De vez em quando me sinto uma casa

De vez em quando me sinto uma casa.

Se eu fosse uma casa, seria cheia de quartos. Um longo corredor seria a minha coluna vertebral… meus pulmões seriam quartos grandes, com vista para o jardim cheio de margaridas.

Em cada quarto morariam fases da minha vida. O quarto da minha infância é grande, rosa clarinho, com prateleiras onde sentam bonecos meio velhos. Neste quarto, ecoam as risadas que gargalhei com meus irmãos. Ecoa a luz do sorriso da minha mãe; tem cheiro de abraço do meu pai.

No quarto da minha adolescência vejo pôsteres de bandinhas que gostei; existe uma guitarra pendurada na parede. No chão, cacos de corações que quebrei… incluindo o meu, que foi jogado no chão com raiva. Páginas de diário estão rasgadas perto da janela. Minha caligrafia sempre foi feia.

Neste quarto de paredes roxas que é a adolescência encontrei passagens secretas. Em uma delas, encontrei as viagens de ônibus que fiz para ficar perto dos meninos que amei. Noutra, estão minhas paixões antigas: Kung Fu, livros, mais diários, um skate quebrado pela metade, um tênis que usei até furar a sola.

Perto do meu coração tem mais um quarto. É um quarto de paredes bem branquinhas. Nas paredes, estão coladas fotos das pessoas que já entrevistei. Todas que me fizeram chorar, todas que me fizeram sorrir, todas que me fizeram acordar de noite em sobressalto.

De vez em quando, me sinto uma casa. Mas não estou em nenhum quarto: estou no corredor, perguntando-me onde devo entrar. Mas a solução é sempre a mesma: entrarei no coração!

Sôfrega, corro para o coração. A adrenalina faz aquela percussão tão conhecida em meus ouvidos… o sangue batuca com força, tensão e piano. Escancaro a porta do coração. É incrível; mas toda vez encontro pessoas diferentes lá dentro. Hoje, encontrei minha irmã, sorrindo. Mas dentro do meu coração ela não é adulta – não tem os 30 anos que tem na vida real. Ela é sempre criança.

Eu sempre pego no colo as crianças que amo. Todas elas.

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3 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

3 Respostas para “De vez em quando me sinto uma casa

  1. Sempre que entro aqui nesse quarto tenho a certeza de que será uma viagem literariamente intensa, descontraída e, assim como sua autora, distraída.
    Também sempre tive essa sensação de que nossas memórias são quartos percorridos por corredores que levam até o quarto principal, o coração, que, apesar de não ter a função de armazenar lembranças, guarda os principais efeitos causados por elas: os sentimentos.

    Um abraço de seu assíduo e eterno leitor.

  2. Gago

    Demais. Sempre 🙂

  3. Adorei esse texto. Eu me identifiquei muito com ele. Também me sinto uma casa e, últimamente, andei visitando uns quartos que estavam fechados há tempos.

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