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Eu Espio pelas Cortinas

A mulher, pequenina, cutucou meu braço, enquanto eu alcançava algum livro na parte alta da estante da livraria. Olhei-a e não a reconheci; sorri e a cumprimentei com um oi. A mulher abriu a boca, mas de lá não saíram palavras: ficou com seu espanto pendurado nos lábios. Piscando os olhos rapidamente, ela sorriu. E disse:

– Desculpe, é que sou tímida.

Sorri de volta.

– Então somos duas – falei. Timidez, essa velha conhecida.

– Você, tímida? Mas como? Não é jornalista? Jornalista não pode ser tímido – falou a mulher, acusando minha vergonha de repente. É… pessoas tímidas explodem de uma hora para outra. A gente acha que a inocência vem junto com as bochechas ruborizadas, mas que nada.

– Mas sou, fazer o quê – respondi, descosturando o sorriso, magoada.

Heloisa disse que me reconheceu por causa do blog. Me arrependi na hora pela foto que botei lá; por mim, nem colocaria foto, só botei porque o resto do mundo é curioso e quer ver a cara de quem escreve. Não sei para quê. Provavelmente para me reconhecer na livraria e jogar na minha cara que eu sou tímida.

– Gosto muito do seu blog – falou, olhando para baixo.

– Obrigada –, respondi, olhando para baixo também.

– O que você gosta de ler? – Questionou Heloisa, olhando para suas mãos, fingindo que arrumava os anéis prateados nos dedos.

– Ah, eu adoro contos, coisas como Isabel Allende e Cortázar. Latino-americanos, sabe – respondi, coçando o ombro, sem sentir coceira nenhuma.

– Nossa, que legal, eu sou chegada em Hemingway – comentou ela, procurando coisas nos bolsos da calça jeans, sem me olhar nos olhos.

– Então vem aqui que eu vou te mostrar uns livros que eu li mês passado e gostei muito – falei, chutando uma pedrinha invisível no chão, e a encaminhando suavemente para a sessão de biografias.

Duas pessoas tímidas conversando não significa que a timidez será duplicada. Na verdade, duas pessoas tímidas se anulam, matematicamente. A sensação de sentir vergonha continua lá, mas pendurada como um casaco atrás da porta, e não como uma cortina fechada para o espetáculo da nossa personalidade.

Eu e Heloisa tivemos um bate-papo muito interessante sobre narrativas, a diferença entre autores latino-americanos e escritores europeus e edições antigas de livros.

Antes de nos despedirmos, resolvi fazer uma pergunta à mulher.

– Heloisa, você acha que ser tímida te atrapalha em muitas coisas?

Perguntei isso sabendo que, em seguida, seu sorriso ganharia a nuvem da vergonha, e foi o que aconteceu.

– Sim, me atrapalha bastante. Até já pensei em fazer terapia. Mas é engraçado, porque com algumas pessoas eu consigo conversar, assim como estou conversando com você agora. Mas, em geral, tenho muitas dificuldades por conta disso, sim. Ainda mais porque sou professora de português de ensino fundamental.

“Mas que cacete”, pensei. “Tímido só escolhe profissão em que precisa lidar com o público”.

Ser tímido é, em geral, apresentar-se em um palco com as cortinas semi-cerradas. Assim é mais fácil se esconder, sair correndo. Mas, geralmente, escolhemos um público grande para o show da nossa vida. A gente só mostra o que consegue, o que acha conveniente. Ser tímido é ter a personalidade embrulhada para presente. A surpresa do seu interior é inquestionável.

A timidez é o meu guarda-chuvas. Já me chamaram docemente de introspectiva, reservada, meiga, romântica, distraída (é claro), fechada. E eu acato todos esses adjetivos. Porém, esses nomes são apenas rabiscos nas cortinas do teatro da minha vida.

Poucas pessoas sabem do escândalo que eu já fiz no meu camarim.

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Arquivado em Distrações