Maio 15, 2009

Coração de Penas

Papai costumava se espelhar em passarinhos. Na nossa casa antiga, havia um terraço de lajotas cor de caramelo onde ele pendurava gaiolas, cada uma com um pássaro colorido de olhos pretos e frios. Lembro-me das tardes de sol em que os bichinhos cantavam de alegria amarela. Já os dias de chuva eram de silêncio misterioso – de quando em quando, trinavam baixinho, ansiosos. O barulhinho deles se confundia com a melodia da garoa. A cantoria amorosa contrastava com os olhos arregalados e assustadores.

Havia um passarinho branco que era um canário-do-reino. Papai apelidou-o de Reino. Um dia, confessei que tinha uma quedinha pelo bicho. Gostava muito de sua brancura e achava que ele era um pedaço de nuvem. Papai disse:

- Pois agora o Reino é seu!

Ele não sabe, mas salvou minha infância com essa doação. De nada serviram os intermináveis discos infantis que me dava de aniversário e Natal, pois foi Reino quem fez a trilha sonora da minha infância.

A gaiola de Reino era minha televisão. Adorava observá-lo comer alpiste, beber água, cantar e espreguiçar as asinhas. Era lindo demais quando ele abria as asas – parecia um pássaro grandão, assustadoramente doce. Ficava horas reparando em cada detalhe. Seu bico rosa, os olhos pretos que me davam arrepios, as garras malvadas de passarinho bom. O melhor de tudo é que nada disso tinha intervalos comerciais.

Uma noite, sonhei que passeava com Reino no ombro. Ele cantava muito alto em meu ouvido, e era bom. Acordei e vi que papai havia pendurado a gaiola de Reino na janela do meu quarto. Era uma manhã outonal – o sol entrava cheio de rendas e se deitava pelo meu edredom. A presença de Reino era mágica, como se fosse uma visita muito importante e pomposa. Ele era o senhor do meu reino. Seu canto era um hino às manhãs sem aula.

Um bicho é para a criança o que a bondade é para a humanidade. E Reino era a minha paz branca. Era o mar calmo que ainda não conhecia o furacão da adolescência. Reino emprestou para mim as asas que eu não tinha e fez de mim uma criança completa – me elevou ao nirvana infantil. Meu coração era feito de penas.

Mas Reino também era impulsividade. Ele não vivia conforme as leis de higiene humanas. Sujava as paredes. Botou no negativo a paciência inexistente de papai. Ele quis se livrar do canarinho branco. Quando me avisou que abriria a gaiola, ouvi claramente meu coração se rasgando, do mesmo jeito que se rasga uma linda toalhinha de Natal bordada.

Foram as minhas primeiras estrias. Fiquei cega de lágrimas. Tonta pela onda repentina. Levei um soco da maturidade alheia. Perdia um ente querido. E papai não dava conversa. Minha insistência era triturada com seu olhar aterrorizante. Mas ele também tinha coração de pena: deixou que eu mesma soltasse Reino. Eu teria que abrir de vez o meu coração já aberto, antes de abrir a gaiola. Abri-lo porque, através dele, Reino conheceria o céu, a terra, e tudo o que há entre o azul e o verde. O canário tornou-se adulto muito antes que eu – suas penas internas tornaram-se douradas antes das minhas.

No terraço, papai tirou Reino da gaiola, com suas mãos calosas, e passou o passarinho desesperado para minhas mãozinhas lisas e moles. Uma asa trêmula escapou pelos meus dedos. Foi a faca que me fez gemer de agonia.

Com a visão embaçada por lágrimas agridoces, franja e melancolia, andei com Reino até para fora do terraço. Avancei pelo gramado. Não sabia se deveria jogá-lo, para que fizesse um mergulho triunfal na liberdade, ou se deveria depositá-lo delicadamente na grama. Por um segundo, acreditei sentir seu coraçãozinho louco, explodindo junto com o meu.

Não houve despedida: abri as mãos, ele espreguiçou as asas e jogou-se para o céu. Virei as costas, entrei em casa e avancei também pelo triste vale da adolescência.

Fevereiro 13, 2009

Relato de um sol eterno

A primeira pessoa que vejo, ao abrir os olhos pela manhã, é a minha irmã mais velha. Dividimos o mesmo quarto faz 23 anos. Ela dorme na cama à minha direita. Como se fosse meu braço direito, meu leste. Ela me amanhece. Em pequena, eu tinha dificuldades para pronunciar seu nome. Me acostumei a chamá-la por uma simples sílaba: Di. Só eu a chamo assim, ela só atende ao apelido quando é dito pela minha voz. A alcunha necessita de tom musical, carga emocional e um riso no canto da boca que apenas eu sei dar. Di é dois anos mais velha que eu. Quando eu tinha seis anos, minha tia fez para mim a fatídica previsão que os parentes sempre fazem para adivinhar as crianças da família:

- Essa menina vai dar baixinha. Sua irmã mais velha, não. Vai dar moça alta, de pernas compridas.

Escondi-me ainda mais na baixa estatura e na franja loira. Di era criança alta, bonita e precoce. Criança irreal de filme estrangeiro. Criança que sabe conversar sobre a previsão do tempo, o governo Collor e a queda da bolsa de valores. E eu mal sabia soletrar meu próprio nome. Tinha dificuldades com a letra s. Tornei-me uma pré-adolescente tímida e egoísta. A lição de solidariedade veio pela minha irmã. Certa vez, no colégio, meus colegas riam de mim por um motivo que não lembro mais. Di chegou, fez um sermão com dedo em riste, e as crianças se calaram. Exceto por um menino gorducho e feioso, que teimava em continuar rindo. Di deu-lhe quatro tapas na orelha, e o moleque se calara. Tempos depois, eu faria o mesmo pelo meu irmão mais novo.

No começo da fase adulta, Di precisou fazer uma cirurgia de emergência. Fui visitá-la no hospital e, ao vê-la na cadeira de rodas, desabei num choro frenético e desmaiei de pressão baixa. Saímos juntas do hospital, cada uma em sua cadeira de rodas. Hoje em dia, Di e eu temos a mesma altura. Nós somos o mesmo território vasto de lembranças. Nossos sonhos se misturam de noite e nossa telepatia se entrecruza durante o dia. Di me amanhece.

Janeiro 13, 2009

Children of Men

Fiz a merda de assistir “Filhos da Esperança” de noite. Poucas horas antes de ir dormir. Bem, demorei a cair no sono. Fiquei muito tempo digerindo a história. Ainda estou. Filmes que se passam no futuro sempre me fazem pensar. A história se passa em 2027 e mostra um mundo velho, deprimido e sem chances… bem possível que daqui a 18 anos, estejamos realmente nessa situação.

Assistam! Mas não de noite.

Dezembro 26, 2008

Sonhando

Confesso que havia deitado mais cedo do que o normal. Precisava acordar 6h15, hora em que meus sonhos ainda estão muito fortes, contínuos, ainda no clímax de algum acontecimento. Mas algo me impedia de cair de corpo inteiro no rio da inconsciência. Metade do meu corpo estava no rio e a outra metade, enxergando as luzes da realidade. Resolvi conversar com meu cérebro.

- Tem alguém aí?

- Sim.

- Eu preciso dormir.

- Então me ajude a fechar as janelas.

Entrei por uma porta grande e deparei-me com uma casa grande que, supostamente, era o meu cérebro. Estava cheio de janelas, umas diferentes das outras. As venezianas também eram diferentes entre si. Umas estavam fechadas, outras abertas. Fechei uma por uma e dormi.

Dezembro 2, 2008

De mãe para filha

Minha mãe é uma instituação, não uma pessoa qualquer. Ela é a Mãe, com inicial maiúscula. Mãe é o seu primeiro nome e também seu apelido. Minha mãe até aceita outros nomes carinhosos, mas ela é a Deusa dos filhos que botou no mundo e pronto. Respeito, moleque!

Mamãe é mansa e gradativa como o vento. Silenciosa como toda mãe deve ser. Estranho quando vou na casa dos outros e me deparo com uma mãe estridente. Não, minha mãe tem voz grave de enfermeira e mão quente de cozinheira. Sua comida tem um gosto salgado: ela preferia não ter de cozinhar todos os dias.

A minha mãe sempre foi minha super-herói. Nasci feminista: chega desse negócio de o homem ser o personagem principal sempre. Acho que foi por isso que eu assumi algumas características masculinas com o tempo. Competitividade foi uma delas. Eu, em pequena, competia com tudo o que era guri. Ganhava as brincadeiras e o respeito. Mamãe me chamava de Bam-bam.

Para mim, ela sempre foi a instituição da força e do trabalho, conciliando a personalidade dócil e flexível. Eu gosto de imitá-la, desde que me conheço por bicho.

Mas hoje de manhã, minha mãe estava chorando. Ela não chora só com os olhos. Quando chora, fica com as sobrancelhas mais tristes do mundo, viradinhas para cima. Respira pela boca. Olhos vermelhos. Faz três anos que ela perdeu o irmão caçula, meu tio, num acidente de moto. E, de quando em quando, chora. Mas apenas lamentar a morte dele é uma tremenda demonstração de força. Se fosse comigo, eu já não estaria mais em estado sólido.

A fraqueza no meio da força torna a força ainda mais forte. Preciso achar uma fraqueza também?

Novembro 27, 2008

Docilidade

Na segunda série, estudei com a Grasiela. Era alta, tinha os cabelos mais cheirosos e macios que eu já encontrei e usava óculos de grau. Grasiela era muito bonita. Seu problema era ser deficiente mental. Não que os deficientes sejam um problema. Mas, sem dúvidas, ela arranjou altas confusões estudando com crianças cruéis, chamadas de “normais”.

Grasiela não sabia a hora de parar a brincadeira. Era mais velha que todo mundo na sala, mas com idade mental de muito mais nova. Fazia comentários estúpidos durante as aulas e as crianças riam dela sem parar. Eu também ria, mas depois sentia a fisgada no coração: e se fosse comigo? Isso me fazia parar de rir na hora. Olhava com pena para Grasiela. Quando ela começava a falar alguma coisa que eu sabia que renderia brincadeiras de mal gosto, olhava para ela pedindo em silêncio: pare, pare, pare antes que eles riam mais de você.

Um dia, no recreio, Grasiela me viu olhando-a com compaixão. Veio falar comigo. Disse: “Seus cabelos são tão bonitos!” Fiquei orgulhosa, nunca ninguém havia elogiado os meus cabelos. Eles não tinham nada de mais. A garota perguntou quê xampu eu usava. “Ué, qualquer um”, respondi. Ela riu, eu ri. Pediu para tocar nos meus cabelos. Receosa, deixei. Com a mão grande e ossuda, acariciou minha cabeça. Falei: “Fico com sono quando mexem nos meus cabelos”. Pronto. Os olhos de Grasiela brilharam. Virou minha amiga.

Mas a amizade de Grasiela me cansava, ela só sabia falar de cabelo, xampu e outros produtos de beleza. E meus amigos começaram a reparar na nossa amizade. Comecei a virar piada também. Alguns diziam: “Olha lá a Vanessa, agora ela é defensora dos animais”. Grasiela tentava me defender, mas a coisa era por demais vergonhosa. Eu dizia: “Grasiela, pare, deixa eles”. Ela sempre deixava.

Mesmo assim, pensei que estava na hora de parar de dar trela para a garota. Estava se folgando. Telefonava para minha casa, mandava bilhetinhos a aula inteira, queria me ver depois das aulas, tinha ciúmes dos meus outros amigos. Pedi para Grasiela não me sufocar, ela não entendeu. No dia seguinte, sua mãe apareceu no colégio, toda feliz, querendo conhecer a “Vanessa, nova amiguinha da Grasiela”. Foi uma das primeiras rachaduras no meu coração de criança.

Eu não entendia o que era ser deficiente. Grasiela era deficiente mental, então, eu achava que isso era ser estúpido. Mas hoje, catorze anos depois – catorze anos sem ver a Grasiela – estou fazendo uma reportagem sobre o tema. Lembrei dela. Não a encontrei como queria, mas encontrei outros como Grasiela. Hoje vejo o quanto ela era inocente e dócil. Nós, crianças eternas, demoramos para entender isso.

Novembro 18, 2008

Das mães preocupadas com o processo criativo dos filhos

Ontem eu estava lá em casa, sentada no sofá enquanto tomava café. Descansando, como gosto de fazer. Aproveitei para observar o pinheirinho que minha mãe montou durante a tarde. Ele ainda estava sem enfeites. Era um simples pinheiro de mentira, feio e triste. Quando minha mãe percebeu que eu olhava a árvore, aproximou-se rapidamente e começou a pendurar os enfeites coloridos. Disse:

- Não quero saber de tu fazendo contos sobre esse pinheiro sem enfeites.

 

Novembro 16, 2008

A Cidade da Saudade

Qual sua cidade preferida?

Até pouco tempo, eu acreditava que Curitiba era a minha cidade. O meu lugar. O meu quarto, meu santuário, meu cobertor de estrelas. Mas eu traí a cidade no agosto último. Conheci Campinas e a adoração pela capital paranaense foi por água abaixo. Agora, o interior paulista é que chama o meu coração.

Foi assim: Dan viajou para Campinas a trabalho. Mas a saudade bateu antes do tempo – a danada da saudade é feita de espontaneidade mesmo – e aproveitei o meu aniversário para visitá-lo. Aconteceu que matei a saudade do Dan, mas ganhei uma nova saudade. A da cidade. Agora, ela é a Cidade da Saudade. Tudo bem que o ar seco demais para o meu nariz joinvilense, acostumado a altas porcentagens de umidade, machucou minhas narinas. Mas quê amor que não machuca?

Campinas é a cidade do sol, das bicicletas, das pessoas, da intelectualidade, do café, do côco, do Daniel, do boxe chinês, da saudade, dos pitbulls, das calçadas e da Tok Stoks. Faz três meses que não piso em Campinas. Estou para ir para lá no começo de dezembro. Eita ansiedade da porra.

Novembro 12, 2008

A infância da Terra

Algumas transformações do mundo são tão sutis, não?

Relendo o meu post anterior, fiquei lembrando do Dudu pequenino. Cabelinhos escuros e lisos, a franja caindo sobre a testa, os quatro dentinhos da frente bem grandes. Hoje, ele trabalha numa empresa grande, tem um cargo de responsabilidade, seu queixo é quadrado e os dentes são corretos. A infância realmente é toda desorganizada, desajeitada e cheia de felicidades repentinas.

Fiquei imaginando se não estaríamos ainda na infância do mundo. Sei que o homem nem sempre andou ereto, que existiram dinossauros e que pessoas eram crucificadas apenas por terem opiniões diferentes. Já hoje, a liberdade de expressão é a grande bandeira da maioria das nações, e estamos em tempos ultramodernos de ipods e computadores que falam. Mas acredito que a violência e a incompreensão apenas mudaram de eixo. Foram projetadas para um lugar mais sutil, mais interior, subjetivo. A ditadura econômica, os salários ridículos, o padrão de beleza da magreza esquelética.

Talvez eu, nem você, nem ninguém aqui tenha tempo de ver a adolescência do mundo. Quem verá a ebulição de hormônios na face da Terra? Que medo.

Novembro 11, 2008

Da vida escondida

Uma das melhores lembranças que tenho da infância é de brincar com bichinhos de pelúcia com meu irmão. Durante a tarde, quando a casa estava silenciosa – a soneca de depois do almoço dos meus pais parecia durar para sempre -, eu e Dudu recolhíamos os brinquedos e nos trancávamos no meu quarto. As bonecas, os comandos em ação e os bichinhos de pelúcia ganhavam vida quando a gente fechada a porta. Imitávamos vozes fininhas para interpretá-los, um por um.

O nosso bicho preferido era o Ratinho. Era gordo, com uma roupinha vermelha xadrez. Por muitos anos, brincamos com aquele rato encardido, para o qual guardávamos a voz esganiçada. Um dia, o Ratinho cansou de brincar com a gente e foi embora com suas trouxas. Eu adorava quando meu irmão imitava voz grossa para uma bonecona feia que eu tinha. Era descabelada, tinha olhos malvados e pés grandes. Não sei em quê momento da infância eu quis ter aquela boneca. Era horrenda, era sempre a vilã das nossas historinhas. Bem, os vilões são importantíssimos em qualquer lugar do mundo e em qualquer fase da vida.

E eu tinha uma barbie linda. Quando a gente brincava de sala de aula, ela era a professora boazinha e querida. Eu guardava uma voz sensual e generosa para ela. Quando eu fazia essa voz, automaticamente Dudu fazia surgir um bom aluno, que era um comandos em ação com pára-quedas. Ao longo da história, professora e aluno se descobriam mãe e filho.

Gostávamos muito de incrementar as brincadeiras com Lego. Montávamos mesas, cadeiras, escadas. As ousadias da minha cabeça infantil se manifestavam em móveis que jamais existiriam.

Enquanto a gente brincava de porta fechada, nossa irmã mais velha, Di, curtia o começo de sua pré-adolescência com as amigas. Eu não queria os hormônios, não queria as espinhas e jamais quis aceitar a vaidade. Eu gostava de calças largas, camisetas coloridas e bola de basquete.

Inventamos teatros, roteiros e novelas dramáticas quando a porta do meu quarto se fechava. Era a cortina fechada para o espetáculo da nossa infância. A criatividade infantil escondida, uma linda festa para ninguém. Nossa felicidade era não ter público. Jamais houve espectadores. Nós éramos os próprios espectadores da nossa meninice eterna que acabou em algum momento perto dos onze anos. As brincadeiras com bichos de pelúcia acabaram sem se despedir, sem dar um alento para a adolescência, sem avisar que depois das montanhas existe a maturidade. Os brinquedos foram enterrados em um baú grande e triste.