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Insônia Compartilhada

Tenho o sono leve. Já passei muitas noites em claro. Mesmo quando criança: acordava chacoalhada com o terror de um pesadelo, com o berro de uma lembrança ruim ou simplesmente porque meu corpo queria estar acordado.

Até meus 25 anos, dormi ao lado de minha irmã – por motivo de casa apertada e destino. Ela sempre foi a companhia ideal para meus olhos abertos na escuridão. Aconteceu muitas vezes de acordarmos juntas, talvez incomodadas com o gemido da mesma lembrança.

Assim, Camila e eu desenvolvemos um sistema simples e rudimentar para compartilharmos a insônia. Se uma de nós acordasse durante a madrugada e sentisse vontade de conversar, era preciso descobrir delicadamente se a outra também estava acordada. Afinal, no dia seguinte haveria escola – ou faculdade e, mais tarde, trabalho – e era preciso estar bem dormida.

Camila inventou que, para descobrir se a outra estava acordada, deveria sussurrar a palavra “oi”, bem baixinho, para não acordar quem quer que estivesse dormindo. Se acordada, responderia. Mas confesso que, muitas vezes, na melancolia de um sonho, ouvi Camila me chamando da realidade, e interrompi o sono para dar atenção à minha irmã. Nós éramos muito unidas.

Usamos a técnica do “oi” durante pelo menos uns vinte anos. Conversamos sobre todas as coisas do mundo, durante muitas madrugadas. Havia papo que só servia para a escuridão das quatro da manhã. Reviramos nossa vida do avesso, por meio das conversas com a voz pastosa de sono. Cada uma em sua cama, eu à sua esquerda, ambas olhando o teto, e desvendando as curvas do lustre simples que pendia no centro.

Uma vez resolvemos que deveríamos conversar em inglês, para treinar aquilo que aprendíamos no curso de idiomas. Foi engraçadíssimo; tivemos dificuldades em voltar a dormir depois.

Em outro momento, eu havia terminado um namoro e estava muito triste. Eu não consegui dormir – tampouco minha irmã. Viramos a noite, apenas olhando o dia nascer pela esquina da janela.

Inventamos adjetivos, desenvolvemos a nossa personalidade, matamos traumas e fizemos o parto de medos. Morremos de rir e ressuscitamos nossa vida em choros de saudade e de tristeza. Acontecia de o papo acabar de repente, pela metade, porque uma de nós pegava no sono, e a outra era obrigada a se resignar à solidão, magoada.

Uma vez, fui muito mau caráter com Camila. Era madrugada, e ela não havia respondido meu “oi”. Ela dormia pesado, roncava baixinho. Mas eu precisava muito conversar. Berrei a palavra “oi” várias vezes e acordei todos na casa. Meus pais desconfiaram que a gente conversasse sobre assuntos inadequados de noite. Falei que eu era sonâmbula.

Depois disso, o “oi” parou por umas semanas, até que voltou com força total sobre assuntos inadequados.

Quando me mudei para a casa de Davi, foi difícil. Acordava de madrugada, achando que tivesse ouvido a voz de Camila. Sei que ela também ouvia meu pensamento a chamando. Algumas vezes, me mandou mensagens pelo celular. Eu também.

De vez em quando, acordo sentindo profunda carência; palavras bóiam na minha consciência. Por isso escrevo.

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