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Votação do Terceiro Concurso Cultural

Os três textos selecionados estão a seguir. No fim desta postagem, está o quadro para votação. Boa sorte a todos e boa leitura! A votação vai até 23/2, 5a-feira.

SALVE-ME!

Salve-me, ela falou pela última vez. E pela última vez ele ouviu sua voz, que tanto lhe tinha dado prazer, que tanto lhe tinha confortado a alma nos seus piores momentos. Olhou-a pela última vez também. Seus cabelos, onde tantas vezes passara a mão, ou caíra por cima de seu corpo nu enquanto faziam amor, juntando-se aos suores dos dois, fazendo parte de um só. E viu seus olhos marejados. Seus olhos que demonstraram tanta força, tanta coragem de enfrentar as situações que a vida lhe impôs, a superar todos os obstáculos que a ele pareciam intransponíveis. Olhos que traziam a segurança necessária para apaziguar qualquer guerra no mundo, e que traziam paixão, tanta necessária que começaria uma guerra para ser digno de tais olhos. A boca, de onde saíam as mais belas palavras de carinho que um ouvido humano já pôde ouvir. Ou de onde ele sugava sua felicidade, com gostos variados, mas sempre dispostos a mostrar-lhe outros sabores que não os de todos os dias. Porém, uma boca de onde as repreensões pela vida errônea que levava também tinham vez. Só que isso não importava mais para ele. Somente sair de sua presença era o que importava. Mas não podia se esquecer das mãos. As mãos que tanto lhe tinham dado prazer; emaranhando-se nos seus cabelos; fazendo-o perder a noção do tempo. As mãos que segurava com força quando ela lhe dava o gozo. Mãos que queriam lhe arranhar a pele nestes momentos de intensa força. E que nunca mais iriam lhe tocar. Nunca mais sentir a textura suave delas. Nem poder beijá-las. E, agora, as via pela última vez estendidas em sua direção, implorando para que a salvasse.

Mas o que ela não percebeu, quando ele fechava a porta também pela última vez, é que ele sussurrou, com lágrimas nos olhos: salve-me!

(Inspirado na canção Save Me, de Aimee Mann)

(Por Rômulo Mafra)

Pode o fazer e o pensar estarem em diferentes lados?
Pode minha mente não fazer e meu agir não pensar?
Me envolvi tanto em minhas dissimulações que agora me aventuro em minha própria armadilha
A prisão é minha mente, o meu próprio ser não é mais eu.
Na verdade, não sei se minha mente me trai ou meu ser é o errante.
Mas, em algum deles perdi parte de mim, meu propósito e meu querer.

(Por Morghana Santhiago)

Fatalismo no escuro

Ele era o cara. Sim, o comedor. O fodão. O treme chão. O sanguinário. O viciado em bucetas de todos os tipos. Jhonny sempre fora conhecido por sua virilidade, vaidade e facilidade para conseguir a mulher que queria. Desde pequeno sentia-se confiante para abater a potranca que quisesse. Perdeu a virgindade aos doze com sua vizinha de dezesseis. Sua estatura avantajada para um garoto de sua idade ajudava, mas não era isso que facinava as garotas. Era o olhar confiante de um homem que poderia dar o que elas estavam procurando. No final do ensino médio já era famoso por trepar com pelo menos três por semana. Para ele, era tão simples quanto respirar. Olhava, escolhia, abatia. Era assim. Como num matadouro.

Na faculdade, não foi diferente. Seus amigos tentavam entender qual era o seu segredo. “Não há segredo”, dizia ele. “É apenas instinto”. Mas como todos os seres humanos normais e mortais sem nenhum tipo de ambição, Jhonny encontrou a garota com quem se casaria. Não se casou com ela porque a amava, mas sim pelo simples e mero fato de acreditar que aquilo era o que deveria ser feito. Vai entender. Talvez tenha enjoado de ver tantas bocetas, de cores e tamanhos diferentes. Mas mesmo casado, ainda era tido como o tal entre seus amigos, que sempre lembravam-se de sua façanhas quando saiam para tomar algumas garrafas daquele líquido feito à base de cevada. “Lembra aquela vez, Jhonny? Com três! Três!”, dizia um. “E aquela, quando trocava de quarto a cada dez minutos, com duas meninas da sua classe de faculdade?”, falava o outro.  De fato, era um fenômeno. E ainda dava suas escapolidas, casado e dez quilos mais gordo.

Porém, um dia, algo no mínimo catastrófico aconteceu. Era bem empregado em uma grande empresa e todo dia apanhava um ônibus fretado, perto de sua casa, para chegar até lá. Nunca perdera hora, acordava todo santo dia a tempo de fazer, com calma, suas necessidades fisiológicas, escovar os dentes, tomar seu café preto com torradas, vestir-se, dar um beijo em sua mulher e então seguir calmamente até o local onde o veículo disponibilizado pela companhia o apanharia. Entretanto, nessa fatídica sexta-feira, Jhonny acordou, em posição de “concha”, com sua mulher entre seus braços. Ela, nua, pois como quase todas as noites fizeram amor até adormecer. Ele, como sempre dormia nu. Olhou para o rádio relógio. O mostrador digital marcava 6:25. Dali a cinco minutos o ônibus pontualmente passaria no local há muito combinado para apanhá-lo.

De um salto, Jhonny levantou-se e foi tateando no quarto escuro à procura de seu uniforme de trabalho. Abriu a primeira gaveta que conseguiu encontrar naquela escuridão e vestiu a primeira cueca que encontrou. Encontrou suas calças, camisa, meias, sapato, cinto. Tudo vestido às pressas. Passou correndo pelo banheiro, jogou uma água no rosto, abriu a porta da sala, saiu, trancou-a, abriu o portão, saiu, trancou-o. Como se estivesse em uma competição dos cem metros rasos disparou rumo ao local onde estaria o veículo a esperá-lo em dois minutos. Tudo foi muito rápido. Jhonny corria tão ofegante que não ouviu nem viu o caminhão que descia pela rua que atravessava. A velocidade do mastodôntico veículo era muito alta para aquele local. A última visão que Jhonny teve em vida foi a de um imenso símbolo de marca automotiva, que acabou por golpear-lhe a cabeça. O resto de seu corpo foi totalmente dilacerado. Não houve chance. Aos trinta e dois, exatamente vinte anos após sentir pela primeira vez os prazeres carnais da vida, Jhonny não pertencia mais a esse mundo.

No entanto, o que mais chamou a atenção dos amigos, peritos e curiosos nesse fato terrível não foram os membros, sangue e tripas espalhados por toda a parte, mas sim uma peça de roupa em particular. Jhonny morrera com as glúteos à mostra. E o que vestia suas nádegas era nada mais, nada menos que uma calcinha de renda, vermelha, cuja dona era sua esposa, agora viúva. No breu de seu quarto, Jhonny não viu o que havia vestido. Logo, a tragédia que envolvia o acontecido deixou de ser o assunto principal. Em seu velório, a alma penada de Jhonny, que vagava por ali inconformada por ter deixado o corpo ao qual pertencia tão inesperadamente, assistia a seus amigos duvidarem de sua masculinadade.

“Rapaz, que tragédia, hein?”; “Pois é. Mas e a calcinha, hein? Quem diria. O Jhonny, hein? Bem que eu desconfiava…”; “É. Quando o cara é muito machão assim deve ser porque gosta de virar o fio. Vai ver era só disfarce.”; “Teve uma vez que eu tava sem camisa e ele me olhava estranho mesmo…”; “E aquela vez que ele tava bêbado e dormiu só de cueca no meio de um monte de macho?”; “Que coisa, não?”. Em meio a todos os presentes, a forma abstrata de Jhonny gritava inutilmente: “Não! Não! Não, seus fillhos da puta! É tudo um mal entendido! Seus desgraçados! Como podem falar isso de mim!? Como? Como? Vocês sempre se diziam meus amigos! Seus…” e etc. Jhonny foi enterrado. Sua alma fora encaminhada para um destino desconhecido.

Todos ainda falavam sobre ele. Mas não sobre suas façanhas realizadas em vida. Essas foram esquecidas. Lembravam apenas daquela calcinha que destruiu toda a sua reputação. A escuridão e a lingerie fizeram com que sua fama chegasse ao fim.

(Por Murilo Reis)

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