conhecer o jornal por dentro – um degrauzinho de 20 centímetros impediu que conseguíssemos levá-lo para o interior da empresa. Senti vergonha por isso.

Este dia me marcou não apenas porque guardei André no coração. Registrei esta data porque foi a primeira vez que olhei meu reflexo no espelho e me senti grata por, cinco anos atrás, ter escolhido jornalismo como minha primeira opção no vestibular. Desde então, eu havia me decepcionado com o curso, me tornado uma universitária rebelde e havia lamentado para todos os ventos o piso salarial baixo. Ao me despedir de André, tratei de não calar aquela desconfiança que, de quando em quando, falava baixinho no meu ouvido: talvez jornalismo não seja tão ruim. Talvez a reportagem seja uma estratégia para dar voz aos que não tem. Talvez eu possa fazer muito como repórter. Talvez eu me divirta muito como jornalista. Talvez eu mude alguma coisa com a minha profissão.

Aos 18 anos, preenchi o quadradinho ao lado da palavra “jornalismo”, no ato da inscrição do vestibular. Mas eu não fazia a mínima ideia do que era ser jornalista – e acho que os vários estudantes que rabiscam o mesmo quadradinho, ano após ano, também não fazem. Ser jornalista é um mistério; cada um encontra um tesouro diferente. Não é objetivo como ser advogado, médico ou sacerdote. Ser jornalista é ser os entrevistados, as fontes e os adjetivos. É ser literatura, denúncia e relato. É encontrar seus Andrés e, com emoção, transformá-los em palavras, vírgulas e orações.

Hoje, com um livro de contos para sair do forno, concluo que a minha melhor forma de relatar o mundo é através de uma literatura que melhoro a cada dia, a cada André, a cada passo mais perto da naturalidade em ser um repórter cansado com um crachá balançando na barriga.

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