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Convite

Queridos amigos, tá chegando perto. A ansiedade tá corroendo o estômago, e as noites são em claro. Tão todos convidados!

O quê: lançamento do livro “Relato do Sol”, de Vanessa Bencz.

Quando: 13/4, às 15h30.

Onde: na Feira do Livro de Joinville.

Quanto: evento gratuito. Livro custa R$ 15.

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Eu Espio pelas Cortinas

A mulher, pequenina, cutucou meu braço, enquanto eu alcançava algum livro na parte alta da estante da livraria. Olhei-a e não a reconheci; sorri e a cumprimentei com um oi. A mulher abriu a boca, mas de lá não saíram palavras: ficou com seu espanto pendurado nos lábios. Piscando os olhos rapidamente, ela sorriu. E disse:

– Desculpe, é que sou tímida.

Sorri de volta.

– Então somos duas – falei. Timidez, essa velha conhecida.

– Você, tímida? Mas como? Não é jornalista? Jornalista não pode ser tímido – falou a mulher, acusando minha vergonha de repente. É… pessoas tímidas explodem de uma hora para outra. A gente acha que a inocência vem junto com as bochechas ruborizadas, mas que nada.

– Mas sou, fazer o quê – respondi, descosturando o sorriso, magoada.

Heloisa disse que me reconheceu por causa do blog. Me arrependi na hora pela foto que botei lá; por mim, nem colocaria foto, só botei porque o resto do mundo é curioso e quer ver a cara de quem escreve. Não sei para quê. Provavelmente para me reconhecer na livraria e jogar na minha cara que eu sou tímida.

– Gosto muito do seu blog – falou, olhando para baixo.

– Obrigada –, respondi, olhando para baixo também.

– O que você gosta de ler? – Questionou Heloisa, olhando para suas mãos, fingindo que arrumava os anéis prateados nos dedos.

– Ah, eu adoro contos, coisas como Isabel Allende e Cortázar. Latino-americanos, sabe – respondi, coçando o ombro, sem sentir coceira nenhuma.

– Nossa, que legal, eu sou chegada em Hemingway – comentou ela, procurando coisas nos bolsos da calça jeans, sem me olhar nos olhos.

– Então vem aqui que eu vou te mostrar uns livros que eu li mês passado e gostei muito – falei, chutando uma pedrinha invisível no chão, e a encaminhando suavemente para a sessão de biografias.

Duas pessoas tímidas conversando não significa que a timidez será duplicada. Na verdade, duas pessoas tímidas se anulam, matematicamente. A sensação de sentir vergonha continua lá, mas pendurada como um casaco atrás da porta, e não como uma cortina fechada para o espetáculo da nossa personalidade.

Eu e Heloisa tivemos um bate-papo muito interessante sobre narrativas, a diferença entre autores latino-americanos e escritores europeus e edições antigas de livros.

Antes de nos despedirmos, resolvi fazer uma pergunta à mulher.

– Heloisa, você acha que ser tímida te atrapalha em muitas coisas?

Perguntei isso sabendo que, em seguida, seu sorriso ganharia a nuvem da vergonha, e foi o que aconteceu.

– Sim, me atrapalha bastante. Até já pensei em fazer terapia. Mas é engraçado, porque com algumas pessoas eu consigo conversar, assim como estou conversando com você agora. Mas, em geral, tenho muitas dificuldades por conta disso, sim. Ainda mais porque sou professora de português de ensino fundamental.

“Mas que cacete”, pensei. “Tímido só escolhe profissão em que precisa lidar com o público”.

Ser tímido é, em geral, apresentar-se em um palco com as cortinas semi-cerradas. Assim é mais fácil se esconder, sair correndo. Mas, geralmente, escolhemos um público grande para o show da nossa vida. A gente só mostra o que consegue, o que acha conveniente. Ser tímido é ter a personalidade embrulhada para presente. A surpresa do seu interior é inquestionável.

A timidez é o meu guarda-chuvas. Já me chamaram docemente de introspectiva, reservada, meiga, romântica, distraída (é claro), fechada. E eu acato todos esses adjetivos. Porém, esses nomes são apenas rabiscos nas cortinas do teatro da minha vida.

Poucas pessoas sabem do escândalo que eu já fiz no meu camarim.

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Terceiro Concurso Cultural

Tema: fim de algo.

Desta vez, o tamanho do texto e o formato (prosa/verso) ficam por sua conta. Não há restrição; apenas na temática.

Prêmio: versão antiga de “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende.

Mande seu texto para vbencz@gmail.com até 16/2/12. Os três melhores ficarão em votação por uma semana.

Se você não for de Joinville, não se preocupe – mando o livro por correio.

 

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Resultado Segundo Concurso

Com 43,78 % dos votos, o texto vencedor do segundo concurso é de Jéferson Dantas, de Florianópolis (SC). A seguir, lanço o terceiro concurso!

Garotos–guindaste

amassam meninas-libélula

na esquina fria e suja.

Os olhos-antena

e a náusea da cidade-ilha.

Tramas e desejos da noite…

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Misture-se a Mim

“Tu ri como teu avô, menina”.

Me acostumei a ouvir isso desde que meus caninos nasceram, após o suicídio dos dentes de leite. Junto com os meus caninos grandalhões e pontiagudos, nasceu também a curiosidade sobre aquele avô que não conheci – separou-se de minha avó antes de meu nascimento.

Ouvi falar pouco sobre este homem chamado José. Certa noite, em criança, percebi que minha avó conversava com meus pais no quarto dela. Eles sussurravam. E o sussurro é o tempero dos ouvidos; então, com a sagacidade que só as crianças têm, esgueirei-me para perto da porta entreaberta de minha avó, e ouvi o papo.

– José berrava tanto aquele dia, que saiam raios de sua boca.

Ao ouvir isso de minha avó, entendi que eu teria dificuldades para dormir. Segurei o gemido de horror na minha garganta, até me afastar o bastante da porta de minha avó. Depois, deitada na minha cama, ao lado de minha irmã, contei o que ouvi para ela. Ambas ficamos sem sono, boiando no terror da lembrança. Lembro-me que ficamos olhando o teto do quarto na escuridão. O abajur estava apagado, para que ninguém desconfiasse que aquela informação – que eu havia criminosamente coletado – iluminava nosso pesadelo.

Anos depois, no comecinho da adolescência, comecei a ter aulas com uma professora que já havia trabalhado para meu avô. Com a felicidade dos desavisados, comentou que eu tinha o sorriso muito parecido com o de “seu José”. Me perguntei se eu também seria capaz de jogar raios pela boca.

Procurei alucinadamente fotos do homem nos armários empoeirados de minha avó. Encontrei milhões de fotos rasgadas pela metade. Em todas, aparecia apenas a minha avó, mais jovem. Entendi que, ao lado dela, provavelmente estava o meu avô. Ela teve o ódio tranquilo e cirúrgico de rasgar todas as fotos em que seu ex-marido aparecia.

Em algumas fotos, era possível ver que havia sobrado um braço masculino, uma mão com aliança, um pedaço de terno e gravata, um cálice de vinho tinto bebido pela metade. Mas seu rosto havia sido triturado, mutilado com o bisturi da mágoa desta mulher abandonada.

Quando eu tinha 14 anos, ficamos sabendo que o meu avô havia morrido. E tinha uma homenagem para ele, no jornal impresso. Havia uma foto dele. Sim, lá estava o meu sorriso. Os caninos malvados em seu rosto bondoso. Consegui examinar bem a foto, antes que a página do jornal fosse estraçalhada pela ira – já fossilizada – de minha avó.

Ainda hoje, quando fecho os olhos, consigo ver detalhes daquela foto em preto e branco. O sorriso com uma vasta variação de tons de cinza. O sorriso que veio como um embrulho nos meus genes. Mas eu jamais conseguiria reproduzir o mesmo sorriso, se não tivesse roubado também as células da inocência e da rebeldia de seu José. E dos caninos avantajados, é claro.

A gente nunca é apenas uma pessoa. Todos somos a mistura da bondade, dos dentes, das covinhas, das maçãs do rosto e das emoções de nossos ancestrais. E todos nós carregamos também uma cestinha em que colocamos outras qualidades e defeitos que encontramos e desenvolvemos no caminho.

O tempo que passou apenas me confirmou que eu não deveria usar aparelho para apagar essa memória dentária. Eu jamais imaginei que revelaria, em meus momentos de felicidade infantil, um homem que mal conheci. Mas, de qualquer jeito, ele vive dentro de mim e viverá a partir daqueles que um dia nascerem do meu amor.

Se tudo der certo, colocarei pessoas no mundo que também me recordarão a partir desses caninos, desse cabelo amarelo e liso, da floresta verde dos meus olhos ou até da curiosidade, que me faz rastejar pelo chão feito lagartixa, só para ouvir conversas que não me convém.

Até agora, não precisei soltar os raios que vivem em minha boca.

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Como Voltei no Tempo

Para a maioria dos mortais desse gigante planeta Terra, existem duas maneiras de voltar no tempo. Uma: ouvir a música que te lembra este período para o qual deseja voltar. Outra: fechar os olhos e abrir o sorriso para a lembrança que passa, como um filme, por trás de suas pálpebras.

Fora isso, cada pessoa encontra, em sua trajetória, pequenas maneiras de voltar no tempo e reviver sensações. Escrevo isso porque essa semana voltei no tempo. Foi rápido, porém inesquecível. Foi uma situação arquitetada com o talento de cirurgião dessa entidade chamada de “coincidência do universo”.

Foi o seguinte. Meus pais haviam chegado da praia, depois de quase um mês lagarteando sob o sol e o calor da vida boa. Fui visitá-los, com saudade. Cheguei na porta do apartamento e, antes de abrir a porta, percebi que eles estavam ouvindo música – a televisão deveria estar ligada em algum canal musical.

Sorri, sozinha, pensando: bom demais ter pais que amam a arte musical e a valorizam assim como eu.

Assim que abri a porta, percebi que estava passando na televisão o videoclipe da música “Woman in Chains”, do Tears for Fears. Uma música que embalou o comecinho da minha adolescência – eu tinha lá meus 11 ou 12 anos. Ou seja: aí estava a primeira engrenagem que possibilitaria a minha volta no tempo, algo que não planejei. Algo dentro de mim fez “clic”…

Assim que minha mãe se deu conta da minha presença, veio rapidamente ao meu encontro e me abraçou, sorrindo. Depois, olhou-me nos olhos, com o sorriso ainda perfeitamente desenhado em sua pele morena. Os olhos castanhos dela se projetaram para dentro da água verde que são os meus olhos. E esse foi o gancho número dois. Assim como a mão materna puxa para fora da água a criança que se afoga, os olhos de minha mãe me tiraram da mesmice do dia a dia e me levaram para um não-lugar.

Fui suavemente envolvida pelo perfume de baunilha, que é a trilha aromática de quase todas as infâncias do mundo.

Aí eu me dei conta que a nave espacial que me levaria para esse outro tempo estava quase embarcando, estava quase saindo de seu porto, e eu era a convidada da vez. O que eu poderia fazer? Não se luta contra uma coisa dessas. É natural da vida, assim como a paz, o amor e a doçura da vida. Não se luta contra o altruísmo que está no mapa astral de um ser humano.

Foi aí que colaborei para que a viagem de realizasse. Fechei os olhos. Sorri. E continuei abraçada em minha mãe, com a cabeça deitada em amor sobre o seu ombro.

Deve ter durado apenas alguns segundos, no cronômetro humano. No relógio da máquina do tempo, foram tantos outonos.

Aterrissei na Terra diferente – a gente sempre volta diferente de uma viagem no tempo. Horas mais tarde, eu percebi que havia ganhado uma marquinha de expressão horizontal, ao lado do olho esquerdo. Brotaram algumas violetas nos vasos da minha inconsciência, e a semana inteira ficou meio amarela, com o sabor da baunilha grudado em minhas narinas.

Faça uma viagem no tempo, se tiver a chance. Não fuja disso.

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