A História de Gabriel

Os alunos entraram um a um na pequena biblioteca. Olhavam curiosos para mim. Eu estava de pé, próximo às mesas e cadeiras. Estava sorridente. Sentia as pernas tremerem um pouquinho. Os estudantes sentaram-se nas cadeiras colocadas em fileiras horizontais.  Aos poucos, o burburinho foi baixando de volume.

Olhavam-me de cima a baixo. Pensei comigo mesma: “como causar uma boa impressão para pré-adolescentes?” Não encontrei uma resposta que me acalmasse, então resolvi me apresentar.

– Boa tarde… – falei, insegura. – Eu…

– Boa tarde – falaram juntos, esticando a última sílaba e caindo na risada. Eu também ri; havia adorado esta interrupção simpática. Não fazia ideia que esta seria apenas a primeira de tantas visitas em escolas que eu faria depois.

Senti que a confiança deixou minha voz mais firme, depois de rir. Enquanto falava, comecei a reparar no rostinho daqueles meninos e meninas. Todos eles pareciam felizes; tive a impressão de que todos foram criados em lares confortáveis. Cada um com seu quarto pintado com sua cor preferida, sua prateleira recheada de brinquedos e uma gavetinha no criado-mudo para seus segredos.

Ingenuidade minha garantir que todos os estudantes de escola pública vivem assim. Entendi, nas visitas seguintes, que um rostinho feliz pode ser apenas a fachada para uma infância queimada.

Reparei que, enquanto eu falava, um menino sentado em um cantinho me olhava com muita atenção. Ele tinha cabelos escuros, olhos castanhos e pele bem branquinha, pontilhada por sardinhas cor de mel. Ele era um pouco menor do que o restante dos alunos.

Depois de contar um pouco sobre a minha adolescência e o começo da fase adulta, o sinal para o intervalo tocou. Me despedi dos estudantes, que foram pulando serelepes para a hora do recreio. Arrumei minha bolsa e estava prestes e sair também, quando me dei conta que um estudante me esperava na porta. Era o menino das sardinhas.

– Tenho uma dúvida… – disse ele, com um sorriso branquinho e covinhas adoráveis nas bochechas.

– Pode falar! – Falei, prestativa.

– Você comentou que tirava notas baixas na escola. Como se sentia? – questionou, arrumando a franja curta com graça.

– Eu me sentia muito triste e frustrada! Meu coração doía, porque eu desapontava a todos. Mas eu contei muito com a ajuda dos meus pais!

Ao ouvir isso, o sorriso do menino murchou. Me preocupei.

– Qual é o seu nome?

– Gabriel – respondeu, sério.

– Você está tirando notas baixas?

– Sim – disse, cabisbaixo. O sorriso reapareceu, com a cor da culpa.

– E os seus pais te apoiam ou brigam com você?

– Não tenho contato com meus pais.

Senti mal estar. Uma fisgadinha no pescoço, algo que eu sentiria muitas vezes depois, com outras histórias tristes que eu ouviria.

– Como assim? – questionei. Me dei conta que meu sorriso já havia ido embora faz tempo, e que o sorriso dele era apenas um reflexo do meu.

– Meu pai é drogado e minha mãe… bem, ela fez coisas erradas também. Ela arranjou um namorado que me ameaçava com uma arma. Um juiz proibiu meus pais de terem contato comigo. Quando eu era pequeno, no colo da minha mãe, tive que encarar o juiz e prometer para ele que eu não viveria mais com meus pais. Hoje moro com minha avó.

Com a boca aberta em susto, as palavras me faltavam.

– E sei lá, eu sinto uma coisa ruim dentro de mim – disse Gabriel. – Uma tristeza grande, sabe?

– Sei, sei – foi o que respondi. Senti meus olhos se arregalando, tentando absorver cada detalhe de Gabriel. Sua franjinha curta, o uniforme limpinho, as unhas roídas. Usava chuteiras.

– Por isso eu queria saber o que você fez para superar as notas baixas – falou, olhando para baixo.

Fechei os olhos por um momento e, quando os reabri, Gabriel me olhava e sorria, divertido.

– Querido, você precisa fazer terapia! Você está tirando notas baixas por causa dessas preocupações. Você não deveria estar passando por isso – falei, sem ter certeza de que isso seria o adequado. – Tu precisa da ajuda de uma psicóloga! Você sabe o que é uma psicóloga?

– Não, mas já me falaram antes que eu preciso disso.

Peguei o número do telefone da casa de Gabriel e fui embora da escola completamente transtornada. Dirigia tremendo. Telefonei para uma amiga, ao estacionar.

– Preciso que alguém arranje terapia de graça pra um estudante!

– Capaz, Vanessa. Como assim?

– Tem um menino que precisa! Urgente!

– Ihh, Vanessa. Já foi se envolver com história triste de criança…

– Com certeza me envolvi. E tem como não se envolver?

Desliguei o telefone, revoltada. Como eu não me envolveria? Será que outra pessoa, no meu lugar, ouviria a história de Gabriel e diria: “desculpe, não vou me envolver”?

Se como jornalista eu já me envolvia com a história dos entrevistados, imagine se ia deixar de me envolver logo agora, com a narrativa dessas crianças… A ética, nessas horas, não vale nada. Deixo a ética do conforto guardadinha na última gaveta do meu criado-mudo.

Já nessa primeira experiência de bate papo com estudantes, percebi que ao entrar em uma escola eu já estou me envolvendo. É impossível entrar na realidade das outras pessoas, querer passar uma mensagem e não me envolver com seus sorrisos e tristezas. Me envolvo nessas historinhas como se fossem cobertores de lã confortáveis, algo que preciso para aquecer alguma coisa dentro de mim.

No mesmo dia, fiz contatos e falei com a família de Gabriel. E eu não fazia ideia de que, dias depois, chegaria em minhas mãos uma cartinha com uma história ainda mais surpreendente.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “A História de Gabriel

  1. O mais triste é saber que hoje, a consciência desse menino vê apenas nas notas baixas um problema. Daqui há alguns anos, ele nem vai se lembrar disso. Texto muito bonito, Bencz, apesar da angústia de Gabriel.

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