Terceiro Concurso Cultural

Tema: fim de algo.

Desta vez, o tamanho do texto e o formato (prosa/verso) ficam por sua conta. Não há restrição; apenas na temática.

Prêmio: versão antiga de “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende.

Mande seu texto para vbencz@gmail.com até 16/2/12. Os três melhores ficarão em votação por uma semana.

Se você não for de Joinville, não se preocupe – mando o livro por correio.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Distrações

Resultado Segundo Concurso

Com 43,78 % dos votos, o texto vencedor do segundo concurso é de Jéferson Dantas, de Florianópolis (SC). A seguir, lanço o terceiro concurso!

Garotos–guindaste

amassam meninas-libélula

na esquina fria e suja.

Os olhos-antena

e a náusea da cidade-ilha.

Tramas e desejos da noite…

Deixe um comentário

Arquivado em Distrações

Por Fim

Naquela terça-feira chuvosa de novembro, fui convocada para fazer o perfil de dona Angela. Uma senhora de 84 anos, rica, com o rosto redesenhado por plásticas. Ela tinha muitos imóveis caros pela cidade em seu nome. Corria o boato de que era uma das multimilionárias da cidade.

Todos esses bens, somados à educação fraca que deu aos filhos, resultaram em um grande histórico de brigas familiares e tentativas de homicídio contra dona Angela. Os próprios filhos tentaram matá-la e, enquanto não conseguiam a herança, tentavam matar uns aos outros. Quando a família se juntava, era certo de que era preciso chamar a polícia. O escândalo desta família era a novela dos vizinhos.

Antes de deixar a redação para entrevistar dona Angela, lembro-me bem que recebi um e-mail de um dos editores do jornal. A mensagem dizia: “precisamos conversar no fim do dia, sem falta”. Enquanto lia e relia esta simples frase, eu tentava calar o mau pressentimento que entristecia o meu coração. Respirei fundo e arquivei este sentimento para me entristecer depois.

Dona Angela morava em uma das maiores casas que já visitei. Foi a primeira vez que ouvi falar a expressão “sala de visitas”. Era uma sala feita apenas para… receber visitas. O cômodo tinha muitos sofás, mesas baixas, estantes com porta-retratos, enfeites, tapetes que adivinhei serem caros e importados. Em cima das mesas, havia animaizinhos de cristal. A fauna mais linda que já vi. Era inacreditável. Com minha roupinha surrada do dia a dia, fui a visita naquela “sala de visitas”. Por alguns segundos, fiz de conta que aquela sala era minha e que aquelas pessoas pomposas, nos porta-retratos, eram eu e minha família. Sorri a entrevista inteira.

Mas a história dessa senhora era tão triste. Apesar de ter tanto dinheiro, era sozinha e abandonada. Um clichê da vida real. Dona Angela era a forma humana da frase “dinheiro não traz felicidade”. Ela era uma mulher pequena, bonita, bem cuidada, embrulhada em um lindo vestido florido, que suspirava de tristeza em seu sofá francês. Senti pena.

Ao voltar para o jornal, nem lembrava mais que teria uma certa reunião com meus chefes no final do dia. Escrevi o perfil de dona Angela com a emoção pendurada nos olhos. Escolhi com cuidado todas as palavras – e escondi, em cada parágrafo, minha piscada de olhos para o leitor, como quem diz: “galera, sei que é clichê, mas vamos manter nossas amizades acima dos bens materiais, porque a velhice um dia vai chegar!”

Assim que terminei o perfil, fui convocada para a sala de reuniões do jornal. Acompanhada de dois editores, lembro-me que passamos juntos por um corredor cinzento, frio e opressor. Ou assim apenas me pareceu, porque era como eu me sentia por dentro.

Um minuto depois, eu me sentia assim por fora também. Fui demitida.

Enquanto guardava os pertences que estavam sobre a mesa que tinha sido minha por três anos, senti alívio e tristeza ao mesmo tempo. Alívio, porque seria o último dia em que me sentiria uma idiota dentro daquele lugar. Tristeza, porque era o meu luto pelos entrevistados que não seriam mais meus. Não fazia ideia que sonharia, muitas vezes depois, com este momento.

Com uma caixa de papelão cheia de cadernos, canetas e outras coisas, saí da empresa e fui pega sem surpresa pela chuva. Pensei, com um bom humor melancólico: achei que esse tipo de cena só acontecesse em filmes.

Ao chegar na casa dos meus pais, fui abraçada com carinho e compreensão. Ainda com a emoção de dona Angela na pele, agradeci ao universo por eu ter perto de mim tantas pessoas queridas. Abraçando-os e molhando seus ombros com minhas lágrimas, jurei que seria uma mulher melhor a cada dia. Uma filha melhor, uma irmã melhor, uma funcionária melhor, uma jornalista melhor.

Enfim, eu não quero uma sala de visitas. Eu quero ser a visita que é apaixonada por sua família e amigos.

O tempo passou, me confirmando que algumas mágoas, mesmo se parecendo com pedras, podem ser demolidas e retiradas de um coração humano. E que os bons momentos, até mesmo aqueles mais singelos e inocentes, são a tatuagem da alma. Não é preciso um crachá de jornalista para que eu continue encontrando as melhores histórias do mundo, na esquina da padaria.

2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

Misture-se a Mim

“Tu ri como teu avô, menina”.

Me acostumei a ouvir isso desde que meus caninos nasceram, após o suicídio dos dentes de leite. Junto com os meus caninos grandalhões e pontiagudos, nasceu também a curiosidade sobre aquele avô que não conheci – separou-se de minha avó antes de meu nascimento.

Ouvi falar pouco sobre este homem chamado José. Certa noite, em criança, percebi que minha avó conversava com meus pais no quarto dela. Eles sussurravam. E o sussurro é o tempero dos ouvidos; então, com a sagacidade que só as crianças têm, esgueirei-me para perto da porta entreaberta de minha avó, e ouvi o papo.

- José berrava tanto aquele dia, que saiam raios de sua boca.

Ao ouvir isso de minha avó, entendi que eu teria dificuldades para dormir. Segurei o gemido de horror na minha garganta, até me afastar o bastante da porta de minha avó. Depois, deitada na minha cama, ao lado de minha irmã, contei o que ouvi para ela. Ambas ficamos sem sono, boiando no terror da lembrança. Lembro-me que ficamos olhando o teto do quarto na escuridão. O abajur estava apagado, para que ninguém desconfiasse que aquela informação – que eu havia criminosamente coletado – iluminava nosso pesadelo.

Anos depois, no comecinho da adolescência, comecei a ter aulas com uma professora que já havia trabalhado para meu avô. Com a felicidade dos desavisados, comentou que eu tinha o sorriso muito parecido com o de “seu José”. Me perguntei se eu também seria capaz de jogar raios pela boca.

Procurei alucinadamente fotos do homem nos armários empoeirados de minha avó. Encontrei milhões de fotos rasgadas pela metade. Em todas, aparecia apenas a minha avó, mais jovem. Entendi que, ao lado dela, provavelmente estava o meu avô. Ela teve o ódio tranquilo e cirúrgico de rasgar todas as fotos em que seu ex-marido aparecia.

Em algumas fotos, era possível ver que havia sobrado um braço masculino, uma mão com aliança, um pedaço de terno e gravata, um cálice de vinho tinto bebido pela metade. Mas seu rosto havia sido triturado, mutilado com o bisturi da mágoa desta mulher abandonada.

Quando eu tinha 14 anos, ficamos sabendo que o meu avô havia morrido. E tinha uma homenagem para ele, no jornal impresso. Havia uma foto dele. Sim, lá estava o meu sorriso. Os caninos malvados em seu rosto bondoso. Consegui examinar bem a foto, antes que a página do jornal fosse estraçalhada pela ira – já fossilizada – de minha avó.

Ainda hoje, quando fecho os olhos, consigo ver detalhes daquela foto em preto e branco. O sorriso com uma vasta variação de tons de cinza. O sorriso que veio como um embrulho nos meus genes. Mas eu jamais conseguiria reproduzir o mesmo sorriso, se não tivesse roubado também as células da inocência e da rebeldia de seu José. E dos caninos avantajados, é claro.

A gente nunca é apenas uma pessoa. Todos somos a mistura da bondade, dos dentes, das covinhas, das maçãs do rosto e das emoções de nossos ancestrais. E todos nós carregamos também uma cestinha em que colocamos outras qualidades e defeitos que encontramos e desenvolvemos no caminho.

O tempo que passou apenas me confirmou que eu não deveria usar aparelho para apagar essa memória dentária. Eu jamais imaginei que revelaria, em meus momentos de felicidade infantil, um homem que mal conheci. Mas, de qualquer jeito, ele vive dentro de mim e viverá a partir daqueles que um dia nascerem do meu amor.

Se tudo der certo, colocarei pessoas no mundo que também me recordarão a partir desses caninos, desse cabelo amarelo e liso, da floresta verde dos meus olhos ou até da curiosidade, que me faz rastejar pelo chão feito lagartixa, só para ouvir conversas que não me convém.

Até agora, não precisei soltar os raios que vivem em minha boca.

1 Comentário

Arquivado em Distrações

Votação

Sei que vocês estavam esperando por três textos, mas achei que seria legal fazer com esses quatro.

O resultado da votação será divulgado na noite do dia 27/1, próxima sexta-feira. Pode votar quantas vezes quiser. Obrigada a todos pela participação.

 

UPDATE: por ter constatado que um único leitor votou mais de 100 vezes em um mesmo candidato, o sistema agora só permite um voto por usuário!

7 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

Inscrições do Segundo Concurso Cultural encerradas

Fechamos a 2a edição do Concurso Cultural com 67 participações, e para lá de 200 textos. Hoje de tarde lerei todos e, às 18 horas, vou disponibilizar os três selecionados. Os três trabalhos (com o nome do autor) ficarão em votação durante uma semana. Ou seja, 6a feira que vem (27/1), dou o nome do ganhador de “Contos”, da Katherine Mansfield.

Aqueles que forem selecionados receberão um e-mail com o link da página da votação, até para mandarem para seus amigos votarem também.

Lembrando que, logo em seguida, dou largada para o terceiro Concurso Cultural! Ainda vou escolher o livro para premiar!

Deixe um comentário

Arquivado em Repórter distraída

“Relato do Sol” está a caminho!

O livro “O Relato do Sol” está quaaaaaaaaaaase no ponto. Mais um pouquinho.

Enquanto não sai do forno, uma prévia da ilustração de Fabio Abreu. Quem botou o título ali em cima foi a Patrícia de Sousa, que trabalha aqui na rádio Mais FM comigo. Estão me pedindo para fazer camisetas com essa estampa. Quem se interessa, levanta a mão.

 

Relato do Sol

2 Comentários

Arquivado em Distrações

Como Voltei no Tempo

Para a maioria dos mortais desse gigante planeta Terra, existem duas maneiras de voltar no tempo. Uma: ouvir a música que te lembra este período para o qual deseja voltar. Outra: fechar os olhos e abrir o sorriso para a lembrança que passa, como um filme, por trás de suas pálpebras.

Fora isso, cada pessoa encontra, em sua trajetória, pequenas maneiras de voltar no tempo e reviver sensações. Escrevo isso porque essa semana voltei no tempo. Foi rápido, porém inesquecível. Foi uma situação arquitetada com o talento de cirurgião dessa entidade chamada de “coincidência do universo”.

Foi o seguinte. Meus pais haviam chegado da praia, depois de quase um mês lagarteando sob o sol e o calor da vida boa. Fui visitá-los, com saudade. Cheguei na porta do apartamento e, antes de abrir a porta, percebi que eles estavam ouvindo música – a televisão deveria estar ligada em algum canal musical.

Sorri, sozinha, pensando: bom demais ter pais que amam a arte musical e a valorizam assim como eu.

Assim que abri a porta, percebi que estava passando na televisão o videoclipe da música “Woman in Chains”, do Tears for Fears. Uma música que embalou o comecinho da minha adolescência – eu tinha lá meus 11 ou 12 anos. Ou seja: aí estava a primeira engrenagem que possibilitaria a minha volta no tempo, algo que não planejei. Algo dentro de mim fez “clic”…

Assim que minha mãe se deu conta da minha presença, veio rapidamente ao meu encontro e me abraçou, sorrindo. Depois, olhou-me nos olhos, com o sorriso ainda perfeitamente desenhado em sua pele morena. Os olhos castanhos dela se projetaram para dentro da água verde que são os meus olhos. E esse foi o gancho número dois. Assim como a mão materna puxa para fora da água a criança que se afoga, os olhos de minha mãe me tiraram da mesmice do dia a dia e me levaram para um não-lugar.

Fui suavemente envolvida pelo perfume de baunilha, que é a trilha aromática de quase todas as infâncias do mundo.

Aí eu me dei conta que a nave espacial que me levaria para esse outro tempo estava quase embarcando, estava quase saindo de seu porto, e eu era a convidada da vez. O que eu poderia fazer? Não se luta contra uma coisa dessas. É natural da vida, assim como a paz, o amor e a doçura da vida. Não se luta contra o altruísmo que está no mapa astral de um ser humano.

Foi aí que colaborei para que a viagem de realizasse. Fechei os olhos. Sorri. E continuei abraçada em minha mãe, com a cabeça deitada em amor sobre o seu ombro.

Deve ter durado apenas alguns segundos, no cronômetro humano. No relógio da máquina do tempo, foram tantos outonos.

Aterrissei na Terra diferente – a gente sempre volta diferente de uma viagem no tempo. Horas mais tarde, eu percebi que havia ganhado uma marquinha de expressão horizontal, ao lado do olho esquerdo. Brotaram algumas violetas nos vasos da minha inconsciência, e a semana inteira ficou meio amarela, com o sabor da baunilha grudado em minhas narinas.

Faça uma viagem no tempo, se tiver a chance. Não fuja disso.

Deixe um comentário

Arquivado em Distrações